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Análise: documentário 'Cidade de Fantasmas' mostra o horror contemporâneo

Logotipo do(a) Estadão Estadão 19/04/2017 Luiz Zanin Oricchio
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Filme de abertura do É Tudo Verdade em São Paulo, Cidade de Fantasmas, de Matthew Heineman, mostra o horror contemporâneo em uma de suas faces mais explícitas – a do Estado Islâmico. A cidade de que fala o título é Raqqa, na Síria, descrita como aprazível até a chegada em 2014 do EI, que a transforma em sua “capital” e instaura regime de terror em que opositores são fuzilados ou degolados em praça pública, para exemplo dos demais.

Como forma de resistência, um grupo de jornalistas locais formou uma associação, o RBSS (Raqqa is Being Slaughtered Silently, “Raqqa está sendo massacrada em silêncio”). Alojados no exterior, os ativistas travam uma luta midiática com o EI que não se limita ao embate de ideias, ou de imagens. Mesmo operando no exílio, a atividade é muito arriscada. Um dos mentores, Naji Jerf, foi assassinado na Turquia em 2015, quando as filmagens de Cidade de Fantasmas já tinham começado. Os outros membros são constantemente ameaçados e precisam tomar medidas de segurança extremas.

O filme tem passagens dolorosas e de difícil assimilação. Mesmo porque os jihadistas não fazem qualquer questão de esconder seus métodos de punição e extermínio de infiéis. Pelo contrário. Usam o horror como propaganda. Isso não impede que persigam de maneira tenaz quem propõe um contradiscurso, como é o caso do RBSS. Ou que tentem impedir que a população da própria cidade tome conhecimento do que o grupo divulgue. Em ação extrema, os jihadistas destruíram as antenas parabólicas da cidade, na tentativa de isolá-la do mundo. Há uma sutil contradição aqui: a denúncia do horror incomoda, mas o horror se expõe a si mesmo, e de maneira ufanista, além de tecnicamente bem construído.

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Em sua passagem por São Paulo, o grande crítico e documentarista Jean-Louis Comolli falava justamente das técnicas de filmagens de atrocidades praticadas pelo EI. Ele se espantava que tivessem assimilado métodos de filmagem, enquadramentos e montagens típicos dos blockbusters de Hollywood, visando a criar impacto sempre maior com suas imagens.

Algumas imagens de execuções presentes em Cidade de Fantasmas evocam esse comentário de Comolli. Cenas de fuzilamentos parecem tão elaboradas que, por um minuto, nos iludimos e achamos que são de ficção. Apenas quando as armas são por fim disparadas, o estrondo e a forma como os corpos caem nos trazem de volta à realidade. E então o terror se impõe com toda a sua incongruente carga de verdade.

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