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O primeiro país que o mar vai engolir com a mudança climática

Logotipo do(a) EL PAÍS EL PAÍS 22/09/2018 Patricia Peiró

Imagem do documentário sobre Kiribati. © Fornecido por El Pais Brasil Imagem do documentário sobre Kiribati.

Já se disse que Kiribati, um Estado composto por 33 ilhas no meio do Pacífico, algum dia vai virar uma Atlântida, e que seus habitantes ficarão irremediavelmente submersos pelas águas do oceano. Um relatório da ONU alertava, já em 1989, que esse seria o primeiro país a ser dizimado pela mudança climática no século XXI, devido à elevação do nível dos mares. O Governo desenhou nos últimos anos um plano de transferência populacional para as quase vizinhas ilhas Fiji, caso a inundação se confirme, e seu ex-presidente Anote Tong percorreu o mundo na última década levando o nome de seu país por todos os fóruns possíveis: a sede da ONU, as cúpulas climáticas, programas de televisão, visita oficiais a outros Estados, o Vaticano...

O ex-presidente Anote Tong, protagonista do documentário. © Fornecido por El Pais Brasil O ex-presidente Anote Tong, protagonista do documentário.

O fotojornalista canadense Matthieu Rytz aterrissou nesse país para uma reportagem há quatro anos e disse a si mesmo: “Esta é minha história”. Sem nenhuma experiência prévia no audiovisual, investiu todas as suas economias para acompanhar Tong em suas viagens e gravar o documentário Anote’s Ark (“a arca de Anote”), que estreou no festival de Sundance e será exibido no madrilenho Another Day Film Festival, que acontece de 4 a 7 de outubro. A programação do evento reúne cerca de 20 documentários sobre ativismo, desenvolvimento sustentável, consumo responsável e saúde global. A história de Anote fecha o ciclo.

“Estamos tão isolados que sempre achamos que as atribulações do mundo nada tinham a ver conosco, mas aqui estamos, submetidos ao fenômeno global da mudança climática”, diz o ex-presidente no filme. Em 2016, ele perdeu as eleições para Taneti Mamau, um mandatário que promoveu uma guinada na política externa de Tong e se centrou em potencializar o turismo e a pesca num plano para os próximos 20 anos. Depois de quatro anos indo e vindo das ilhas, Rytz já não é bem recebido em Kiribati. “No Natal passado fui para lá projetar o documentário. Para mim era importante que, depois de ter convivido com eles, vissem o resultado. Estava na casa de alguns amigos com minha mulher, e três policiais ficaram com meu computador e me disseram que eu precisava pegar o próximo voo”, relata por telefone.

Os habitantes de Kiribati são gente da água. Brincam nela, dela obtêm seu alimento diário, são açoitados por violentas tempestades, suas casas são construídas com o pé na areia. “Para eles o mar tem um sentido quase espiritual, sentem um grande respeito pelo oceano porque, quando você está lá, literalmente só vê mar”, conta o cineasta. Além de ser devorados completamente pelo Pacífico, seus habitantes já enfrentam a falta de água potável, e alguns povoados costeiros precisaram se deslocar alguns metros para o interior do território. O documentário de Rytz contém lindas imagens em que a água, que lhes dá vida e pode acabar matando seu país, é a protagonista. Grandes planos gravados com um drone mostram o imenso azul que rodeia Kiribati e onde seus cidadãos submergem a cada dia.

O documentário também acompanha Tiemeri, mãe de seis filhos que decide abandonar a ilha em busca de um futuro para sua família na Nova Zelândia. Kiribati ocupa 139º. lugar entre 184 países que compõe o ranking do IDH (índice de desenvolvimento humano). A população do país oceânico não para de crescer, e a natalidade supera os três filhos por mulher. Organizações como o Banco Mundial elaboraram relatórios para propor a acolhida obrigatória dos habitantes das ilhas do Pacífico por parte da Austrália e Nova Zelândia. Os kiwis oferecem anualmente 75 postos de trabalho para os quiribatianos, graças a um acordo bilateral.

Mais de metade da população de Kiribati é católica, mas o fotojornalista relata que nos últimos anos a igreja mórmon de Utah (EUA) andou investindo dinheiro nesse Estado insular e ganhando adeptos para sua fé. “A maioria da comunidade nestas ilhas se organiza em torno da igreja, é um lugar de encontro para eles. Por isso quando o presidente foi ver o Papa estava convencido de que seria algo relevante”, resume Rytz. No filme, é possível ver igrejas abarrotadas, com paroquianos que brigam por espaço para beijar as imagens religiosas antes das danças tradicionais polinésias.

Enquanto limpa um peixe, Tong resume assim a realidade em que vive há mais de uma década: “Quem foi embora perdeu a conexão espiritual com Kiribati, porque já não se considera nativo. Não podemos resistir, estas ilhas vão desaparecer. Se formos embora, preservar nossa cultura e tradições não será nada fácil”.

OUTROS TÍTULOS EXIBIDOS NO ANOTHER DAY FILM FESTIVAL

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Silas.Retrata a vida do ativista Silas Siakor e sua luta pela defesa da terra na Libéria

When Lambs Become Lions.A história de um comerciante de marfim e sua prima na selva do Quênia.

The End of Meat. Relato que imagina um mundo pós-carne.

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