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Blatter: “Copas do Mundo não são compradas, são influenciadas por pressão política”

Logotipo do(a) Trivela Trivela 6 dias atrás Felipe Lobo

© Joseph Blatter, presidente da Fifa, em protesto no dia 20 de julho de 2015 (Photo by Philipp Schmidl...

Como se consegue uma Copa do Mundo? A escolha do Rússia e especialmente do Catar para sede das Copas de 2018 e 2022, respectivamente, suscitou dúvidas de compra de votos. Joseph Blatter acredita que foi justamente a escolha do Catar que causou o furacão Fifagate, que varreu diversos dirigentes da Fifa – ele incluso. Ele se considera injustiçado, diz que não fez nada de errado e culpa Michel Platini e o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy. Ele apoiava a Copa de 2022 nos Estados Unidos e sonhava com um Prêmio Nobel. Não para ele, diz, mas para a Fifa.

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Joseph Blatter é uma das figuras mais importantes do futebol no século XXI. Esta não é uma avaliação qualitativa, mas de importância. Blatter presidiu a Fifa de 1998 a 2015, quando caiu no Fifagate. Ele estava na Fifa desde 1975, sendo braço direito de João Havelange. Os dois mudaram o futebol no mundo, de uma forma que trouxe democratização, com o futebol chegando a muito mais países, ao altíssimo custo de ter gente sedenta por poder. E por dinheiro.

O modo Havelange de administrar a Fifa descentralizou o futebol da Europa para espalhar o poder do futebol pelo mundo. O custo foi justamente fazer com que esse poder se revertesse justamente ao próprio Havelange na disputa com seus concorrentes europeus. A descentralização do futebol foi algo positivo. O preço é que é discutível.

Havelange igualou o voto de federações poderosas como a Inglaterra com as Ilhas Cayman. Isso obrigou uma descentralização, só que o custo foi alto. Literalmente. A Fifa passou a ter que gastar bilhões de dólares com federações dos países mais longínquos, o que não seria ruim se não fosse só uma forma de dar dinheiro sem nenhuma contrapartida e enriquecer dirigentes nos mais diversos lugares do mundo.

Blatter foi o melhor aluno da escola Havelange de política. Aprendeu com ele e se tornou o seu herdeiro no cargo. Tornou-se um animal político, capaz de sobreviver no selvagem mundo do poder pelo mundo. Aprendeu a lidar com governos, com federações e gerenciar uma entidade que tem mais filiados que as Nações Unidas.

Enquanto as Nações Unidas possuem 193 países filiados e dois observadores, a Fifa tem 211 federações nacionais associadas. Ele criou o caminho para se preservar, se fortalecer e criar uma estrutura que o tornou imbatível em termos políticos. Ninguém o tiraria da presidência da Fifa enquanto ele não quisesse sair. Mas ele não contava com o Fifagate. Ninguém contava.

Blatter é categórico em afirmar que não fosse pela Copa de 2022 ter sido dada ao Catar, o Fifagate não teria acontecido. Ele chama os Estados Unidos e Inglaterra de “maus perdedores”. Os americanos concorriam por 2022; os ingleses por 2018. Blatter, aliás, não entende porque o Departamento de Justiça dos Estados Unidos passou a ir atrás dele, mesmo tendo apoiado a candidatura americana à Copa 2022. Sim, Blatter sempre quis que os americanos sediassem o evento, não o Catar. Mas por quê? Bom, um indicativo está em um objetivo maior, nobre, que ele queria orgulhar-se: ganhar um Prêmio Nobel.

“Nós tivemos reuniões com os organizadores do Prêmio Nobel. Eu estava lá e o que eu estava pedindo, realmente pedindo, era um Prêmio Nobel: para o futebol, não para um homem. É o movimento, para a Fifa”, afirmou Blatter, em entrevista a David Conn, publicado no Guardian.

O que Conn relata no texto, publicado no livro “The Fall of the House of Fifa” é que uma figura importante da Fifa relatou o tamanho da queda de Blatter. Ele tinha 79 anos, sobreviveu às mais diferentes mudanças e desafios que se apresentaram diante dele. Ele estava prestes a conseguir um Prêmio Nobel para a Fifa, o que seria uma forma dele mesmo se envaidecer. Tudo isso caiu com o Fifagate.

Blatter diz que nunca recebeu dinheiro via corrupção, apesar de muitos ao seu redor não terem feito cerimônia para enriquecerem às custas do futebol. Muito embora a justiça da Suíça discorde, como mostramos nesta matéria, de junho de 2016: Justiça suíça confirma o esperado: Blatter chegou a desviar US$ 80 milhões nos últimos cinco anos. Além disso, ele é acusado de ser o corruptor, de usar o seu poder e influência na entidade que dirige o futebol para manter o dinheiro fluindo na direção das federações nacionais e confederações continentais, de modo que o dinheiro sustentasse o poder que ele tinha. O objetivo era justamente esse: a manutenção do seu poder como mandatário da “Família Fifa”.

O reinado ruiu e a Copa 2022 é o centro das argumentações do suíço. Blatter culpa Michel Platini. Foram os votos do então presidente da Uefa conseguiu para o Catar que mudaram o jogo e deram a vitória aos asiáticos. Na época, Platini se reuniu com Nicolas Sarkozy, presidente da França, e o emir do Catar – que acabaria por comprar o Paris Saint-Germain, não por acaso o clube de coração de Sarkozy, além de uma relação para lá de suspeita do político com o país do Oriente Médio.

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No livro “Une France sous influence”, de Vanessa Ratignier e Pierre Péan, os autores revelaram que Sarkozy não era apenas um amigo do regime do Catar: era um investimento. Em 2007, Nicolas Sarkozy conseguiu a liberação de enfermeiras búlgaras e um médico palestino detidos pelo ditador Muamar Kadhafi. Quem pagou pelo resgate foi o emir do Catar. Nos cinco anos do seu governo, Sarkozy isentou o Catar de pagar impostos dos seus ganhos imobiliários em território francês. Uma oferta bastante generosa do então presidente.

A influência de Sarkozy, unida com o poder e influência de Platini no futebol, levaram à desastrosa escolha do Catar como sede da Copa de 2022, como descreve Blatter. O ex-presidente da Fifa afirma que é uma distração procurar por suborno quando se trata de votos para sede de Copa do Mundo. Segundo ele, as investigações do Departamento de Justiça americano encontraram dirigentes das confederações locais recebendo suborno na venda de direitos de TV locais. O suíço não acredita que essa mesma prática determinou os votos para Copa do Mundo.

“As Copas do Mundo não são compradas; elas são influenciadas pela pressão política”, afirmou Blatter. “Sarkozy mudou tudo. Ele pediu para Platini cuidar dos interesses da França e votar com seus colegas do Catar”, descreveu ainda o antigo número 1 da Fifa. Aquele almoço entre Platini, Sarkozy e o emir do Catar foi determinante e Blatter faz questão de expor o que considera o cinismo de Platini. “Algumas semanas antes daquilo, ele me disse que nós não poderíamos ir para o Catar, porque diriam que estaríamos sob pressão para ir para o Catar, que fomos pagos, pressionados. E aí ele vem com isso...”, disse Blatter.

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Blatter ainda se afastou de tudo que foi descoberto depois pelas investigações do Fifagate. Para o suíço, os americanos encontraram mesmo corrupção, com os subornos pagos a dirigentes e propinas pagos por empresas por direitos de TV de diversas competições, como a Copa América – o que implicou dirigentes brasileiros, como José Maria Marin, preso em Nova York, e Marco Polo Del Nero, que desde 2015 não deixa o país porque se não corre o risco de ser deportado para responder ao processo americano, assim como Marin.

Tudo isso, porém, não tem nada a ver com a Fifa. Ao menos é o que diz Blatter. Ele diz que a Fifa não tinha controle sobre as confederações. “Então por que diabos o presidente da Fifa deveria carregar todas as acusações, a responsabilidade e a culpa?”, alega Blatter.

Blatter diz que não sabia que os dirigentes presos eram corruptos, boa parte próximos a ele no Comitê Executivo da Fifa e que participaram da votação que levou o Catar a ser sede da Copa 2022. Diz que o seu erro foi confiar nas pessoas. Um argumento muito comumente utilizado por políticos que se veem cercados por esquemas de corrupção, mesmo que as acusações não sejam diretamente contra ele. Nós, no Brasil, nos acostumamos a ver isso muitas e muitas vezes nos últimos anos. Alegar desconhecimento de esquemas corruptos, mesmo que eles acontecessem por seus homens de confiança e o beneficiassem, parece terrivelmente conveniente.

Aos 80 anos, banido do futebol, Blatter sabe que o reinado acabou. Ele insiste em brigar, se recusando a uma aposentadoria que seria mais fácil e tranquila. Diz que faz isso, que luta – mesmo sendo derrotado em algumas dessas batalhas, como uma contra a justiça suíça – porque não fez nada de errado. Acredita que não fez nada de mais.

Pessoas que o conheciam no trabalho do dia a dia na Fifa relatam alguém que tinha, além das artimanhas, da ambição e da personalidade implacável, havia um encanto, senso de humor e uma paixão verdadeira por futebol. Uma paixão que a história mostra que só não foi maior que a paixão pelo poder. Talvez Blatter tenha entrado em uma obsessão tão grande que acredita que ele fazia um bem tão grande ao futebol que tudo isso que ele fazia pelo poder era, no final, por um bem maior. Não é incomum que alguém se torne implacável e acredite na sua própria versão da história para praticar todo tipo de ação, mesmo que ilegal, corrupta ou impiedosa, porque acredita que o que faz é o bem maior. Um dos delírios que o poder traz.

A bandeira da Fifa com a inscrição "For the game. For the world". (Photo by Harold Cunningham/Getty Images) © Fornecido por F451 Midi Ltda. A bandeira da Fifa com a inscrição "For the game. For the world". (Photo by Harold Cunningham/Getty Images)

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