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O desafio da vida à distância

Logotipo do(a) IstoÉ IstoÉ 27/03/2020 Vicente Vilardaga
POLÍTICA O senador  Antonio Anastasia comanda votação no Senado feita por teleconferência © Marcos Oliveira POLÍTICA O senador Antonio Anastasia comanda votação no Senado feita por teleconferência

O coronavírus é um micróbio disruptivo. Sua capacidade de romper rotinas, alterar a realidade, impor novos comportamentos e hábitos é notável. O medo de contágio, o aumento exponencial no número de doentes, o distanciamento social e o crescente isolamento das pessoas em todo o mundo estão estabelecendo, por exemplo, novas práticas de trabalho e exigindo soluções tecnológicas que antes eram opcionais e, do dia para a noite, se tornam obrigatórias para milhões de pessoas. O que era típico, até agora, de empresas de internet, virou padrão.


E pode ser que isso se perpetue, dependendo do desenvolvimento da pandemia, para muitos profissionais. Quem se adaptar bem ao trabalho remoto vai ter um trunfo em inúmeras funções da sociedade. Teleconferências de baixo custo e com dezenas de participantes são a bola da vez no mercado, na política e nas famílias. Pela primeira vez na história do Senado, uma decisão foi tomada em uma votação à distância, feita por teleconferência. Votou-se o decreto de calamidade pública para combater a disseminação do coronavírus que foi aprovado por unanimidade e entrou imediatamente em vigor.

Na terça-feira 24, cinco dias depois, o Senado usou o mesmo Sistema de Deliberação Remota (SDR), para votar a Medida Provisória 899/2019, que inclui empresas optantes do Simples em um programa de acertos de pendências com a União. A decisão de votar remotamente foi tomada depois que três parlamentares da casa contraíram o coronavírus: o presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP), Nelsinho Trad (PSD-MS), que esteve na comitiva para Miami com o presidente Jair Bolsonaro, e Prisco Bezerra (PDT-CE). O sistema de debate e votação foi desenvolvido pela Secretaria de TI do Senado, a Prodasen.

© Divulgação

“A tecnologia ajudou o Senado a cumprir seu papel neste momento difícil da Nação”, disse o senador Antonio Anastasia (PSD-MG), que preside as sessões interinamente e classificou as primeiras experiências de votação “estáveis e seguras”. “É claro que um processo legislativo tem seus nuances, características e diferenças do ambiente corporativo, mas a conferência à distância é possível e viável, tanto que nós já votamos na semana passada, votamos ontem, ontem, aliás, numa sessão longa com duas mudanças de orientação, com votações nominais, deu tudo certo”, completou o senador.

O mais impressionante, segundo ele, foi o quórum altíssimo. Havia 79 presentes, só não estavam os dois que estão afastados em razão da doença, Alcolumbre e Nelsinho. Bezerra, que é assintomático e cumpre quarentena, participou da sessão. “Se você fizer um levantamento, numa medida provisória, matéria de lei ordinária, quórum de 79 é raro”, completou. Alguns senadores votaram em seus gabinetes, outros estão em suas residências em Brasília, outros nos seus estados, em casas ou no escritório.

Como os senadores, governadores de todo o Brasil passaram a semana participando de teleconferências entre eles ou com o presidente Bolsonaro para discutir a crise sanitária. Os debates políticos estão se desenvolvendo à distância e os contatos de alto nível, sem necessidade de locomoção para participar de reuniões, se tornaram mais baratos, simples e práticos. “Claro que o processo fica um pouco mais lento, talvez as discussões fiquem um pouco mais demoradas, as convergências demorem um pouco mais, mas a teleconferência me parece uma forma democrática e eficiente de funcionar”, afirma Anastasia.

“Isso jamais vai substituir o contato físico nas votações, aquela conversa de pé de ouvido típica da política, das negociações, mas num caso como esse em que se têm problemas de saúde, é uma forma de manter o trabalho em andamento”. Para o senador, a solução não há outra opção e o Congresso não pode parar. “E o fato do quórum estar alto é muito positivo”, completa.

Grandes empresas estão seguindo a mesma linha e tentam, cada vez mais, resolver seus problemas remotamente. No meio da espinhosa reestruturação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB Brasil RE), Antonio Cassio, que acaba de assumir a presidência da empresa, vê o trabalho remoto como uma âncora de salvação. Cassio está habituado à rotina de trabalho em casa, que ele chama de “smart working” (trabalho inteligente) e consegue produzir tão bem presencialmente como à distância. O IRB tem 400 empregados e, neste momento, estão quase todos na rotina do home office. A exceção é um núcleo da contabilidade que trabalha presencialmente por conta de serviços de fechamento de balanços.

O que Cassio sente no seu novo modelo de trabalho é que o dia fica mais longo. Ele acorda às 6 horas, veste uma roupa e vai para seu QG, que é a mesa de jantar. Participa de videoconferências o dia todo. Na segunda-feira 16, participou de dez e fez 13 vídeos. Faz paradas para tomar café, almoçar e à tarde para brincar com o cachorro e se diz preparado, se for necessário, para ficar os próximos 60 dias em home office. “A ida ao escritório não faz falta e a maior dificuldade que estou tendo é não saber a hora de parar. Ontem, fui até as 11 horas da noite”, conta. “A companhia está funcionando normalmente e de maneira eficiente”.

Para quem mergulha no home office, o local de trabalho se torna relativo. Nos últimos cinco anos, Cassio trabalhou na seguradora Generali e atendia oito países com quatros fusos horários diferentes. A maior parte de suas reuniões era feita por videoconferência e o escritório era só um ponto de apoio e não o lugar do executivo. Mesmo à distância, ele se sentia sempre próximo de sua equipe, como acontece agora. O Conselho de Administração do IRB está funcionando perfeitamente e, segundo Cassio, os conselhos nunca funcionaram tão bem. “Acho que devemos aproveitar o momento para fazer uma revolução boa”, afirma. “Quando você descobre que um ser microscópico é capaz de ameaçar sua vida, se pergunta quem é e como encontrar luz no meio da vulnerabilidade”. Até quinta-feira 26, havia no mundo cerca de 500 mil infectados pelo coronavírus e 22,2 mil mortos pelo Covid-19, segundo levantamento da Johns Hopkins University. No Brasil, o número de contaminados passava de 2,6 mil e o de mortos chegava a 61.

© Fornecido por IstoÉ

Carteira Virtual

Empresas de tecnologia têm sua situação facilitada nesse processo de mudança por estarem mais habituadas ao trabalho à distância. É o caso da PicPay, que controla um aplicativo para a realização de compras online e transferência de valores por meio de uma carteira virtual. A empresa eliminou qualquer atividade nos seus escritórios e, neste momento, só foi mantida a rotina de limpeza duas vezes por semana e a presença dos recepcionistas. Todas as outras atividades da empresa estão sendo feito por teleconferência. “Sempre fizemos isso de forma alternada e agora está todo mundo remoto”, afirma o co-fundador e diretor de Recursos Humanos, Dárcio Stehling.

Os funcionário da PicPay nunca tiveram, por exemplo, telefone na mesa, todo trabalho sempre foi feito na frente de computadores. Desde quarta-feira 11, a empresa colocou seus 1,3 mil funcionários em regime de home office. No dia seguinte, apenas 40 funcionários foram a escritório para buscar alguma coisa ou resolver pequenas pendênciaa. Na sexta-feira, já estavam todos em casa.

“A grande reclamação é a saudade dos colegas, mas tem gente que se queixa da rotina, de por a roupa de trabalho para ficar dentro de casa”, diz Stehling. Ele relata que as reuniões se tornaram mais breves e não houve nenhuma queixa de funcionário dizendo que não está conseguindo trabalhar. Participam até 40 pessoas das reuniões. A empresa resolveu todos os problemas de software e de conexão nas máquinas que estão sendo usadas com serviços de suporte.

Stehling usa muito o aplicativo de teleconferência Zoom, grande vedete nestes tempos de pandemia. Outras ferramentas que estão sendo usadas nas reuniões à distância são o Skype, Microsoft Teams, Google Hangouts e o WhatsApp. “É preciso um fone de ouvido com um microfone bom e existe uma etiqueta do trabalho remoto a ser seguida”, diz “Quem não está falando fica no mudo para que todos possam ouvir o que está sendo dito”.

Telemedicina e ensino à distância ganham mais importância num momento em que encontros presenciais devem ser evitados

Já para quem não é da indústria de tecnologia, as coisas são mais incomodas. O presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), Milton Rego, diz que a situação atual traz estorvos para o setor. De um modo geral, as empresas colocaram todos seus funcionários administrativos no home office, enquanto o pessoal das fábricas está recebendo cuidados de saúde diários. A temperatura dos operários está sendo medida periodicamente e departamentos são colocados em quarentena quando há algum trabalhador com suspeita de contágio.

Trinta empresas são associadas à Abal e algumas delas, principalmente pequenas e médias, não tinham notebooks para todo mundo e precisaram alugar os equipamentos. O mercado de aluguel de máquinas está em plena expansão neste momento. “Isso é muito novo. Não se faz uma mudança tão drástica sem perder produtividade, mas o impacto disso depende do perfil do empregado”, diz Rego. Na Abal começamos isso na quarta-feira passada, mas ninguém pensava no assunto dez dias antes. Pensava-se na diminuição das pessoas nos escritórios, mas não em interrupção total. Foi tudo muito rápido e algumas pessoas estão com dificuldades com alguns sistemas.

Como acontece no Senado, Rego percebe que no home office é tudo mais lento. Na reunião presencial, as pessoas estão a dois metros de distância e você fala e resolve, mas no remoto é preciso mandar mensagem. “A gente está aprendendo de maneira dramática. Se a economia mundial passar por uma mudança total, isso vai causar uma enorme perda de produtividade. É uma disrupção muito grande. Empresas e os países terão que mudar seus protocolos”.

Serviços médicos

Até os hospitais, em tempos de pandemia, tem que intensificar o trabalho à distância e ampliar e aprimorar seus serviços remotos. No Albert Einstein, em São Paulo, que tem 13 mil funcionários, todos os trabalhadores administrativos estão trabalhando em casa, seguindo as orientações das autoridades sanitárias.Também estão sendo impulsionados os serviços de telemedicina e tele UTI, segundo Felipe Spinelli de Carvalho, diretor de ensino do Einstein. As duas modalidades são oferecidas há vários anos pelo hospital.

A telemedicina tem uma importante uma importante função social e sua utilização foi aprovada, há duas semanas, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para conter o coronavírus. Com a tele UTI é possível dar apoio técnico a outros hospitais que não contam com médicos intensivistas e precisam de apoio. Um programa de telemedicina do Proadi-SUS, na região Norte, permitirá que os profissionais do Einstein atendam pacientes de 120 cidades. “A telemedicina vai ser um grande recurso, principalmente para diagnóstico”, afirma Carvalho.

Desde 2012, o Einstein oferece telemedicina, mas o número de atendimentos disparou e atingiu 200 por dia na semana passada. Além do atendimento médico, ferramentas de teleconferência também servem bem para a educação. Mais de 7 mil alunos dos cursos do Einstein, que tem faculdades de enfermagem e medicina, escola técnica e pós-graduação, usam o Zoom ou a plataforma de aprendizagem Canvas para falar com professores e colegas.

Apesar do entusiasmo com as reuniões remotas, a expectativa no mercado, na política e nas famílias é de que a situação volte ao normal. Mas é certo que um novo ciclo de aprendizado de reuniões à distância e home office está sendo impulsionado pela pandemia. E as pessoas estão descobrindo como fazer as coisas de outra forma. Muitas não mais voltarão ao esquema anterior. “Na teleconferência há uma demora um pouco maior, mas a decisão acaba ocorrendo como ocorreu ontem. Foi perfeito. Houve discussão, divergência e a divergência foi decidida no voto, como convêm ao Parlamento”. Mesmo com algumas dificuldades, o trabalho à distância, como prova o Senado, pode ser uma saída perfeita nesses tempos de peste, quando ficar em casa é a melhor decisão.

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