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Missa colonial reúne músicos alemães e brasileiros em concerto

Logotipo do(a) Estadão Estadão 23/06/2022 João Luiz Sampaio

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Os olhinhos permanecem fixos no maestro. Mesmo quando a música para. Bravi, vem o elogio. As partituras viram. Nova passagem. Cum Sancto Spiritu. Após a breve introdução, as vozes se unem com força à orquestra. Difícil ignorar o impacto da cena: a música entoada no altar da catedral, a luz da manhã entrando pelos vitrais. É sinestesia que chama.

Tudo isso acontece na manhã de terça-feira na Catedral Presbiteriana, na região central da cidade. O coro vem da Alemanha, os Meninos Cantores de Hamburgo; a orquestra é a Sinfônica da USP; o maestro, Luiz de Godoy; a música, a Missa de Santa Cecília, do padre José Maurício Nunes Garcia. Também no palco, membros da Ocupação Cultural Jeholu, que discute a presença negra no mundo da música clássica.

Ensaio de um concerto com a Sinfônica da USP na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo  © Tiago Queiroz/Estadão Ensaio de um concerto com a Sinfônica da USP na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo 

“É muito especial para mim estar aqui fazendo essa obra em especial, era um sonho regê-la, e ainda mais com esse coro”, diz após o ensaio o maestro Godoy, brasileiro de Mogi das Cruzes que é diretor do conjunto na Alemanha. “Mas a apresentação para mim é a cereja em um bolo com muitas camadas que dão significado ao que estamos fazendo.”

O projeto nasceu em 2020, de um convite de Claudia Toni, curadora, ao lado do pianista Cristian Budu, do Festival Sesc de Música de Câmara, que ocorre em diversas cidades do Estado de São Paulo até o dia 26 deste mês. A ideia era trazer Godoy, que se formou em Viena e hoje vive na Alemanha, maestro na Ópera de Hamburgo, de volta ao Brasil.

A discussão sobre o repertório esbarrou em vários formatos. A princípio, discutiu-se um programa em torno do centenário da Semana de Arte Moderna, mas eventualmente o foco seguiu em direção à outra grande efeméride do ano, o bicentenário da Independência. “A Missa me pareceu então uma escolha natural”, conta o maestro. “Escrita em 1826, é a obra coral-sinfônica mais importante e próxima do momento da Independência.”

Escolhida a obra, foi hora de refletir sobre a sua interpretação. “Eu me comprometi desde o início com a ideia de uma abordagem decolonial. A nossa música foi fortemente influenciada pela música europeia, em um processo hegemônico. Mas com o tempo essa música foi o ponto de partida de um movimento de autonomia para os músicos daquela época, que se reuniam nas irmandades e deram gênese a uma música brasileira”, explica Godoy.

Os Meninos Cantores de Hamburgo são regidos pelo maestro Luiz de Godoy.  © Tiago Queiroz/Estadão Os Meninos Cantores de Hamburgo são regidos pelo maestro Luiz de Godoy. 

Nesse sentido, o concerto representa uma inversão. “Eu conversei muito com as crianças durante a preparação na Alemanha. Cantar essa obra foi um convite à reflexão deles sobre a nossa história, nossas idiossincrasias. Expliquei que naquela época a maior parte dos músicos era negra, mas que essa música vinha da tradição europeia, até começar a conquistar uma voz própria.”


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Foram quatro meses de preparação na Alemanha antes da viagem ao Brasil. “Para facilitar o processo, também incluí no repertório de concertos nossos por lá música de autores nacionais, como Villa-Lobos, Pinto Fonseca, Ernani Aguiar, Antonio Ribeiro. Isso deu oportunidade a eles de conhecer melhor como essa tradição do canto coral brasileiro seguiu se desenvolvendo até os dias de hoje”, diz.

A missa será apresentada em Mogi das Cruzes nesta sexta, o palco é a Catedral Presbiteriana de São Paulo; no sábado, em Guarulhos; e, no domingo, Ribeirão Preto. Além de orquestra e coro, atuam sete solistas: as sopranos Erika Muniz e Tatiane Reis, a mezzo-soprano Juliana Taino, o barítono Davi Marcondes e o tenor Mar Oliveira entre eles.

Para Godoy, é uma obra marcante. “José Maurício não guardava suas partituras, entregava o material a quem a peça era destinada. Mas com essa foi diferente. Ele pediu ao filho que a guardasse depois de sua morte. E se ele a considerava assim tão especial, também preciso vê-la dessa forma.”

Segundo Godoy, há muitos contrastes na dramaturgia da missa, que evoca o texto da missa católica. “Esses contrastes são comoventes. E há passagens muito marcantes. O Credo, por exemplo. A partitura evoca uma credulidade tão brasileira, pelo menos a sinto dessa forma... É a credulidade de quem vive pela fé uma redenção impossível, e o faz de uma maneira muito amorosa.”

Concerto mistura o grupo dos Meninos Cantores de Hamburgo com a Orquestra Sinfônica da USP  © Tiago Queiroz/Estadão Concerto mistura o grupo dos Meninos Cantores de Hamburgo com a Orquestra Sinfônica da USP 

PERSONALIDADE

Na história da música brasileira, há uma trinca de compositores que, pelo talento e por encarar muito do espírito de suas épocas, se tornaram símbolos do desenvolvimento da composição nacional ao longo do tempo. Nessa lógica, Carlos Gomes foi o grande autor do País no século 19; Heitor Villa-Lobos, no século 20. E antes dos dois, na passagem do século 18 para o 19, houve o padre José Maurício Nunes Garcia.

Nascido em 1767, descendente de escravizados, ele começou a aprender música aos 6 anos e tornou-se cravista, compositor e organista. Naquele período, a atividade musical estava bastante ligada às funções religiosas e a batina era forma de atingir colocação social. Assim, aos 25 anos, ele foi ordenado padre.

Pouco após a chegada de d. João VI ao Brasil, em 1808, ele foi escolhido mestre de capela, cargo de enorme importância no Rio de Janeiro. Mas, se de um lado suas obras ganham cada vez mais espaço, de outro ele passa a lidar com o preconceito dos músicos portugueses que vieram ao Brasil, que chamavam atenção constante ao que se referiam como seu “defeito de cor”.

A Missa de Santa Cecília foi escrita em 1826, quando o compositor já havia deixado seu posto oficial e vivia um período difícil por conta de problemas de saúde e financeiros. Foi encomendada pela Ordem de Santa Cecília, que ele havia ajudado a fundar anos antes e reunia músicos, muitos deles antigos alunos, que com a encomenda tentavam ajudá-lo.

Foi sua última obra – o compositor morreria em 1830. E carrega uma série de aspectos marcantes. Um deles talvez seja a maior liberdade na escrita, uma vez que a peça não se destinava, desta vez, a ocasiões oficiais, mas, sim, a um pedido feito por colegas músicos.

A partitura tem enorme força dramática, e já se referiram a ela como quase operística. “A musicologia costuma associar isso a um desejo de agradar ao gosto da época, mas acho que a Missa é símbolo justamente de sua autonomia”, diz Luiz de Godoy. “Se teve uma obra em que cada nota foi colocada porque ele quis, foi essa.”

O maestro vê na peça um retrato bem-acabado do compositor. “Ele resume aquilo que fez, mas também olha para o futuro. Há árias que lembram Rossini, mas não é ópera, não é música italiana. São paletas que ele aplica com um vocabulário brasileiro. Aqui, José Maurício é também o compositor de modinhas.”

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