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O médico que cuidou do 'último adeus' a 199 vítimas do acidente em Congonhas

Logotipo do(a) Estadão Estadão 6 dias atrás Vitor Hugo Brandalise
O médico que cuidou do 'último adeus' a 199 vítimas do acidente em Congonhas: Doutor Coelho: 'Por mais dura que seja a realidade, é ela que tem de ser dita sempre' © Amanda Perobelli/Estadão Doutor Coelho: 'Por mais dura que seja a realidade, é ela que tem de ser dita sempre'

Como pedir calma a quase 200 famílias que esperam, beirando o desespero, o momento de dizer um adeus inesperado e doloroso à pessoa querida? Durante dois meses em 2007 esse foi o trabalho exclusivo de Carlos Alberto de Souza Coelho, o doutor Coelho, legista de 70 anos, 42 dedicados ao Instituto Médico-Legal, que recebeu a tarefa de informar aos parentes das vítimas como iam os trabalhos de identificação dos corpos de seus familiares.

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Caminhando pela Academia de Polícia Civil, no câmpus da USP, onde hoje ele dá aula a novos peritos, Coelho conta sua regra de ouro: “Não gerar falsa expectativa. Por mais dura que seja a realidade, é ela que tem de ser dita sempre.” A pressão era grande, as pessoas muito abaladas, e o papel do doutor Coelho era escolher bem o que dizer - “pedaço” ou “fragmento”, “despojo” ou “pessoa falecida”? Há grandes chances de que suas palavras fiquem gravadas para sempre na memória dessas pessoas.

Não bastasse a responsabilidade semântica diante do desastre, o doutor Coelho tinha as ocupações do ofício, desta vez multiplicadas: chefiar uma equipe de 70 médicos-legistas e auxiliares, reunidos no IML de Pinheiros, na zona oeste, onde a identificação foi realizada. A demanda era enorme: a unidade recebe, em média, de 1 a 3 corpos de pessoas carbonizadas por semana - acidentes de trânsito ou execuções do tráfico, em geral -, mas naquele dia foram 199. “As pessoas estavam compreensivelmente muito nervosas, passavam madrugadas ali, e eu tinha de explicar que levaria algum tempo até que pudesse se despedir de seu familiar. Me emocionei muito, muito. Como médico, tenho o compromisso de diminuir a dor. Mas o que eles sentiam era impossível de tratar. Batia uma sensação de impotência muito grande.”

Coelho lida com a morte desde 1975, quando entrou no serviço público, e costuma falar dela em termos científicos. Também descreve dessa forma suas reações ao relembrar a notícia do acidente. Aguardava a vez na sala de espera do dentista - “um molar quebrado, e molar quando dói é terrível” - quando viu pela TV o fogo em Congonhas. A senhora ao lado dele o encarou: o senhor está passando mal? “Devo ter ficado pálido com o susto. Ou seja: esse impacto teve uma repercussão no meu organismo a ponto de outra pessoa perceber. Mas a gente é treinado para não perder o raciocínio. Essa é a diferença. Imediatamente, construí mentalmente o impacto que teria no IML.” Coelho pediu ao dentista - que vinha a ser seu filho mais novo - que desse um jeito de estancar a dor no molar, e voou ao IML. O primeiro corpo chegou às 5 horas de 18 de julho, e o trabalho de identificação só cessou no começo de setembro.

Às vezes, algum familiar buscava nele algum conforto, e o doutor Coelho abandonava, um pouco, sua exatidão científica de médico legista. “Costumo dizer, primeiro, que a grande vantagem em relação à morte é que a gente não sabe quando vai acontecer. Senão ficaríamos vivendo a morte, e não a vida”, diz. “E depois falo que há dois caminhos: se a pessoa tem fé em algo posterior, esse é o momento obrigatório de transição a essa outra fase. E, se não acredita em nada, eu digo que acabou tudo, a dor, o sofrimento, as responsabilidades.” Mais do que isso não dá, diz Coelho. Perderia a objetividade, poderia parecer “enganação”.

© Estadão

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