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Violência no Rio: Dos 145 dias letivos, escolas só não fecharam em 9 dias

Logotipo do(a) HuffPost Brasil HuffPost Brasil 30/09/2017 Marcella Fernandes

Crise de segurança no Rio de Janeiro fecha escolas e já afetou 156.977 alunos. © Getty Images Crise de segurança no Rio de Janeiro fecha escolas e já afetou 156.977 alunos.

Dos 145 dias letivos, a rede de ensino público na cidade do Rio de Janeiro teve todas as unidades funcionando apenas em nove dias, de acordo com dados da Secretaria de Educação municipal até a última quarta-feira (27).

São 156.977 alunos afetados desde o dia 2 de fevereiro. De lá para cá, 438 das 1537 escolas da rede já fecharam por pelo menos um dia por conta da violência urbana.

Esses milhares de crianças e adolescentes estudam em escolas nas zonas de conflito. O agravamento da crise econômica no estado, associada ao desemprego, se junta à falência do sistema de segurança. Os tiroteios são quase diários em regiões dominadas por traficantes e submetidas a frequentes operações policiais.

Nesse cenário, escolas não abrem ou as atividades são interrompidas ao longo do dia por confrontos. Especialistas apontam como consequência o prejuízo do aproveitamento escolar, o aumento da distância social nessas áreas e a disseminação de um sentimento de insegurança na escola.

"Além do prejuízo do aproveitamento escolar, porque a carga horária não é dada, outra questão é associar a ida à escola a uma ocasião de ameaça e terror. Pode ser um outro motivo para sair da escola, abandonar mais cedo ou não concluir os estudos", alerta Maria Helena Zamora, professora do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), que participou em julho do 11º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Ela alerta que a guerra às drogas, empreendida pelas autoridades de segurança do Rio, com apoio das Forças Armadas, não tem resultado em nenhuma melhoria, seja em garantir a proteção da população, seja na diminuição do tráfico.

Parece que a gente tem se acostumado com o que há de pior. A gente tem se acostumado com realidades insuportáveis. Parece que nossa capacidade de se acostumar é infinita, mas ela não é. Todos nós tendemos a pagar um alto preço por termos, de uma maneira ou de outra, termos nos omitido de uma discussão participativa sobre segurança pública.

As barreiras para frequentar a sala de aula também contribuem para aprofundar as distâncias sociais, especialmente entre aqueles próximos de concluir o Ensino Médio, que dependem de um certificado de conclusão dessa etapa para entrar no Ensino Superior ou conseguir um emprego mais qualificado.

Um caso citado por Zamora são estudantes de pré-vestibulares comunitários da Rocinha que perderam o vestibular após um ano se preparando. "Alguns entram em uma leitura resignada de que aquilo aconteceu porque era uma aviso para não fazer a prova, que Deus não quis. E outros cansam mesmo, desistem, não podem perder mais uma ano, precisam trabalhar duramente", conta.

Na quinta-feira (28), 14.962 alunos do Complexo da Maré ficaram sem aulas em 20 escolas, sete creches e 13 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDI). No Complexo da Penha, foram 367 alunos afetados em uma creche e 2 EDIs.

Operações policiais

Apenas em 15 de agosto a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro publicou uma instrução normativa para que agentes das polícias Civil e Militar evitem operações em horários de maior fluxo de entradas e saídas de pessoas em locais como escolas.

A decisão veio após um caso emblemático. Em abril, familiares da estudante Maria Eduarda Alves, de 13 anos, morta em 31 de março vítima de uma bala dentro da escola onde estudava na zona norte, pediram ao governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, a criação de uma lei que proibisse operações policiais nas comunidades em horário escolar.

O estudo "Educação em Alvo – Os Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula", publicado em julho pela Fundação Getúlio Vargas em parceria com o aplicativo Fogo Cruzado, mostra que os bairros de Costa Barros, Acari e Cidade de Deus são os que concentram maior número de escolas municipais, estaduais e creches expostas à violência armada.

Entre julho de 2016 e julho de 2017, a cidade do Rio de Janeiro registrou 3.829 tiroteios, de acordo com a pesquisa. Grande parte das ocorrências se concentrou na zona norte, principalmente nas regiões do Complexo do Alemão (218 registros) e da Maré (119 registros). Uma outra área que chama atenção é nas imediações da Avenida Brasil, na altura do bairro da Penha (128 registros).

O documento destaca a necessidade de garantir a segurança das áreas de exposição à violência, priorizando, principalmente, o horário de funcionamento ​das escolas e creches​. Também cita como medidas a serem tomadas a capacitação de professores e a oferta de condições especiais de contratação dos docentes.

Outras sugestões são garantir a presença de profissionais de saúde mental especializados em atender crianças e adolescentes capazes de lidar com os traumas advindos da exposição rotineira à violência e atender a estabelecer um programa domiciliar com as famílias a fim de instruir os pais e cuidadores das crianças afetadas.

Treinamento da Cruz Vermelha

Um estudo de 2009 feito por Rudi Rocha e Joana Monteiro, hoje diretora do Instituto de Segurança Pública, revelou que escolas no Rio que sofrem com conflitos apresentam alta rotatividade de diretores, falta de professores, interrupção constante de classes e pior desempenho nas provas nacionais de matemática.

Na avaliação de Zamora, a categoria já sujeita ao agravo da situação de saúde pode ter problemas potencializados pelos conflitos constantes. Tais fatores podem levar os professores a desistir da profissão, entrar de licença ou faltar ao trabalho, ainda que isso os prejudique.

Nenhum organismo resiste a estresse continuado, incessante, repetitivo. O corpo não tem tempo de se recuperar. Me parece que se podem estabelecer casos mais sérios tanto de doença mental, agravo ou surgimento de sintomas corporais, processo crônico de estresse.

Há ainda impacto na sociabilidade e na vida do professor dentro de casa. "Os professores estão dizendo que entram em sala de aula e precisam de quase meia hora para acalmar os alunos. Dizer que não vai ter operação, que helicóptero não é nada. Os alunos ficam muito agitados, e dificuldades de aprendizado aumentaram muito", afirma a especialista.

Em julho, 41 representantes de 400 escolas do Rio de Janeiro localizadas em áreas consideradas consideradas de risco participaram em julho de um curso do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) de Acesso Mais Seguro (AMS) para Serviços Públicos Essenciais, a pedido da Secretaria Municipal de Educação.

De acordo com a pasta, o acordo prevê a avaliação das vulnerabilidades e condições de segurança dos trabalhadores e das escolas e a definição de ações e estratégias específicas para implementar a metodologia.

Com parte teórica e prática, o curso de 40 horas é uma adaptação do protocolo da CICV para contextos de violência urbana enfrentados pelos próprios funcionários da entidade nos países em que tem operações.

O aluno dentro da escola e a presença ostensiva da Polícia Militar. Clique da Fernão, escola ícone dos dias de ocupação Violência no Rio: Dos 145 dias letivos, escolas só não fecharam em 9 dias

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