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O xamã que percorreu 3.000 quilômetros a pé e juntou uma legião para exorcizar Putin

Logotipo do(a) EL PAÍS EL PAÍS 22/09/2019 María R. Sahuquillo
Alexander Gabyshev posa em algum ponto do caminho, em uma fotografia de suas redes sociais. © Fornecido por Prisa Noticias Alexander Gabyshev posa em algum ponto do caminho, em uma fotografia de suas redes sociais.

Alexander Gabyshev começou a andar em março desse ano rumo a Moscou de sua cidade natal (Lacútia, no leste da Rússia). Autoproclamado “xamã guerreiro”, o siberiano de 51 anos tem como objetivo chegar à capital para exorcizar o “demoníaco” presidente russo, Vladimir Putin. Percorreu a pé quase 3.000 quilômetros, um pouco menos da metade do caminho, ganhando dezenas de seguidores em sua caravana quando foi preso na noite de quinta-feira no acampamento em que pernoitava em Buriatia. Agora, as autoridades russas, cada vez mais inquietas em relação a qualquer forma de protesto, investigam o xamã por extremismo, o que se transformou em uma celebridade nas redes sociais.

Gabyshev, com suas longas barbas e seu discurso de profeta, afirmou que só atende ao chamado da natureza. “Deus me disse que Putin não é um homem e sim um demônio e que devo exorcizá-lo”, disse várias vezes o xamã à imprensa russa, em que afirmou que seu objetivo é formar um “exército” de seguidores para que o ajudem em sua tarefa. “Não pode existir democracia com um demônio”, costuma dizer o homem, que se define como cristão e como “preservador” das tradições do povo iacuto. Em algumas comunidades culturais e religiosas da Sibéria, os xamãs são figuras muito respeitadas, e se acredita que têm acesso a outros níveis de consciência espiritual.

O grotesco do caso e sua prisão levantaram uma nuvem de pólvora nas redes sociais e na imprensa independente russa. Cada vez mais preocupada com qualquer sintoma de oposição, a repressão ficou mais forte na Rússia ao ritmo em que os protestos e o descontentamento social aumentaram. Tanto que até o caso mais surrealista é esmagado. E durante os últimos meses, o xamã guerreiro gerou mais atenção e reuniu seguidores a sua caravana. Um de seus encontros em Chita, pedindo para formar “assembleias locais” e gravado em vídeo, viralizou em poucos dias.

No começo desse mês, uma de suas reuniões em Ulan-Ude se transformou em um enorme protesto contra os resultados das eleições locais um dia antes. O resultado foi a prisão de vários dos admiradores do xamã, dos quais também foram confiscados vários veículos com os quais apoiavam a caravana.

Gabishev caminha com seu cão por Moscou. Gabishev caminha com seu cão por Moscou.

Após a prisão, as autoridades colocaram Gabyshev em um avião e o enviaram diretamente à Lacútia. Lá, ficou algumas noites em um hospital psiquiátrico, de acordo com informações da imprensa local. Já recebeu alta, mas agora as autoridades o investigam por extremismo por suas mensagens sobre o presidente russo, de acordo com a organização Rússia Aberta, que se envolveu em seu caso.

“As ações do xamã podem ser excêntricas, mas a resposta das autoridades russas é grotesca. Têm realmente medo de seus poderes mágicos?”, disse a responsável da Anistia Internacional na Rússia, Natalia Zviagina, que criticou a prisão de Gabyshev, que define como um “sequestro”. A organização critica a violação de seus direitos humanos e o direito à liberdade religiosa. O advogado e blogueiro anticorrupção Alexei Navalny, uma das faces da oposição russa mais visíveis no ocidente, ironizou o caso do “xamã guerreiro”. “Putin está assustado”, disse em um vídeo publicado em suas redes sociais. “[O presidente] tinha tanto medo do xamã iacuto que o homem foi preso por 20 pessoas com metralhadoras”, disse.

Pouco se sabe da história pessoal do xamã guerreiro, que enfrentou a oposição das organizações de xamãs siberianos. Algumas dessas o tacharam de impostor. Outras chamaram sua atenção argumentando que os líderes espirituais não devem se envolver em política. Formado em História, já comentou que preferia se dedicar a outras tarefas: soldador, gari, eletricista, conta o site independente Meduza. Quando sua esposa morreu de câncer anos atrás foi viver nos bosques. Morou lá por três anos, até se impor a missão de retirar Putin do poder através de um exorcismo.

O xamã guerreiro disse agora que pretende “descansar” na Lacútia com sua família, durante uma temporada. Pelo menos até que se esclareçam “as ações de investigação e judiciais” contra ele. Em um vídeo publicado na Internet, pediu a seus seguidores que não continuem sua caminhada sem ele. Pode ser que logo a retome.

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