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Cresce a procura pelo curso de árbitra de futebol em São Paulo

Logotipo do(a) Estadão Estadão 23/09/2019 Gonçalo Junior

Aos 33 anos, Juliana Suelen de Souza trabalha numa fábrica de ferramentas para marcenaria. Sueli Carreiro, dez anos mais jovem, atua na área administrativa de uma associação de árbitros. Aos 22, Gessivânia Almino é professora de Educação Física e trabalha como personal trainer. Desde sábado, as três estão planejando uma guinada na vida profissional. Elas são alunas do curso de formação de árbitros da Federação Paulista de Futebol. Juliana, Sueli e Gessivânia – ela se apresenta como Gê – são algumas das árbitras e assistentes dos próximos anos.

As três não estão sozinhas. Neste ano, o curso para novos árbitros teve recorde de inscritas. Ao todo, 49 mulheres iniciaram o curso na sede da federação em cerimônia com a cúpula da entidade. O crescimento foi exponencial. Em 2018 apenas sete se inscreveram.

Gessivania Almino e Sueli Carreiro são duas das 49 mlheres que se inscreveram para o curso de arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF) © Daniel Teixeira/Estadão Gessivania Almino e Sueli Carreiro são duas das 49 mlheres que se inscreveram para o curso de arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF)

O pulo do gato para aumentar as mulheres de preto foi a criação de uma sala exclusiva para elas. Com comunicação dirigida nas redes sociais, estrelada por profissionais que já atuam na área, a federação conseguiu algo inédito na história do curso: uma sala cheia de mulheres. “Historicamente, nós atraíamos apenas 4% ou 5% do total de vagas. Neste ano, preenchemos todas as 50”, explica Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da escola de árbitros da Federação Paulista de Futebol.

A estratégia era mais do que necessária: a entidade tem 14 mulheres e mais de 450 homens em seu quadro de arbitragem atual. Especialistas e alunos afirmam que a onda que impulsiona o futebol feminino atualmente – com a tentativa de criação de um calendário e o fortalecimento das categorias de base – está atingindo a arbitragem feminina. Cada vez mais, o futebol passa a ser visto como uma carreira para quem joga e também para quem apita.

Repetir vídeo

É um movimento que ganha mais visibilidade. Há dois anos, Juliana trabalha na várzea como assistente. “Faço a arbitragem por amor e quero mudar de carreira”, diz a moradora de São José dos Campos (SP). Para virar árbitra, ela investiu R$ 4400, divididos em 20 parcelas, esse é o valor do curso. “Não existe idade para a gente tentar mudar de vida”, diz aos 33 anos.

Sueli trabalha na área administrativa da Associação de Árbitros da Grande São Paulo. Ela vem atuando como representante em algumas partidas, dando suporte ao árbitro. Ela mora na cidade Tiradentes, extremo leste da capital. “Tentei ser jogadora algumas vezes, mas a minha habilidade não era lá essas coisas. Decidi estudar (Educação Física), mas não deixei o futebol”, diz a jovem de 22 anos.

Gê também atua no futebol amador, na zona leste de São Paulo. Reclama que ainda existe preconceito, xingamento e falta de respeito. Até boicote. Ela envia um vídeo no qual é xingada por vários atletas por causa de uma decisão. Para a personal trainer, não se trata de apitar um jogo de futebol. A moradora de Guarulhos diz que querer ser árbitra faz movimento da luta da mulher na sociedade. “Esse curso é positivo, mas ainda falta incentivo e oportunidade. Por que só temos uma mulher na Série A do Campeonato Brasileiro?”, questiona a ex-jogadora do Palmeiras que deixou a carreira porque nem sempre tinha o dinheiro do lanche e da condução.

'Fazer o curso significa estar disponível para prestar serviço como autônomo aos clubes de futebol do estado de São Paulo', diz Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da escola de árbitros da FPF © Daniel Teixeira/Estadão 'Fazer o curso significa estar disponível para prestar serviço como autônomo aos clubes de futebol do estado de São Paulo', diz Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da escola de árbitros da FPF

Mulheres ganham o mesmo valor que os homens

Depois de formadas no curso de arbitragem, as alunas Sueli, Gessivânia e Juliana vão encontrar uma profissão que ainda não é profissão de fato. A arbitragem ainda não é uma categoria reconhecida no Brasil. A conclusão do curso, por exemplo, não significa a contratação ou a certeza de um emprego formal. “Fazer o curso significa estar disponível para prestar serviço como autônomo aos clubes de futebol do estado de São Paulo”, diz Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da escola de árbitros.

Por isso, 90% dos árbitros têm outras profissões. No início de carreira, o estágio prático, a última etapa da formação, é remunerado. Eles ganham R$ 250 por rodada dupla aos domingos de manhã, nas categorias sub 11 e sub 13. Isso projeta um ganho mensal de R$ 1.000. A demanda é alta, pois a federação organiza 4000 jogos por ano.

Os árbitros da CBF ganham R$ 2.900 na Série A e R$ 1.000 na Série D. Mulheres têm a mesma remuneração dos homens. Todos os árbitros são avaliados nos pilares físico, técnico e mental. Para atuar no futebol masculino, as árbitras têm de ser aprovadas no teste físico da categoria.

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