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De escultura de sangue à árvore 'sexual': as dez obras que chocaram o público e ajudaram a redefinir a arte

Logotipo do(a) BBC Brasil BBC Brasil 13/11/2017

A decisão de cancelar a exibição de determinadas obras artísticas por causa da reação de partes do público não é fácil para um museu ou centro cultural - e costuma causar temores e debates sobre os limites da censura.

No entanto, apesar de controversas, ações como essas - que estiveram nas manchetes recentemente - não são novidade. Várias obras na história moderna instigaram polêmicas semelhantes e algumas delas, apesar de causar muita indignação na sua época, mudaram a maneira como pensamos sobre arte.

No Brasil, o episódio mais conhecido dos últimos meses foi o veto à exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. A mostra, que reunia trabalhos de 85 artistas e tinha como mote a diversidade e as questões LGBT, foi cancelada após críticas de movimentos religiosos e do Movimento Brasil Livre (MBL).

O Museu Guggenheim, de Nova York, enfrentou pressão semelhante - de ativistas de direitos dos animais - e cancelou a instalação de dois vídeos considerados muito violentos (um com porcos tatuados copulando, e o outro de pitbulls se encarando e rosnando), bem como a exibição de um grande armário de madeira e tecido intitulado Theatre of the World (Teatro do Mundo, em tradução livre), dentro do qual lagartixas, gafanhotos, grilos e baratas, todos famintos, protagonizam um exercício real de sobrevivência do mais forte.

As obras proibidas são de artistas chineses contemporâneos e originalmente foram selecionadas para aparecer como parte da exposição Art and China After 1989, que abriu em 6 de outubro. Obras de artistas chineses, como Theater of the World, foram proibidas em exposição em outubro © Foto: HUANG YONG PING/GUGGENHEIM MUSEUM Obras de artistas chineses, como Theater of the World, foram proibidas em exposição em outubro

Também em outubro, o Louvre anunciou que estava desistindo do plano de exibir uma escultura sexualmente explícita do artista e designer holandês Joep Van Lieshout. Uma estrutura de doze metros de altura, que parece retratar um homem fazendo sexo com uma criatura de quatro pernas, Domestikator deveria ser exibido no Jardin des Tuileries, em Paris, ao lado do Louvre, como parte da Feira Internacional de Arte Contemporânea, realizada todos os anos. O Centro Pompidou concordou posteriormente em mostrar o trabalho.

Com a censura inicial de seu Domestikator, van Lieshout (que insiste que sua escultura não tem uma temática fundamentalmente sexual, mas faz um comentário sobre a interferência do homem na natureza) chamou de hipócrita a decisão do Louvre. "No Louvre", ele ressalta, "há pinturas e esculturas com mulheres nuas, estupro e bestialidade que são muito mais explícitas do que minha obra".

Quadro 'La Grand Odaslique', de Ingres, causou revolta quando foi exibido pela primeira vez, em 1814 © Foto: BBC Brasil Quadro 'La Grand Odaslique', de Ingres, causou revolta quando foi exibido pela primeira vez, em 1814

Independentemente do incômodo gerado pela escultura de van Lieshout, é impossível negar que o Louvre possui sua parcela de obras fortes - da pintura de Fragonard La Chemise Enlevée (A Camisa Retirada), que apresenta uma luta, dentro de um quarto, entre uma ninfa alada e uma mulher nua, ao quadro La Grand Odaslique, de Ingres, que retrata uma concubina - obra escandalosa quando foi exibida pela primeira vez, em 1814. Mas quem hoje se sente ultrajado pelo trabalho de Fragonard ou Ingres, por mais que eles tenham sido considerados chocantes quando foram inicialmente exibidos?

As controvérsias recentes coincidem com o centenário de um dos episódios mais famosos de censura na história moderna da arte - a decisão tomada em 1917 pela Society of Independent Artists, em Nova York, de violar seu próprio estatuto ao proibir a exibição de uma escultura de Marcel Duchamp. Fountain (Fonte) é composta por um urinol que o artista francês colocou em um pedestal, de baixo pra cima, e o assinou com o nome "R Mutt".

Nos cem anos que passaram desde a polêmica causada pelo trabalho de Duchamp, a história da arte foi pontuada por uma série de obras escandalosas que inflamaram o debate público e forçaram seus observadores a refletir sobre o que é e o que não é digno de exibição pública e apreciação crítica.

Conheça abaixo 10 peças que chocaram a sensibilidade contemporânea e contribuíram para o debate sobre o que é arte.

Obra 'Erased de Kooning Drawing' não tem qualquer imagem discernível no papel © Foto: Wikipedia Obra 'Erased de Kooning Drawing' não tem qualquer imagem discernível no papel

Robert Rauschenberg, Erased de Kooning Drawing, 1953

Os detratores de Duchamp, que viram no urinol um símbolo de arte escoando pelo ralo, certamente teriam dificuldade em apreciar Erased de Kooning Drawing (Desenho de de Kooning Apagado), do artista americano Robert Rauschenberg, realizado em 1953. Curioso para saber se uma obra de arte poderia ser criada ao se apagar traços de uma outra obra, Rauschenberg convenceu um amigo, o abstracionista holandês-americano Willem de Kooning, a sacrificar um de seus desenhos para o experimento. 

O resultado é um papel sem qualquer imagem discernível, desafiando os observadores a decidir se a imagem sem imagem é uma imagem, ou se o verdadeiro trabalho em exibição é a moldura que circunda o vazio - uma escultura que representaria a perda artística.

Artista italiano reuniu 2700 gramas das próprias fezes em 90 latas de conserva © Foto: Tate Artista italiano reuniu 2700 gramas das próprias fezes em 90 latas de conserva

Piero Manzoni, Merda d'Artista, 1961

Depois do urinol de Duchamp, foi a vez de um artista experimentar com as próprias fezes e apresentá-las como obra de arte. Em 1961, o artista de vanguarda italiano Piero Manzoni (que, um ano antes, deixou críticos horrorizados ao exibir um balão cheio de sua própria respiração como obra), fez exatamente isso: acumulou 2700 gramas de seu excremento em 90 latas.

O trabalho é pensado para ser uma resposta a um comentário irônico que seu pai, dono de uma fábrica de conservas, teria feito, comparando seu trabalho a fezes. Neste ano, uma das latas de seu filho foi vendida em leilão por 275 mil euros (R$ 1 milhão).

Críticos de Allen Jones consideraram 'Chair' uma obra machista © Foto: Tate Críticos de Allen Jones consideraram 'Chair' uma obra machista

Allen Jones, Chair, 1969

Trazendo à tona acusações de que seu criador, o artista pop britânico Allen Jones, trata objetos como mulheres e vice-versa, Chair (Cadeira) é o produto de manequins femininos seminus contorcidos para formar um mobiliário sensual - e não muito ergonômico.

No Dia Internacional da Mulher, em março de 1986, o trabalho levou um banho de removedor de tinta de duas ativistas que ficaram ofendidas pelo aspecto machista da escultura. O ácido dissolveu o rosto e o pescoço da manequim.

Obra de Judy Chicago foi criticada por decoração de pratos lembrar vaginas © Foto: Judy Chicago Obra de Judy Chicago foi criticada por decoração de pratos lembrar vaginas

Judy Chicago, Dinner Party, 1979

Composto por 39 lugares, com diferentes pratos e toalhas, que comemoram a contribuição das mulheres à história da cultura (da poeta grega Safo à escritora britânica Virginia Woolf), a mesa de banquete da artista americana Judy Chicago foi aclamada por seu pioneirismo - e criticada por sua suposta vulgaridade. O trabalho é dominado por pratos de porcelana pintadas à mão, muitos das quais são decoradas com um símbolo parecido a uma combinação de borboleta e flor, mas que também se assemelha a uma vulva. 

Sob o argumento de que o trabalho tem "muitas vaginas", a artista britânica Cornelia Parker desprezou a instalação no jornal The Guardian, dizendo que a obra estaria focada "no ego de Judy Chicago em vez das pobres mulheres que ela deveria elevar". "Estamos todas reduzidas a vaginas, o que é um pouco deprimente."

Escutura de Richard Serra foi derrubada em 1989 após decisão da Justiça americana © Foto: Alamy Escutura de Richard Serra foi derrubada em 1989 após decisão da Justiça americana

Richard Serra, Tilted Arc, 1981

Não foi apenas um muro icônico que caiu em 1989. No meio da noite, no dia 15 de março, oito meses antes de as marretas começarem a derrubar o muro de Berlim, um equipe de trabalhadores da construção civil foi à Federal Plaza, em Nova York, para cortar em pedaços uma barreira de aço de 36 metros de largura e 3,6 metros de altura que havia sido erguida oito anos antes. 

O muro era uma inovadora escultura do artista americano Richard Serra. Alegando que a obra poderia servir de possível abrigo para terroristas e vândalos, um tribunal decidiu que a obra minimalista deveria ser removida e levada a um depósito.

Na visão do artista, uma das partes importantes do muro era a interação com as pessoas que caminhavam pela praça, um local usado como passagem.

Obra de Christo e Jeanne-Claude foi considerada prejudicial por ambientalistas © Foto: Christo e Jeanne-Claude Obra de Christo e Jeanne-Claude foi considerada prejudicial por ambientalistas

Christo and Jeanne-Claude, Surrounded Islands, 1983

Nem todos os que olhavam as 11 ilhas da baía de Biscayne, em Miami, contornadas por quilômetros de tecido rosa em 1983, se convenceram da importância do trabalho dos artistas Christo e Jeanne-Claude. Ambientalistas protestaram contra a instalação do trabalho, que durou duas semanas, durante maio daquele ano.

Eles se diziam preocupados com o efeito a longo prazo de 603.870 metros quadrados de plástico sintético esticado sobre o habitat de peixes-boi, águias e outras espécies locais. O diálogo que o trabalho gerou, obrigando autoridades e moradores a discutir a fragilidade do ambiente em que viviam, era um dos objetivos de Christo e Jeanne-Claude.

cada cinco anos, Marc Quinn faz uma nova escultura com o próprio sangue © Foto: MARC QUINN cada cinco anos, Marc Quinn faz uma nova escultura com o próprio sangue

Marc Quinn, Self, 1991

A cada cinco anos, e durante um período de cinco meses, o artista britânico Marc Quinn tira cinco litros de seu próprio sangue e os derrama em um molde translúcido e refrigerado de seu rosto. O resultado é uma série de autorretratos sempre diferentes, na qual o artista pode legitimamente afirmar ter investido mais de si mesmo do que muitos artistas antes dele.

Para algumas pessoas, a série Self, ainda em andamento, não é mais do que um façanha macabra. Para outros, o trabalho representa uma contribuição mordaz e ousada à tradição de autorretrato da qual participaram nomes como Rembrandt, Van Gogh e Cindy Sherman - uma contribuição que destaca profundamente a fragilidade do ser.

Representação de um episódio depressivo da artista, My Bed provocou revolta no público © Foto: Alamy Representação de um episódio depressivo da artista, My Bed provocou revolta no público

Tracey Emin, My Bed, 1998

Embora a cama tenha servido como suporte de algumas das maiores obras da arte ocidental - da Vênus de Urbino, do pintor italiano Ticiano, às figuras femininas do espanhol Goya -, a instalação Minha Cama, da artista britânica Tracey Emin, que mostrava sua cama bagunçada, levou à indignação do público na exposição do Turner Prize, importante prêmio de arte, em 1998. 

Inspirada em um período pouco feliz da vida da artista - e cercada por objetos jogados no chão -, a cama se tornou, para alguns, a principal prova de que a arte contemporânea teria perdido seu rumo.

Defensores do trabalho ficaram surpresos com o fato de que, mais de 80 anos após o urinol de Duchamp, uma cama desarrumada poderia provocar tamanha revolta e questionaram publicamente se a verdadeira objeção do público não seria ao fato de uma mulher estabelecer um espaço próprio e pessoal de forma tão radical em um museu dominado por homens.

Para alguns críticos, obra de artista tcheco retraria Saddam Hussein como vítima © Foto: David Cerny Para alguns críticos, obra de artista tcheco retraria Saddam Hussein como vítima

David Černý, Shark, 2005

Em 2005, o artista tcheco David Černý pegou emprestado alguns elementos da obra The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (1991), do britânico Damien Hirst, que mostrava um tubarão suspenso em uma solução de formol e exposto em uma caixa de vidro.

Em vez de um animal, Černý expôs diante dos visitantes uma escultura do ditador deposto do Iraque Saddam Hussein com as mãos e os pés amarrados. Para alguns, o trabalho chegou perto de retratar Hussein como uma vítima. Já para outros, a obra era gratuitamente chocante. A exibição da escultura em um museu de Middelkerke, na Bélgica, em 2006, foi cancelada por decreto do prefeito da cidade, Michel Landuyt, por receio de "que certos grupos da população considerassem o trabalho muito provocativo".

Tree, de Paul McCarthy: Trabalho de Paul McCarthy foi comparada a brinquedo sexual e atacada por vândalos © AFP Trabalho de Paul McCarthy foi comparada a brinquedo sexual e atacada por vândalos

Paul McCarthy, Tree, 2014

Às vezes, o veto a um trabalho controverso nem passa por curadores. Foi o que aconteceu em outubro de 2014, quando a enorme árvore inflável do artista americano Paul McCarthy, erguida como parte de uma exibição de Natal em Paris, foi derrubada por vândalos e posteriormente desinflada. 

Assim que comentaristas apontaram para a semelhança da escultura com um brinquedo sexual - o plugue anal -, não houve jeito de proteger a obra. Nem o próprio artista escapou ileso. Ultrajado pela árvore, um membro do público que acompanhava a instalação da obra confrontou McCarthy e deu-lhe três tapas antes de desaparecer na multidão.


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