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O que acontece com a vida marinha quando o mar seca por conta de um furacão?

Logotipo do(a) HuffPost Brasil HuffPost Brasil 13/09/2017 Hugo Fernandes-Ferreira
© Reprodução/ Redes sociais

O que ocorre com os animais após a passagem de um furacão? Essa foi uma pergunta recorrente, principalmente após as chocantes cenas do mar sendo "sugado" pelo furacão Irma na costa das Bahamas na última semana. O que aconteceu com a fauna marinha daquele lugar?

Eventos como esse são caracterizados como desastres ambientais naturais, e determinar todas as suas causas e, principalmente, consequências é uma tarefa praticamente impossível. A complexidade do impacto de um fenômeno como esse é magnânima, provocando efeitos isolados que se interconectam, formando, assim, uma reação em cadeia sem chances de ser completamente rastreada.

Com os animais não seria diferente. Em um evento como o que aconteceu nas Bahamas, as consequências podem ser completamente distintas a depender do grupo animal.

A ação mecânica dos ventos de mais de 260 km/h e das ondas afeta instantaneamente algas, esponjas, cnidários e demais organismos mais frágeis. Alguns corais levam décadas para cobrir áreas pequenas, e um evento como esse é capaz de destruí-los em segundos.

A bióloga Erika Santana, especialista em fauna marinha, afirma que espécies que não se movimentam (sésseis), como alguns corais, podem aguentar algum tempo expostas ao ar atmosférico. Entretanto, eventos como um furacão podem mudar profundamente índices físico-químicos importantes, como a sedimentação flutuante e a salinidade, trazendo impactos de larga escala sobre esses organismos.

Mesmo para as espécies pelágicas, ou seja, que possuem a capacidade de natação, furacões também provocam danos graves. O efeito do Irma na região alcançou centenas de quilômetros, e a maioria absoluta desses animais, como peixes, moluscos e crustáceos, certamente morreu durante o desastre.

Paula Honório, doutora em zoologia e professora da Faculdade Maurício de Nassau, relata que, diferentemente de tsunamis, um furacão oferece menos possibilidades de fuga, já que a rota é bastante incerta. Na costa da Flórida e do Caribe, já há diversos registros de morte e encalhe de peixes-boi, mamíferos marinhos ameaçados de extinção e de movimentação bastante lenta.

Porém, é fato que algumas espécies conseguem perceber a possibilidade de um desastre com bastante antecedência, como afirma o biólogo Danilo Rada, especialista em tubarões, animais considerados experts nessa estratégia.

Pesquisadores da Mote Marine Laboratory (Sarasota, EUA) descobriram que populações de tubarões galha-preta (Carcharhinus limbatus), típicos de áreas mais rasas e recifais, migraram para o mar aberto e profundo assim que a pressão barométrica da água variou minimamente ante passagem do ciclone extratropical Gabrielle, no Golfo do México, em 2001.

Os tubarões fugiram entre 1h30 a 5h30 antes da passagem do ciclone. Registros como esse também podem ser encontrados para outras espécies de tubarões, além de peixes ósseos, como salmão e sardinha.

© Amada 44 e Nasa (Commons Wikimedia)

Porém, dificilmente um grupo animal supera essa capacidade de percepção dos cetáceos, como relata o Dr. Gustavo Toledo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dias antes da passagem do furacão, a ocorrência de chuvas anormais muda a salinidade da água, e os golfinhos conseguem perceber essa alteração como um sinal para definir estratégias de fuga para o mar aberto.

O mais impressionante é que esses animais conseguem inclusive se beneficiar após a ocorrência de um desastre como esse. Cientistas da University of the Southern Mississippi notaram que as populações de golfinhos da espécie Tursiops truncatus aumentaram razoavelmente após o furacão Katrina, em 2005. Isso porque o evento destruiu boa parte dos barcos pesqueiros que reduziam as presas desses animais.

Um artigo publicado esta semana pela Scientific American mostra que o mesmo deve acontecer após Irma e Harvey.

Furacões impactam não só a vida marinha, mas também a terrestre. Além das incontáveis mortes de milhares de espécies, eles podem causar sérios danos na estrutura populacional de animais, como nos informa o primatólogo Dr. João Pedro Souza-Alves, da Universidade Federal de Pernambuco.

Pesquisadores afirmam que o furacão Iris, que atingiu Belize em 2001, destruiu boa parte da cobertura vegetal da região, diminuindo recursos alimentares para primatas como o bugio-negro (Alouatta pigra) e provocando uma redução de 88% de suas populações, além de uma profunda desorganização social.

Além disso, os danos também podem atingir rotas e alimentação de espécies migratórias, como aves, peixes e baleias; reprodução de tartarugas marinhas, que desovam no litoral; dispersão de eclosão de ovos e larvas de invertebrados terrestres e aquáticos e mais uma série incontável de consequências.

É importante ressaltar que, embora eventos como esse possam ser considerados como naturais, problemas como o efeito estufa e o aquecimento global tendem a torná-los cada vez mais frequentes e potencialmente perigosos para a vida humana e, como vimos, para toda a vida no planeta.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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