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Suécia oficializa pedido para entrar na Otan, e Putin fala em reação proporcional

Logotipo do(a) Folha de S.Paulo Folha de S.Paulo 16/05/2022 IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Confirmando as expectativas, a Suécia se uniu à Finlândia e pediu formalmente nesta segunda-feira (16) para entrar na Otan, a aliança militar ocidental criada para combater a expansão soviética na Europa Ocidental em 1949, cuja missão foi renovada pela invasão russa da Ucrânia.

"A Europa, a Suécia e o povo sueco estão vivendo agora numa nova e perigosa realidade", disse a primeira-ministra Magdalena Andersson ao Parlamento em Estocolmo. O processo de adesão dos dois novos membros, se superar a oposição já colocada pela integrante Turquia, será acelerado, afirmou a Otan.

Em sua primeira fala pública após os nórdicos confirmarem a intenção de aderir ao clube militar liderado pelos EUA, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que a medida "certamente provocará nossa resposta".

"Qual resposta será... Veremos quais ameaças serão criadas para nós", disse ele, em reunião da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, uma aliança militar vagamente semelhante à Otan, que congrega seis Estados que faziam parte da União Soviética e tem a Sérvia como observadora.

A própria Andersson já indicou um caminho intermediário para não provocar ainda mais os russos. Ela afirmou que não haverá bases multinacionais da Otan ou armas nucleares em seu território, caso a inscrição seja aprovada, o que daria a medida, em tese, da proporcionalidade sugerida por Putin.

A Finlândia, que tem 1.300 km de fronteira com a Rússia, deve ir pelo mesmo caminho, para atenuar a temperatura da crise. Putin, por sua vez, queixou-se de que seu país "não tinha problemas" com os dois novos candidatos a membros da aliança de 30 integrantes. O desejo da Ucrânia de entrar na Otan, estabelecendo assim forças ocidentais na maior fronteira da Rússia a oeste, foi um dos motivos centrais alegados pelo Kremlin para iniciar o que chama de operação militar especial, no fim de fevereiro.

A decisão sueca veio um dia depois de a Finlândia ratificar o pedido que havia anunciado na quinta (12), embasada em um relatório suprapartidário divulgado na sexta e na mudança de posição da agremiação majoritária, o Partido Social Democrata, que pregava a neutralidade militar do país, no domingo.

Assim, 213 anos de não alinhamento na área de defesa foram deixados de lado. Já os finlandeses abandonaram a engenharia de serem ocidentais com boas relações com a Rússia, que o país operava desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, na qual lutaram contra a União Soviética.

Apesar da fala comedida de Putin, sugerindo que a ideia de colocar armas nucleares perto das fronteiras dos nórdicos talvez seja só uma ameaça, os vizinhos de Suécia e Finlândia prometeram assistência militar caso os países sejam atacados por Moscou durante o processo de adesão.

Dinamarca, Noruega e Islândia fizeram o anúncio, mais retórico do que prático: Finlândia e, principalmente, Suécia são países muito mais capazes militarmente do que os vizinhos. Ambos inclusive já faziam parte de diversas estruturas de comunicação da Otan, com quem realizavam exercícios frequentemente.

O peso militar que adicionam ao bloco é importante pela posição estratégica no mar Báltico, próximo das fronteiras russas, e, principalmente, pelo militarizado encrave de Kaliningrado, entre a Lituânia e a Polônia.

Também deve haver, claro, algum incremento no gasto militar. Vinte e nove países da Otan tinham um orçamento de defesa de US$ 360 bilhões em 2021 —os Estados Unidos, sozinhos, somavam US$ 811 bilhões à conta, de acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

Finlândia e Suécia trariam 4% de aumento ao bolo extra-EUA —Helsinque gasta atualmente 2% do seu PIB, a meta da Otan, com defesa, enquanto Estocolmo ainda pode aumentar o 1,3% que emprega no setor. Hoje, um terço dos países do clube cumpre o requisito estipulado em 2014 para vigência até 2025.

Antes, contudo, há a Turquia. O presidente Recep Tayyip Erdogan disse que não pode aceitar os nórdicos porque são "hospedarias de organizações terroristas" —no caso, opositores de seu governo. No fim de semana, houve conversas entre turcos, suecos e finlandeses em Berlim, e nesta segunda o ministro da Defesa da Suécia, Peter Hulqvist, disse que mandaria "diplomatas para dialogar com a Turquia".

Nesta segunda, porém, Erdogan disse que as delegações de ambos os países nem precisam se preocupar em viajar a Ancara para convencê-lo. Em entrevista coletiva, o líder turco repetiu os argumentos dados na semana passada e afirmou que, se Suécia e Finlândia entrarem na Otan, o grupo se tornará "um lugar onde os representantes de organizações terroristas estão concentrados", uma referência a membros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ou a seguidores de Fethullah Gulen, o clérigo que mora nos Estados Unidos acusado de inspirar um golpe contra ele em 2016.

Os EUA, verdadeiros donos da bola na fragmentária aliança, disseram estar confiantes de que Ancara ao fim não fará uso do poder de veto, que todo membro da Otan tem. A Turquia tem um longo histórico de desavenças, ora com Washington, ora com rivais internos, como a histórica adversária Grécia ou a França.

Nesse processo, Erdogan se aproximou de forma ambígua da Rússia de Putin, com quem mantém uma tensa parceria em áreas como as guerras civis da Síria e da Líbia, ou no sul do Cáucaso, além de ter projetos energéticos comuns. Ao mesmo tempo, apoia Kiev na guerra agora em curso.

A China, por sua vez, de forma cifrada, disse que o pedido de adesão de Suécia e Finlândia adicionam um "novo fato" às relações bilaterais. Questionado por um repórter, Zhao Lijian, porta-voz da chancelaria, não deu detalhes, mas disse que "a China foi bem clara sobre a Otan e a expansão a leste da aliança".

Ao longo dos anos, Pequim, aliada de Moscou, sempre criticou o movimento ocidental. O jornal estatal Global Times foi mais direto, dizendo em editorial que a expansão "arrisca tornar a Europa um barril de pólvora". A China, principal amiga de Vladimir Putin no cenário global, tem defendido a paz na Ucrânia, mas sem criticar a ação de Moscou e fazendo duras reservas às sanções ocidentais aplicadas ao Kremlin.

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