Você está usando um navegador antigo. Por favor, utilize versão suportada para ter acesso às melhores funções do MSN.

Um sol na escuridão

Logotipo do(a) Tempo de MulherTempo de Mulher 15/08/2014 Beatriz Alessi
Um sol na escuridão / Foto: Fredy Uehara: Photo © Um sol na escuridão Photo

Um sol na escuridão / Foto: Fredy Uehara

Por BEATRIZ ALESSI

Você se acharia diferente se tivesse sido criada acreditando que é como todo mundo? Suspeitaria que algo estava errado se não conseguisse enxergar a mais de dois palmos de distância? Recuaria diante de um mundo que parecia coberto de vaselina? Caroline Casey cresceu na Irlanda, acreditando que tudo era possível. Aos dezessete anos, sonhava atravessar as planícies da terra natal em cima de uma moto. Às vezes queria ser selvagem como Mogli, o menino lobo.

O que fazia aquela lourinha albina pensar assim? A decisão corajosa dos pais de não permitir que se achasse diferente. Caroline frequentou escolas normais e já tinha até tomado uma aula de direção. Quando foi levada ao oftalmologista, no dia do seu décimo sétimo aniversário, imaginou que estivesse apenas acompanhando a irmã, que tinha problemas de visão. Ao vê-la cheia de planos para o futuro, o médico perguntou aos pais: "Vocês não contaram a ela"?

O mundo de Caroline ruiu naquele dia. Ela, que adorava andar na praia e nunca tinha tropeçado numa pedra que havia ali, naquele dia desabou sobre ela. À menina que sonhava alto se revelava, com nitidez de pesadelo, a verdade da sua condição: ela tinha albinismo ocular, uma alteração genética, e era, desde o nascimento, tecnicamente cega.

Como se sobrevive a tamanha reversão de expectativas? Foi essa a história que ela veio contar no Fórum Momento Mulher, promovido, em São Paulo, pelo Tempo de Mulher em parceria com a Cross Networking. Aos quarenta e dois anos, Caroline é um mulherão. Linda, loura, cheia de energia. Encara o mundo com a altivez de quem enxerga longe e não se deixa intimidar. Ela conta que, naquele dia, ouviu do médico a pergunta: "O que você gostaria de ser"? O que se pode pretender ser quando o chão se abre aos seus pés?

A busca pela resposta duraria onze longos anos durante os quais continuou fingindo ser o que não era. Ela chegou a trabalhar numa consultoria sem que soubessem que não enxergava. Bancava a atrapalhada toda vez que era confrontada com suas limitações. Até que um dia, exausta de tanto disfarçar sua condição, entregou os pontos.

Maneira de dizer, claro. Se não podia cruzar a Irlanda numa moto, que sonho de infância lhe restava? – pensou ela. Ser como Mogli, o menino lobo. E foi atravessando a Índia no lombo de um elefante que Caroline se reinventou. Transformou a jornada pessoal numa cruzada em prol das pessoas com deficiência e, durante a viagem, arrecadou dinheiro para financiar seis mil cirurgias de catarata. Hoje é dona de uma empresa batizada com o nome do elefante – Kanchi – e se dedica a criar oportunidades para pessoas com deficiência.

Seu maior defeito? Ela avalia que é ter sido dura demais consigo mesma. A maior virtude? A resiliência, a capacidade de voltar à superfície todas as vezes em que foi ao fundo do poço.

Tive o prazer de conhecer Caroline Casey. É uma guerreira que quer mudar o mundo que apenas consegue tatear. Faz jus à frase do conterrâneo, o poeta e dramaturgo Oscar Wilde: "Sonhador é aquele que só descobre seu caminho ao luar e, como punição, vê o alvorecer antes dos outros".

* Beatriz Alessi é jornalista e cidadã do mundo, como a maioria dos mineiros. Contadora de histórias, acha que a vida de toda mulher daria um grande filme - ou pelo menos uma modesta crônica.

LEIA OUTRAS COLUNAS DA AUTORA:

A coragem de ser vulnerável

A despedida nos tempos do Facebook

A dupla mastectomia sem retoques

A verdade sobre nossas mentiras

A internet não perdoa, principalmente as mulheres

A internet não perdoa, principalmente as mulheres

A Brazuca

Você não é bonita o suficiente

Procura-se a senhorita perfeição!

Quero ser vip

No reino da fantasia

Você se sente uma fraude?

Já curtiu a FANPAGE da Ana Paula Padrão no Facebook? Clique AQUI

*Tempo de Mulher: Facebook / Twitter

image beaconimage beaconimage beacon