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Sem volta: o desaparecimento de restaurantes que fizeram história em SP

Logotipo do(a) Veja São Paulo Veja São Paulo 02/07/2020 Arnaldo Lorençato
Salão do Pettirosso: o chef Marco Renzetti pretende voltar em março de 2021 com uma nova marca, também nos Jardins © Tadeu Brunelli/Divulgação Salão do Pettirosso: o chef Marco Renzetti pretende voltar em março de 2021 com uma nova marca, também nos Jardins

Guloso assumido e autor do best-seller culinário do século XIX A Fisiologia do Gosto, o francês Brillat-Savarin enalteceu em seu livro o primeiro restaurateur de que se tem notícia. “Ele foi o criador dos restaurantes e estabeleceu uma profissão que chama a fortuna sempre que exercida com boa-fé, ordem e habilidade.” Esses predicados, válidos até hoje, não foram suficientes para salvar restaurantes que caíram no gosto do paulistano diante dos efeitos nefastos causados pela pandemia do novo coronavírus. Também não ajudaram a manter vivos bares, botequins, lanchonetes, cafés, docerias…

Para uma parcela significativa de estabelecimentos, da qual uma amostra se encontra neste texto, não adiantaram talento culinário, acolhimento, nem mesmo bons preços. Ao longo de mais de três meses, donos de casas espalhadas por toda a cidade viram seu projeto de vida definhar até morrer. Ainda não se tem o número preciso de quantos lugares encerraram em definitivo as atividades, estatística que tende a aumentar, levando com ela cardápios, receitas, empregos, sonhos…

A pandemia foi decretada depois de janeiro e fevereiro, os piores meses do ano em faturamento para quem trabalha no segmento

Arnaldo Lorençato

Entre perdas tão significativas, chama atenção o fim do Pettirosso Ristorante. A casa italiana, aberta em 2007 como Osteria del Pettirosso pelo casal Marco e Érika Renzetti, viveu altos e baixos ao longo de treze anos. A estabilidade chegou quando Marco, cozinheiro italiano intuitivo, teve o endereço familiar reconhecido por VEJA SÃO PAULO Comer & Beber três vezes como a melhor trattoria da cidade entre 2013 e 2015. Mais recentemente, o chef deu uma guinada no estilo do cardápio, passou a oferecer pratos autorais e adotou o novo nome. Com quatro das cinco estrelas máximas do guia anual, era o segundo melhor restaurante italiano da cidade, depois do Fasano.

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Marco me confidenciou que ainda está tentando digerir a decisão de encerrar e prossegue a partir de agora com a nova marca para entregas e retiradas, Petti per te, na Rua Oscar Freire, onde terá um menu que vai mudar toda semana. Também projeta voltar a atender nesse endereço, provavelmente em março de 2021, mas adaptado às atuais condições de mercado. Além do ambiente acolhedor, ficarão na memória ícones da gastronomia de Roma, como o espaguete à carbonara e o tonarelli cacio e pepe, típico molho de pimenta e queijo pecorino que Renzetti ajudou a popularizar na capital. Esses clássicos devem estar no menu do novo negócio.

O La Frontera quando ainda operava: marcas consagradas que vão desaparecendo © Clayton Vieira/Veja SP O La Frontera quando ainda operava: marcas consagradas que vão desaparecendo

O primeiro dos restaurantes de alta qualidade a dar baixa durante a pandemia foi o La Frontera, na Consolação, ainda em março. Na época, a restauratrice Ana Maria Massochi, que, felizmente segue no ramo servindo carnes de excelência no Martín Fierro, na Vila Madalena, optou por fechar. Do contrário, as finanças do restaurante, que vinham numa espiral de problemas, entrariam num looping de prejuízos que poria fim também à churrascaria. Quando encerrou definitivamente com quase catorze anos de história, o quatro-estrelas levava com ele receitas inesquecíveis como o nhoque de batata assada e a milanesa assada de bife de chorizo. Mas deixa como herança ter revelado o talento do chef Filipe Leite, que segue com Ana no delivery do Martín Fierro.

Galeto’s: reduzido a um único endereço © Ricardo D'Angelo/Veja SP Galeto’s: reduzido a um único endereço

Os donos de casas espalhadas por toda a cidade viram seu projeto de vida definhar até morrer

Arnaldo Lorençato

A crise pôs um ponto-final na rede Galeto’s, aquela do franguinho assado, iniciada em 1971, pelo português Adelino Gala, e que chegou a ter doze endereços. Hoje, concentra-se em um único ponto nos Jardins, ainda não reaberto, e duas unidades de delivery.

Desapareceram também a casa especializada em bons pratos de camarão, o Tomates & Bananas, nascida em 2006, o alemão Konstanz, de 1981, atualmente só com entregas, o italiano Giardino, com 25 anos de história, e a franquia americana Tony Roma’s, trazida ao país em 2014. Em comum, todos esses lugares ficavam em Moema. Endereço argentino com estilo de bar, o Malba Cocina y Bar, no Campo Belo, de 2016, veio ampliar o número de locais extintos.

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Também findaram-se restaurantes mais recentes, como o Satú, em Pinheiros, e o Miu e o Côl, no Itaim Bibi. Até o hipster Capivara, ponto especializado em ótimos pescados na Barra Funda, não existe mais. Por causa do isolamento social, não teve tempo de se despedir, já que o fechamento estava previsto.

Bar Buraco, no centro: encerrado durante a pandemia © Clayton Vieira/Veja SP Bar Buraco, no centro: encerrado durante a pandemia

No segmento de bares, o tsunami não foi menor. Uma atração para quem não dispensa uma boa taça, os wine bars não costumam ter vida longa. Mas a do Ovo e Uva foi abreviada pelo isolamento social. Até que o proprietário tentou resistir e a decisão do final foi tomada em 14 de junho, já que não conseguiu negociar com o proprietário do imóvel um ajuste no valor do aluguel. Para piorar, a pandemia foi decretada depois de janeiro e fevereiro, que costumam ser os piores meses do ano em faturamento para quem trabalha no segmento. Acabou assim a chance de parar naquele lugar charmoso e pedir um tinto chileno com uma porção de bolovinho de codorna, ou um branco nacional para harmonizar com uma porção de mexilhões à provençal. Mas o Ovo e Uva não desaparece por completo. Se os planos dos donos vingarem, prossegue como um e-commerce e com as confrarias e cursos, anteriores à abertura do bar, em 2014.

Fachada do wine bar Ovo e Uva: degustações sem espaço físico © Reprodução/Reprodução Fachada do wine bar Ovo e Uva: degustações sem espaço físico

Um dos primeiros points a fazer sucesso na região conhecida como Baixo Augusta, o Exquisito! também deu seu último suspiro em março. A proposta inicial para o bar de pegada latina era manter-se na ativa até dezembro, o que vai ser difícil — o imóvel que a casa ocupava deverá ser entregue a uma incorporadora. Endereço que foi moda na época em que abriu, em 2014, instalado na Galeria Metrópole, o Mandíbula interrompeu as atividades no início do distanciamento social. Os sócios, porém, não se deram por vencidos. Planejam voltar com os gins-tônicas ao som de rock executado por um DJ em outro ponto.

Também não resistiram à quarentena o Cateto, em Pinheiros, celebrizado pela cervejas artesanais, e o Buraco, um bar quase escondido no centro, que virou Buco e faz delivery de pizzas e também de drinques prontos.

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Ryan Kim: dono do extinto Butcher’s Market © Mario Rodrigues/Veja SP Ryan Kim: dono do extinto Butcher’s Market

É torcer para que até aqui a aritmética de perdas não vire progressão geométrica entre os estabelecimentos devotados à gastronomia

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O obituário dos endereços de comidinhas não é menos triste. Premiada pelo Comer & Beber em 2011, a hamburgueria Butcher’s Market, no Itaim Bibi, que ajudou a consolidar o conceito dos bifes de carne moída altos, anunciou o fechamento em 10 de junho. Para evitar maiores prejuízos, o dono Ryan Kim ficará só com o bar Noname, em Pinheiros.

Até o gigante Cia Tradicional de Comércio sentiu os efeitos deletérios e desistiu da unidade da Bráz Elettrica no Shopping Higienópolis. Embora as unidades da Pompeia, da Santa Cecília e de Moema continuem firmes e fortes, outra pizzaria baqueada foi a Divina Increnca, que encerrou a filial de Perdizes em abril. Uma pena, já que era um bom lugar para comer pizza com as mãos, tomar vinho barato e passar horas divertidas. Cafeterias e docerias também foram interrompidas.

A Vila Mariana perdeu o Tazza, que serviu cafés especiais apenas durante um ano e três meses. Menos dramática é a situação da Bend Café, confeitaria que fechou a loja física nos Jardins em maio, mas prossegue entregando doces a partir de uma cozinha montada em outro endereço. É torcer para que até aqui a aritmética de perdas não vire progressão geométrica entre os estabelecimentos devotados à gastronomia.

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