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Reforço da vacina da covid-19 é importante, mas desigualdades preocupam

Logotipo do(a) Veja Saúde Veja Saúde 4 dias atrás Ingrid Luisa
Terceira dose é recomendada para idosos e imunossuprimidos. © Foto: CDC/Divulgação Terceira dose é recomendada para idosos e imunossuprimidos.

Em 25 de agosto, o Ministério da Saúde anunciou uma recomendação para que idosos acima de 70 anos e pessoas imunossuprimidas tomem a terceira dose da vacina contra a covid-19. Segundo a pasta, o reforço deve ser feito preferencialmente com o imunizante da Pfizer – na falta dele, o ideal é utilizar as vacinas da Astrazeneca ou Janssen.

A data oficial para o início da medida era a segunda semana de setembro, mas estados como São Paulo já se adiantaram. O governo paulista, aliás, incluiu a Coronavac como alternativa, decisão que vem causando discordância entre especialistas e fez algumas cidades suspenderem a aplicação enquanto o impasse se resolve.

A atualização constante da campanha de imunização gera dúvidas. Sabe-se que é seguro aplicar uma terceira dose, e que ela pode ser bem-vinda para proteger pessoas mais vulneráveis. Contudo, especialistas e autoridades mundiais em saúde pública questionam o efeito da medida no controle da pandemia pelo mundo -- especialmente a aplicação para a população em geral.

Um estudo publicado no periódico The Lancet, assinado por pesquisadores da Universidade Oxford, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras entidades, aponta que todas as vacinas contra covid-19 sendo usadas hoje em larga escala mantêm sua eficácia contra casos graves e mortes em níveis aceitáveis, inclusive meses depois da aplicação.

No artigo, os autores afirmam que o reforço pode ser apropriado em pessoas com a imunidade comprometida. O texto deixa claro ainda que, para superarmos o coronavírus, é melhor focar esforços em quem não está vacinado.

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Enquanto a discussão científica acontece, os países mais ricos já estão oferecendo o reforço. Israel começou a aplicá-lo em agosto, e mostrou bons resultados de proteção, segundo o governo local. Os israelenses chegaram a ampliar a medida para a população geral.

Além deles, Estados Unidos, Alemanha, Turquia, Chile, Uruguai e Rússia estão entre os países que já distribuem a terceira dose para grupos em maior risco, e diversos outros se planejam para seguir o mesmo caminho nos próximos meses.

O Brasil ainda avança em sua campanha de imunização e, em agosto, o Ministério da saúde apontou que cerca de 8 milhões de pessoas estavam com a segunda dose atrasada. Atualmente, muitos brasileiros esperam por sua vez de completar o esquema de imunização. Mas isso não um impeditivo para a implementação da dose extra.

“Desde que uma coisa não interfira na outra, o ideal é já aplicá-la” afirma Alexandre Naime, infectologista e professor da ​​Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Temos uma alta cobertura de primeira dose no país, e muitas pessoas não ainda não completaram seus esquemas. Mas, como a grade de vacinação prevê que o reforço não vai interferir no estoque para a segunda dose, não há problema algum”, conclui.

Por que tomar a terceira dose

A rigor, a necessidade de aplicação de mais uma dose se baseia em três fatores: disseminação da variante delta, a queda de anticorpos neutralizantes após alguns meses e a fragilidade do sistema imunológico de grupos específicos.

A delta, variante mais transmissível que já predomina em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, tem se mostrado mais resistente a anticorpos desenvolvidos em contatos anteriores com o Sars-CoV-2 e parece elevar o risco de infecções sintomáticas em vacinados.

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Em julho, a revista Nature publicou uma pesquisa explorando esses aspectos. O trabalho indicou uma maior resistência da delta a anticorpos monoclonais, usados no tratamento contra o coronavírus, assim como a anticorpos neutralizantes de pacientes previamente infectados.

A conclusão do estudo, porém, é de que duas doses de vacina seguem eficazes contra a variante. “Mas isso pode implicar em diminuição de proteção, especialmente em imunizantes que já apresentem uma efetividade limítrofe, como a Coronavac”, pondera Júlio Croda, infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, que notou a perda de efetividade da vacina do Butantan em idosos com mais de 80 anos.

Em relação a queda de anticorpos depois de um tempo, isso acontece mesmo, e, de acordo com o infectologista, em todas as idades.

Só que, como o estudo publicado no The Lancet explica, a diminuição no nível de anticorpos neutralizantes não prediz necessariamente a queda da eficácia da vacina com o tempo. "Do mesmo modo, a redução de proteção contra casos moderados da doença não indica que a proteção contra casos graves será afetada", escrevem os autores.

“Estudos mostram uma negativação dos anticorpos neutralizantes em pessoas que tomaram a Coronavac após seis meses. Isso pode estar associado a uma queda da capacidade de proteção, mas não significa que a vacina perdeu efetividade. Ainda precisamos entender, com mais estudos, se essa diminuição afeta casos leves, graves ou até óbitos”, completa Croda.

Mesmo com a queda de anticorpos, acredita-se que os imunizantes mantenham a efetividade por uma característica básica deles: a construção de memória imunológica. Diversos estudos apontam que todas as vacinas contra a covid-19 (Coronavac inclusa) são capazes de estimular o desenvolvimento dessa memória no organismo.

Ou seja, mesmo que você tenha poucos anticorpos ou o teste sorológico der negativo, seu corpo é capaz de produzi-los rapidamente ao entrar em contato com o vírus. É para isso, afinal, que as picadas servem.

Além disso, os dados de vida real mostram que as vacinas continuam funcionando bem, mesmo frente às variantes. Basta ver o Brasil, que segue registrando quedas nos óbitos e novos casos de covid-19 com o avanço da vacinação.

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Idosos e pessoas imunossuprimidas

Até agora, o reforço parece útil apenas para os mais velhos e pessoas imunossuprimidas (com aids, transplantadas ou em tratamento de câncer, por exemplo). O principal problema do primeiro grupo é a imunossenescência, ou envelhecimento do sistema imunológico, que resulta em uma resposta menor às vacinas.

“Publicamos um artigo a respeito da Coronavac mostrando que, em idosos acima de 80 anos, ela oferece menos de 50% de proteção contra óbitos, então eles já deveriam tomar uma terceira dose por isso”, afirma o pesquisador da Fiocruz.

Segundo Alexandre Naime, idosos que foram vacinados há mais tempo começaram a apresentar maior risco de internação e óbito nos últimos meses.

Ele explica que na segunda onda da doença no Brasil, em abril e maio deste ano, houve, sim, um predomínio de jovens (que ainda não estavam vacinados) nos hospitais, mas, a partir de junho e julho, a terceira idade voltou a dominar enfermarias e UTIs.

“Isso mostrou que a imunidade, principalmente para esse grupo, é temporária. Por isso, estudos apontaram a necessidade de uma dose de reforço”, afirma.

E os imunossuprimidos não estão numa situação melhor. “Eles estão até mais suscetíveis que idosos: o nível de anticorpos neutralizantes deles cai muito. Por isso o Ministério da Saúde orienta que eles recebam a terceira dose 28 dias depois da segunda. Para os idosos, a recomendação é aguardar seis meses”, esclarece Alexandre.

Terceira dose para uns, nenhuma para outros

Para além das necessidades reais desses grupos, muito se discute sobre a disparidade mundial de distribuição de vacinas. É justo aplicar terceira dose em pessoas com a imunização já completa enquanto muitas outras não receberam nenhuma?

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem batendo nessa tecla desde do início de agosto e, no último dia 8, o diretor geral Tedros Adhanom Ghebreyesus pediu que os países ricos adiem o reforço para 2022, priorizando a doação de doses excedentes para nações mais pobres.

De acordo com a OMS, só 20% dos moradores dos países de renda baixa ou média tomaram a primeira dose da vacina. Nas nações mais ricas, a cobertura na primeira dose está nos 80%. O objetivo da organização é que pelo menos 40% da população de todos os países esteja vacinada até o fim do ano.

A cientista Sarah Gilbert, líder da equipe que desenvolveu a vacina Oxford/Astrazeneca, afirmou ao periódico Daily Telegraph que é a favor da dose de reforço para imunossuprimidos e idosos, mas que essa medida é emergencial, e não deve ser ampliada para outras faixas etárias.

“A imunidade [após duas doses] está durando bastante na maioria das pessoas, e precisamos levar vacinas para países onde poucas pessoas foram imunizadas até agora”, ponderou a pesquisadora. 

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