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'Beabá' do aprendizado

29/06/2014 PATRÍCIA GATTONE

Foto: Thinkstock

Por Patrícia Gattone

A infância é um território extenso repleto de fases e de aprendizado. Por isso, especialistas alertam sobre a importância de explorar ao máximo cada uma das etapas dos filhos, em especial entre 0 e 12 anos. "É importante que cada fase seja respeitada, assim como o desenvolvimento individual da criança", explica Patrícia Bissett, coordenadora de Educação Infantil do Colégio Franciscano Pio XII. Mas como os pais podem potencializar o aprendizado dos filhos?

Estimular a autonomia das crianças deve ser um exercício constante. Em casa, os adultos podem orientar e permitir que a criança execute pequenas tarefas, a partir dos 18 meses. Podem combinar um ou dois dias da semana, por exemplo, para que ela escolha a roupa que quer vestir, geralmente aos finais de semana. "Coloque um calendário grande, mensal, no quarto deles, até para estabelecer outros combinados, como os passeios que poderão escolher", sugere Patrícia.

Uma fase muito importante e delicada é a individualista, por volta dos 2 anos. "É necessário trabalhar a socialização dando oportunidades de convivência com outras crianças através de passeios em parques, bem como a troca de brinquedos com outro colega", orienta Patrícia. Ela destaca que, quando os pequenos passam a brincar em grupo, é importante que conheçam e exercitem as regras de convivência social e o respeito ao próximo. 

Educação financeira é um assunto que pode ser tratado já a partir dos 4 anos. A especialista recomenda que a família incentive a criança a poupar o dinheiro para comprar algo que deseja, conversando com ela sobre a real necessidade. Nessa idade os pequenos também são capazes de separar brinquedos e roupas para doação, mas sempre orientados pelos pais ou responsáveis.

As fases do desenvolvimento infantil 

Segundo Carolina Agustinelli Primo, psicóloga do Hospital do Servidor Público Estadual, o filósofo suíço Jean Piaget divide as fases do desenvolvimento infantil em etapas. Para dar uma forcinha no dia a dia com seu filhote, reunimos abaixo as principais características do comportamento deles em cada período e ainda dicas de como explorar melhor cada fase. Confira!

Período Sensório-Motor:

Entre 0 e 2 anos de idade. Esta etapa é caracterizada pelo desenvolvimento da inteligência em seu aspecto concreto. É quando as crianças adquirem a capacidade de perceber seu corpo e administrar seus reflexos básicos. Além disso, ocorre a aquisição das bases do desenvolvimento motor, da fala, da percepção e discriminação entre si mesmo e o outro, bem como a noção de permanência do objeto, o aparecimento das preferências afetivas e o início da compreensão de regras. Com isso, o bebê cria situações que gerem ações prazerosas ou vantajosas. É um período que antecede a linguagem, no qual os pequenos desenvolvem a percepção de si mesmo e dos objetos ao seu redor.

Dicas para essa fase:

Como a criança é muito dependente neste período é fundamental a proximidade com os pais e com a família. A relação do bebê com sua mãe (ou com pessoa que a substitua) é a relação que servirá como base para a aprendizagem e para o desenvolvimento de uma forma geral. Nos primeiros meses de vida é o momento em que o par 'mãe-bebê' precisa ser muito unido. Mas esse par deve se tornar menos “grudado” progressivamente. É o momento, que geralmente ocorre por volta dos três ou quatro meses de idade, em que outras pessoas, pai, irmãos, avós passam a participar mais da vida da criança. É fundamental para o desenvolvimento saudável que isto ocorra. Vale ressaltar que durante este período - que vai até os dois anos - o desenvolvimento saudável depende muito mais das relações da criança com sua família do que os estímulos que ela possa receber se já estiver matriculada na creche ou na escola.

Período Pré-operatório:

Acontece no período entre 2 a 6 ou 7 anos de idade. Caracteriza-se pelo surgimento da capacidade de dominar a linguagem e a representação do mundo por meio de símbolos. É a idade que se inicia a alfabetização. A criança explora as vivências na escola, reconhece símbolos pelos lugares e constrói significado para a leitura e para a escrita. Gradativamente a criança é capaz de formar imagens mentais e usar o pensamento intuitivo, comunicando isso através da linguagem. É uma fase marcada pelo pensamento egocêntrico, ou seja, em que a criança entende o mundo a partir de um ponto de vista centrado nela mesma. Inicialmente as brincadeiras são focadas nela própria e só gradativamente passa a brincar com os outros amiguinhos.

Ainda nessa etapa, a criança apresenta uma tendência a acreditar que os objetos têm sentimentos e intenções, assim como as pessoas. Além disso, tem dificuldade em se colocar no lugar dos outros e ter empatia. Por fim, existe um grande avanço na aprendizagem da 'coordenação motora fina' que possibilita à criança ter maior domínio do uso das mãos, sendo algo necessário para a aprendizagem da escrita e para a vida escolar.

Dicas para essa fase:

Tanto o uso de jogos pedagógicos quanto o brincar livremente são fundamentais nesse período. A importância está mais na relação dos pais com o filho do que no material em si. Encontrar a atividade que dá prazer à criança também é importantíssimo. A base da aprendizagem para esta faixa etária está no prazer em realizar brincadeiras e atividades e na relação afetiva com o adulto. É bom também não subestimar as atividades que serão realizadas como se fosse algo de pouco valor. O brincar é a expressão saudável da criança e condição básica para o desenvolvimento e para a aprendizagem.

Período Operatório-concreto: Costuma acontecer entre os 6 ou 7 anos até os 11 ou 12 anos. É o período em que a criança aumenta sua capacidade de empatia e passa a ser capaz de perceber o ponto de vista de outra pessoa, levando em conta mais de uma perspectiva. Também adquire a capacidade de classificação, agrupamento, reversibilidade e a realização de atividades concretas. Mesmo assim, ainda tem dificuldade para o pensamento abstrato. Então, passa a utilizar o pensamento lógico, o que significa melhores condições para lidar com números e operações matemáticas. Também aumentam a capacidade de aprender conceitos de gramática e para compreender e recordar fatos históricos e geográficos.

Nessa fase, há uma melhora na capacidade de planejamento e para a percepção de si mesmo. É o período em que costumam se formar os grupos de amigos e em que a criança tende a se interessar por jogos e atividades em equipe. Juntamente com isso, passa a internalizar os julgamentos morais e, assim, começa a seguir regras sociais por iniciativa própria, sem precisar tanto do adulto para fazê-lo.

Dicas para essa fase:

Como se trata de um período de maior independência da criança, fica para os pais a difícil tarefa de encontrar o ponto de equilíbrio entre aquelas tarefas e atividades que os filhos precisam de ajuda e aquelas em que a criança já tem condições de fazer de modo autônomo. O segredo está na capacidade dos pais em observar o filho e a si mesmo. O desenvolvimento é gradativo, e a passagem de um estado de maior dependência para um estado de relativa independência da criança também deve ser. É normal que uma mesma criança se mostre madura para determinada atividade, como se arrumar para ir à escola e, ao mesmo tempo, seja dependente para outra atividade, como fazer a lição de casa.

Nessa fase, o brincar continua sendo fundamental. Portanto, mesmo que a criança faça algum tipo de atividade extra-escolar (esporte, curso de inglês etc) ou que fique na escola em período integral, não é saudável ficar sem tempo para brincar ou descansar. Crianças não precisam ser executivos mirins. Precisam ter um tempo e um espaço para serem crianças.

8 dicas práticas para estimular o desenvolvimento da criança em casa

Confira abaixo as dicas elaboradas por Adriana Cristiana Meneguello,Colégio Mary Ward!

- Incentive a leituradesde bebê. Os pais podem ler para as crianças favorecendo assim a imaginação, a descoberta, criando neles o hábito de ouvir, sem interferir.  O fato de ouvir uma história, uma receita, um cartaz ou outro portador de texto, faz com que a criança tenha contato com a função social da escrita, de se comunicar.

- Estimule os pequenos a fazer barulhos e/ou movimentos com a boca, com as mãos, dedos, corpo.O bebê necessita de estímulos para explorar o espaço que o cerca e reconhecer seu corpo no aspecto global, identificando suas capacidades e limitações.

- Faça brincadeiras “descomprometidas” com a escrita, uma delas é com o jogo do STOP. Peça que elabore, por exemplo, uma lista para auxiliar a mamãe nas compras de supermercado. Essas práticas poderão auxiliar a experiência de escrita de modo “descomprometido”. Ninguém irá avaliar, mas precisa dar conta da transmissão de informação.

- Proporcione momentos de recreação entre adultos e crianças.Para isso, utilize os jogos da memória, quebra-cabeças, jogos de estratégias e jogos simbólicos.

- Crie o hábito de escrever recadinhos entre os membros da casa. Combine também de todos deixarem as mensagens num local previamente combinado.

- Até os dois anos, a criança aprende facilmente por imitação, portanto um gesto, uma palavra associada a um movimento pode favorecer o aprendizado. Exemplo: A mamãe não quer que você mexa aí! – com voz firme e retirando a criança deste local indesejado e provocando sua atenção para outra coisa “permitida”.

- Para a criança até 7 anos, as comparações de modo metafórico não funcionam, pois elas se apropriam do modo literal do que está sendo exposto. Como por exemplo, quando os adultos usam um provérbio para retratar uma situação da realidade, a criança trabalhará apenas com a imagem representativa daquele provérbio e não com a comparação.

- Já com as crianças maiores, elas se sentem estimuladas com situações desafiadoras. Na escola os desafios, as situações que exijam maior concentração e que tenham um único resultado independentemente da estratégia utilizada para chegar ao resultado, são propostas motivadoras para a aprendizagem.

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