Está a utilizar uma versão de browser mais antiga. Utilize uma versão suportada para obter a melhor experiência possível com o MSN.

Cajuda, parte II: “Uma vez, no autocarro, disse aos jogadores: 'Fechem as cortinas, vou mostrar-vos um filme para homens... com mulheres'”

Logótipo de TribunaTribuna 18/03/2018 Alexandra Simões de Abreu

Na segunda metade desta entrevista, Manuel Cajuda relata as suas aventuras pelo Egito, Dubai, Tailândia e China. Fez o Ramadão, comeu peixe podre e aprendeu a ser mais calmo e humilde. Entre muitas outras histórias, revela como castigou um jogador que meteu uma rapariga no quarto durante um estágio, descreve o cenário luxuoso que sentiu no Dubai e explica por que razão nunca treinou nenhum dos grandes em Portugal

Tribuna: Cajuda, parte II: “Uma vez, no autocarro, disse aos jogadores: 'Fechem as cortinas, vou mostrar-vos um filme para homens... com mulheres'” © RUI DUARTE SILVA Cajuda, parte II: “Uma vez, no autocarro, disse aos jogadores: 'Fechem as cortinas, vou mostrar-vos um filme para homens... com mulheres'”

Como é que vai parar ao Egito?

Foi um empresário que me levou, o senhor Salem. É iraquiano mas mora em Portugal há muito anos. Devo-lhe muito.

Quando chega ao Egito, qual foi o impacto?

A primeira vez que viajei para lá, fui sozinho. Um grande clube, Zamalek, com 25 milhões de adeptos, que tinha ganho cinco Ligas dos Campeões africanas. Eu falava muito mal inglês. Hoje não falo bem, falo melhor, já me desenrasco. A primeira semana foi boa, as manifestações de carinho eram muitas, mas depois quando comecei a cair na realidade, fez-me chorar. Um dia estava no meu quarto do hotel a olhar para piscina e a beber um copo de um bom vinho português, que foi coisa a que me habituei, e comecei a chorar sem dar por mim.

Porquê?

Cheguei à conclusão que o dinheiro não era tudo na vida. Eu estava a ganhar bem, mas não tinha a minha família, não via os meus netos, não via a minha mulher. Estava há dois meses sozinho, não sabia falar árabe, tinha um tradutor que só via na hora do treino e depois passava mais 20 e tal horas em que não falava com ninguém. Lembro-me de 'roubar' fruta ao pequeno-almoço e levar para o quarto para não ter de descer para almoçar porque não sabia pedir nada. Cheguei a passar fome à noite, não por falta de comida, mas porque não sabia dizer o nome das coisas. E nesse dia chorei. O dinheiro não é nada na vida, eu não quero ser o homem mais rico do cemitério. Mas pensei: 'não posso voltar para Portugal porque vão dizer que sou um cobarde e que fracassei'. Foi quando decidi tornar-me egípcio. A partir desse dia tornei-me um egípcio.

Como?

Passei a vestir-me de galabeya. Ninguém dizia que eu não era árabe, moreno e de barbas... Falavam comigo, eu não falava com ninguém, era um arrogante do caraças (risos), não sabia falar. Fiz o Ramadão durante 12 dias. Comia depois do pôr-do-sol, por volta das sete, à meia-noite, e punha o despertador para levantar-me às quatro da manhã, para comer. Durante o dia não comia, não bebia, nem fumava, nada. Quis ter o sentimento de como era o Ramadão.

Porquê durante 12 dias?

Percebi o que era o Ramadão, mas também percebi que não sou árabe, não tenho necessidade, não me vou converter. Provavelmente os últimos dias foram os mais difíceis. Vivi, percebi o que são as regras, cumpri as regras... não é só dizer 'vi o Ramadão'. Ver o Ramadão é como ver o Carnaval, passam os cabeçudos e ficamos na mesma. Eu vivi, quis perceber o que era, por que razão faziam aquilo. Tenho o livro do Alcorão em espanhol.

D.R. Tribuna Cajuda e a mulher no Egito, vestidos a preceito 1

E leu o Alcorão?

Li.

Ficou a compreendê-los melhor?

Em algumas coisas sim, outras não.

O que é que continua a não entender?

Porque é que eles não aceitam o cristianismo, tal como eu aceito o islamismo. Os crentes do islamismo não são meus inimigos, são uma religião diferente. Eu por dinheiro nenhum matava um árabe ou um crente no islamismo, não percebo como é que se matam cristãos.

Sei que mal chegou teve logo um choque por causa da cultura, das regras.

Foi logo no primeiro dia. Todos os campos têm uma mesquita e quando começaram a chamar para a reza os jogadores pararam o treino e começaram a rezar. Não admiti aquilo. Disse: 'Sou profissional vou acabar com isto'. No segundo dia eu estava a rezar com eles. Porque me explicaram: 'Atenção, não te metas nisto. Estás a meter-te em milhares de anos de cultura de uma religião, se te metes nisto vais ter problemas'. Por isso, não vale a pena sair daqui com ideias ou ir armado em idiota, tenho muitas ideias que perante a minha realidade... Vim agora para o Académico de Viseu e encontrei muito mais dificuldades do que aquelas que eu pensava encontrar, muitas mais. Não servia de nada eu trazer muitas ideias, esbarravam todas na impossibilidade de...

Do que é que gostou mais no Egito?

Das pessoas. O que gostei mais foi como cidadão, não como treinador. Gostei do Nilo, de jantar nos passeios do Nilo, de ir passear para as pirâmides de 15 em 15 dias, de andar a cavalo, de camelo. A minha mulher foi lá ter passados esses dois meses e ficou lá a viver.

Ela gostou?

Gostou. Éramos muito queridos na rua. O Manuel José, claro, era e é o Faraó.

Ele estava no Al Ahli nessa altura. Vocês conviviam?

Muito pouco. Mas o Manuel José é o maior de todos os faraós no Egito em termos de futebol, nem façam comparações. Eu era o mais simpático. Falava com toda a gente, ria, brincava com eles.

D.R. Tribuna Cajuda com a galabeya vestida. Cumpriu o Ramadão durante 12 dias 1

O que chocou mais?

Não é o que chocou, é o que mais me custou a aceitar, foram algumas regras do islamismo. Eles levavam aquilo longe de mais.

Dê-me um exemplo.

Uma dia fui jantar com o meu tradutor, ele estava na minha mesa, levantou-se e foi para outra mesa. Perguntei-lhe porquê. Ele disse que não podia estar perto do vinho. Eu tinha uma garrafa de vinho na minha mesa, porque eu e a minha mulher bebíamos vinho, éramos estrangeiros, e ele levantou-se e foi jantar para outra mesa porque não podia estar próximo do vinho. Ainda hoje ainda não percebo. É duro de mais.

Nunca teve nenhum problema mais sério?

Tive o problema do passaporte, que desapareceu. Isso foi outra história, quiseram forçar-me a sair de lá. Mas a embaixada portuguesa foi cinco estrelas.

É essa a razão por que vem embora?

Sim. Nós estávamos em 2º lugar, a 12 pontos do Al Ahli. No ano anterior tinham ficado a 34 pontos. Perdemos o jogo e eles para me pressionar, ou para meter medo, disseram que a partir daquele momento não garantiam a minha segurança no Cairo. Era para ver se eu fugia. Fiz que não percebi, chamei o tradutor e pedi para me dizerem outra vez, entretanto liguei o gravador do telefone, para depois não haver dúvidas. Voltaram a dizer-me a mesma coisa, que já não garantiam a minha segurança no Egito. Disse que ia ligar à minha embaixada. A embaixada pediu-me para enviar um fax do hotel com aquela informação. Depois eles, do clube, quiseram voltar atrás. Entretanto o meu passaporte tinha desaparecido. Foi aí que dei conta da minha santa ignorância e fiquei a saber que o passaporte não era meu, mas sim do Estado português, e eu sou o portador dele. O embaixador disse para não me preocupar porque se o passaporte não aparecesse eu ia ter direito a segurança do Estado: 'Quando quiser sair, vai sair com o carro com a bandeira nacional à frente como um chefe de Estado'. Passados uns dias apareceu o passaporte e o embaixador disse: 'Agora, por ordem da embaixada, vai embora e não se preocupe que eles vão-lhe pagar o contrato todo'. O pessoal da embaixada foi fantástico. E vim embora.

Qual foi a coisa mais caricata que lhe aconteceu no Egito?

Foi como treinador. Tive 10 presidentes num ano.

10?!

Sim. Mas era sempre o mesmo (risos). Aquilo havia uma guerra no clube. Então durante 15 dias tinha uma comissão desportiva, passados 15 dias voltava o presidente Mortada Mansour, passados 15 dias o tribunal dizia que ele tinha de sair. Entrou e saiu 10 vezes. Um dia embarcámos com o presidente e quando saímos do avião, uma hora e tal depois, ele já não era o presidente. Vivi essa instabilidade toda e fomos vice-campeões nacionais e fomos à final da Taça.

D.R. Tribuna Manuel Cajuda costumava ir com a mulher e amigos às pirâmides para andar de cavalo e de camelo 1

E comida, teve de provar coisas esquisitas?

Tive. Um dia a minha equipa técnica disse-me que eu não gostava deles porque nunca ia jantar com eles. Não seja por isso. Fomos jantar. Quando cheguei ao restaurante, disse para mim: 'Se não morrer desta, já não morro'.

Porquê?

Era um restaurante popular, de rua, e quando olho para as paredes... A última coisa que me lembro de ter bebido foi... está a ver aquela água que fica das saladas? Imagine o que é despejar uma coisa dessas para dentro de um copo e darem-lhe para beber. Eles beberam e eu bebi. Comi tudo. Ainda por cima eles não tocavam na comida sem eu tocar primeiro.

Qual foi a coisa mais estranha que comeu?

Não me lembro do nome, mas é um peixe podre. Um dia na sala de imprensa perguntaram-me se eu era capaz de provar e eu disse que sim. Aquilo é uma coisa tradicional que só fazem numa determinada festa. Na outra conferência de imprensa levaram um tabuleiro com aquilo. Pus na boca… Horrivel é pouco. Só pensei, e agora? Se vou cuspir isto fora eles ficam chateados. Engoli sem mastigar. Nem quero recordar, era mole…

D.R. Tribuna Os adeptos vimaranenses agradecem a Cajuda por ter levado o V. Guimarães à I Liga, em 2007 1

Vem para cá desempregado ou já tinha contacto com o V. Guimarães?

Estava ainda no Egito a tratar das coisas quando recebo um telefonema para vir para o V. Guimarães.

Veio mesmo a calhar.

Havia uma paixão sagrada na família que era treinar o V. Guimarães.

Porquê?

Foram tantos anos no SC Braga, de rivalidade, que aprendemos a gostar do Vitória. Curiosamente a minha mulher gostava mais. Eu já tinha recusado uma vez quando estava no SC Braga. Nunca iria sair de um clube para ir para o outro. Acho que é desonesto, nunca faria isso.

E as coisas correm-lhe muito bem no V. Guimarães.

Subimos de divisão, fomos à Liga dos Campeões e fui despedido.

Outra vez a mesma pergunta, porquê?

Fui mais burro do que eles (risos).

O que é que aconteceu desta vez?

Pensaram que eu era um vira-casacas, um troca-tintas. E quando mexem com a minha dignidade... Fizeram aquisições e disseram que tinha sido eu a dar o aval. Eu disse-lhes: 'Não dou o aval nem agora, nem daqui a 10 anos'. Despediram-me por causa de uma entrevista que dei ao jornal “O Jogo”. Não tiro uma vírgula ao que disse.

E o que disse nessa entrevista?

Dizia que subi de divisão e o prémio que tive foi-me oferecido pelos jogadores. Eu não tinha prémio de vitória. As pessoas ficaram escandalizadas. Recebi 9 mil euros, dados pelos jogadores, tiraram 500 euros cada, mais o adjunto, o Basílio. Foi o Basílio que fez isso tudo. Era uma vergonha que o homem que tivesse dado vida ao V. Guimarães não tivesse um prémio. O clube não me deu nada. E queriam obrigar-me a dar aval por jogadores, não dei, e de um momento para o outro, começaram a dizer que eu era um empecilho. E pronto, arranjaram maneira, disseram que eu tinha fugido para os petrodólares, que tinha voltado para o Médio Oriente. Eu fui para o Al Sharjah depois, passados 10 dias. Mas disseram que eu tinha saído para ir para lá e eu pergunto, como é que o V. Guimarães pagou depois os 10 meses de salários? Se fosse eu a sair não pagavam. Fui posto na rua, fui posto na rua por ser incomodativo. Eu tenho histórias no futebol... Uma vez dei um abraço ao Sócrates e paguei por isso.

Explique lá isso.

Quando o Sócrates andava em campanha a lutar pela presidência do PS, ainda não era secretário-geral do PS, um dia dei-lhe um abraço. 20 dias depois fui despedido. Na Madeira. Histórias de vida… Mas vamos avançar.

D.R. Tribuna Os jogadores do V. Guimarães atiram Cajuda ao ar, nos festejos da subida de divisão 1

Vai para os Emirados, para o Dubai.

O melhor país do mundo.

Porquê?

Luxo e não só, muito boa gente. Não quero discutir a ideia que as pessoas têm dos árabes. Eu tenho a melhor ideia dos árabes. Trataram-me sempre muito bem e no Dubai então, são de uma educação, de uma cultura fascinante. Hei-de lá voltar. Claro que o Dubai tem o luxo de uma vida que não é para pessoas normais. Aquilo é uma anormalidade.

Teve oportunidade de viver esse luxo?

Tive, estive lá três anos e meio, conheci tudo. A minha mulher cada vez que íamos jantar dizia: 'Este restaurante é melhor do que o outro'. Mas atenção, eu fui um emigrante de luxo, percebo muito bem o que são os emigrantes, não têm a vida que eu tive. Fui emigrante de luxo, vivi em hotéis de luxo que eles pagavam. Tinha um contrato que não me permitia andar em 2ª classe. Só podia andar em 1ª classe de avião. Muitas vezes trocava com os colegas e ia para a 2ª classe, para eles descansarem um bocado.

Qual foi a situação mais luxuosa que viveu?

Eu e a minha mulher vivemos num hotel de super luxo. Não precisava de marcar o meu lugar na piscina, nem nas cadeiras da praia, tinha sempre o lugar marcado. Não tinha horas para o pequeno-almoço. A mesa estava sempre pronta para mim. Um dos diretores do hotel era português, o outro era um italiano que tinha estado muitos anos em Portugal. Aquele hotel, sendo de super luxo, aceitou o meu cãozinho. Só dois hotéis no Dubai aceitavam os cães, e aquele aceitou o meu cãozinho.

Que cão tem?

Tenho um chihuahua há 10 anos. Chama-se Paris. Era para ser Paris Hilton, pensava-se que era uma cadela, afinal era cão, ficou Paris. Foi o meu filho João que comprou. Depois o João andava nas viagens e ficou para nós. A única coisa que de vez em quando ainda tenho dificuldade em entender é como é que ele ocupou o meu espaço.

Como assim?

O cão lá em casa sou eu. O gajo é tratado como um príncipe (risos). A minha mulher levanta-se de noite para ir tapá-lo, para não apanhar frio, coitadinho. A mim nunca me tapa (risos). Eu chego a casa e ele fica horas no meu colo. Almoça e janta ao meu colo.

D.R. Tribuna Selfie no Dubai 1

E qual foi o luxo maior que se deu a si próprio?

Não sou muito dado a extravagâncias, a única coisa que fiz foi utilizar tudo o que podia utilizar, não me preocupava se um jantar custava 50 euros, se custava 25 ou 10. Felizmente ganhava bem, portanto nunca privei a família de nada. As pessoas têm que compreender que estava a ganhar muito mais dinheiro do que aqui. Uma vez levei a minha mulher a jantar ao Cavalli, que é uma das melhores discotecas do mundo, com uma mesa central no meio da pista. Eu, a minha mulher e um casal amigo a jantar, com todos à minha volta. Proporcionou-se a vida assim, não faço disso uma arrogância.

Saiu ao fim de dois anos. Porquê?

Uma lição de vida. Dei-me muito mal com o diretor desportivo. Foi batoteiro, fez muitas coisas, inclusivamente inscreveu o filho na equipa e queria que eu o pusesse a jogar. Disse que não punha. O presidente não sabia e quando descobriu que eu estava a dar-me mal, fez uma reunião para acabar com as confusões e pediu-me para eu o cumprimentar: 'Não quero. Se esse senhor volta a entrar no balneário eu saio. Onde ele se sentar eu levanto-me'. Passado uma semana, pôs o diretor desportivo na rua, passadas três, pôs-me a mim. Não me quis dizer porquê. Vou quase todos os anos ao Dubai e o ano passado ele confessou: 'Vou dizer-te o porquê. Tu não quiseste dar um abraço ao outro e eu acho bem, és um gajo de dignidade. Eu tive que o pôr na rua. Mas para tu não pensares que eras o dono do clube ou que mandavas nisto, passadas duas semanas pus-te a ti. Quem manda aqui sou eu'. Foi uma boa lição de vida.

D.R. Tribuna Cajuda foi muito acarinhado no Al Sharjah nos Emirados Árabes Unidos 1

Regressa a Leiria?

Para mal dos meus pecados. É o U. Leiria que acaba. Nem quero falar nisso. É mau demais para ser verdade, nem quero falar nisso.

Depois vai para a sua terra, para o Olhanense.

Pior ainda. O que os meus ex-amigos me fizeram é de uma vilanagem que não perco tempo com eles. Por isso é que muita gente não percebe porque é que abandonei o futebol português. Os dois últimos anos que estive em Portugal foram da pior vilanagem que eu pude encontrar em 40 anos de carreira. O U. Leiria nunca me pagou, o Olhanense nunca me pagou. Aliás o Olhanense esteve a pagar 180 euros por mês porque eu disse que não lhes perdoava a maldade que me fizeram.

Mas a maldade que lhe fizeram tem a ver com o dinheiro?

Não, eu disse que ia de borla para o Olhanense, mas nem quero perder tempo com o Olhanense. O Olhanense é o clube do meu coração, mas há cinco meses que estive em Olhão que apaguei da minha memória. Assim como essas pessoas. São reles demais para eu pensar neles, reles demais.

D.R. Tribuna Cajuda na China com o tradutor Fábio 1

Vamos saltar então para a China. Quem o leva é o seu filho Hugo?

É. Estava em casa no Algarve e de repente: 'Ó pai, tens que ir para a China amanhã'. E fui.

Sozinho?

Não, fui com a minha equipa técnica, eu e o Nascimento. A minha mulher depois foi lá ter. Lá conseguiu separar-se do cãozinho. Tinha que ficar em quarentena e não quisemos deixar o nosso cão no aeroporto, 40 dias.

O que é que o impressionou mais na China?

Tudo. Viver numa república comunista sem sentir o comunismo. Educados, muito educados, muito respeito pelos estrangeiros, embora façam aquilo que eles querem. Dizem sempre, és estrangeiro, gostamos muito de te ouvir, mas tu estás na China, quem manda somos nós. Uma cultura milenar que vale a pena aprender. Tornei-me melhor pessoa.

Por que diz isso?

Aprendi a ter paciência de chinês. Já não buzino numa fila de carros. Tornei-me melhor pessoa, mais ouvinte, mais compreensivo. Ainda no domingo passado, antes do jogo, disse aos jogadores: 'Não se preocupem, não antecipem, não há sofrimento, nem há alegria por uma coisa que ainda não aconteceu'. Aprendi isto na vivência do dia a dia. A China é um sonho bonito. As pessoas estão muito enganadas quando se fala na China. Quando disseram que eu era um coitadinho, era bom que fossem ver Chongqing, é uma cidade do outro mundo.

D.R. Tribuna Cajuda durante um jantar na China 1

Quando esteve no estrangeiro, esteve sempre em hotéis?

No último ano na China vivi num apartamento, perto do centro histórico. Mas prefiro os hotéis, tenho mais companhia, há mais gente. Se preciso de socorro, por exemplo, está tudo mais próximo do que num apartamento, que é mais isolado.

Não viu nada de que não gostasse na China?

Vi. A China tem de tudo. Uma vez estava na esplanada de um restaurante e os ratos andavam a passar por cima dos pés.

Perdeu o apetite?

Não. Acabei de comer a sopa. Uma vez vi cobra na mesa e a primeira tentação foi comer, não sabia o que era. Era tão bonito, tão bonito o prato, estava tão bem feito que para mal dos meus pecados, fui perguntar o que era. Quando me disseram que era cobra... Eh pá. E um dia estava a comer uma torrada no meu hotel e saiu-me uma barata da torradeira. Chamei o empregado, a barata por cima da mesa e o empregado riu, riu. Eu para não dar parte fraca, pus o pão na torradeira, torrei o pão e comi. Aprendi na China que tudo o que tiver quatro patas e não for uma mesa, eles comem. Ultimamente ia com eles diariamente comer a comida tradicional e gostava. Muito picante, super picante, com coisas incríveis. Hot Pot. Põem centenas de malaguetas, dentro daquilo, peixe, carne, tudo misturado. Bebem muito cerveja quente ou natural. Um dia no hotel fui à máquina do sumo de laranja e estava quente. Gostei.

E ao nível de futebol? Fraquinho.

Eles têm um problema, não têm formação. Mas daqui por 20 anos, se eu cá estiver, nessa altura falamos. Estamos enganados com a China.

D.R. Tribuna Cajuda à esquerda, com o adjunto Floris e o filho Hugo, à direita 1

Esteve em dois clubes. Porquê?

Não, estive em três. Estive no Chongqing, depois no Tiajin Songjiang, que é onde está o Paulo Sousa agora, e da última vez estive no Sichuan Annapurna. Da última vez estive na 2ª divisão mas comparável ao campeonato nacional de terceira aqui em Portugal. Tinha um estádio para 30 mil pessoas, um complexo desportivo com quatro relvados, dormíamos lá, tinha escritórios... Portanto, quem chama coitadinho a isso… Nunca recebi o ordenado um segundo atrasado, normalmente recebia três ou quatro dias adiantado. Tinha prémios melhores do que alguns salários.

Onde é que foi investindo o seu dinheiro?

Tive duas lojas, uma sapataria e um pronto a vestir, em Olhão. Não correu bem. Investi na família. Não tenho grandes riquezas, tenho uma vida normal.

Carros. Alguma vez perdeu a cabeça?

Não, gostava muito da minha carrinha Peugeot 406. Uma vez a família conseguiu convencer-me, estupidamente, fui tão estúpido, a comprar um carro à treinador. Comprei um Chrysler 3M, que era um sonho de carro. Desportivo, tão bonito, tão bonito, que gripou o motor. A carrinha dos patos e das galinhas, como eu lhe chamava, nunca gripou. O outro foi logo.

Esqueceu-se de ver o óleo?

Sim, mas preguei a partida ao meu filho. Eu sabia que o carro não tinha óleo, entretanto fui embora e o meu filho trouxe o carro do Algarve para o Norte, sem óleo. Chegou ao Porto e o motor partiu todo. Quando ele me telefonou: 'Ó pai, o motor avariou'. Eu: 'Pois, deixo-te o carro e dás logo cabo do carro'. Ele andou ali um mês entalado, até que eu confessei: 'Ó filho, não foste tu, foi o pai. Desculpa lá, não foste tu, foi o pai”'(risos).

D.R. Tribuna Cajuda, na Tailândia 1

Depois das duas primeiras épocas na China vai para os Emirados novamente, para Ajman...

Mais uma vez fui estúpido. A minha vontade de voltar aos Emirados não tinha nada a ver com o futebol, eu queria voltar ao Dubai, a melhor terra do mundo. Por isso, quando me convidaram, aceitei. Um dia depois de ter assinado o contrato estava arrependido. A equipa era muito fraquinha. No primeiro dia, quando vi o treino, joguei as mãos à cabeça: 'Devia ir embora já'. O presidente disse-me que não podia comprar jogadores e eu disse-lhe: 'Eu vou descer de divisão mas a responsabilidade é vossa'.

Segue-se a aventura pela Tailândia.

Maravilha, não há pessoas melhores do que os tailandeses. São de uma humildade... Vou dar um exemplo. Uma vez fui jantar a um restaurante com o meu presidente, dono de quatro canais de televisão, uma fortuna fabulosa. Todas as semanas eu ia jantar a casa dele, mas dessa vez fomos a um restaurante e ficamos fascinados com o restaurante. Passados uns dias andávamos a passear de calção, chinelos enfiados no dedo, como gostávamos de andar por lá e como eu gosto de andar, um verdadeiro turista. Como estávamos perto do restaurante pensamos vamos ali, mas se calhar não nos vão deixar entrar, um restaurante daqueles, com aquela classe. Resolvemos arriscar. Chegamos à porta, perguntámos se podíamos entrar e eles disseram que sim. Como estávamos mal vestidos, fomos perguntar ao gerente porque é que ele nos tinha deixado entrar assim, e ele deu-nos uma resposta fascinante: 'Nós aqui servimos os clientes, não servimos a roupa dos clientes, os senhores só têm é que se portar bem, respeitar a casa. Podem comer o que quiserem'. Não encontrei mais nada como isto no mundo. Jantámos, pagámos, fomos muito bem recebidos. Grande lição.

D.R. Tribuna Ao lado de um monge, na Tailândia 1

Veio embora porque?

Quis vir embora porque houve lá batota nos resultados. Tínhamos direito a três pontos na secretaria, mas o clube não tinha muito poder e perdeu os três pontos. Houve batota e eu disse que queria ir embora. Fui falar com o presidente que me disse que não queria que fosse embora.

Como é que resolveu?

Vim embora. Sabe o que é que aconteceu? Da segunda vez que disse que vinha embora ele disse-me assim: 'Eu não quero que vás embora, mas não vou pedir uma terceira vez porque isso vai contra a cultura tailandesa. Não posso pedir uma coisa que tu não queres. Se eu te pedir estou a ir contra a tua vontade e nós na Tailândia respeitamos muito a vontade das pessoas. Se a tua vontade é ir embora, vai embora'. Tratei de tudo, resolvi tudo, pagou-me tudo e no outro dia fui ao escritório dele para me despedir e oferecer-lhe uma camisola e ele não me recebeu.

Não o recebeu?

Fiquei aborrecido com ele. Vim a descobrir que ele disse que não me recebeu porque não tinha nada para falar comigo, tinha feito tudo para eu não sair e eu vim embora à mesma. Também não respeitei a vontade dele. O contrato acabou não tinha mais nada a falar comigo. Ele era um tipo engraçado. Sabe o que me disse quando me contratou?

D.R. Tribuna Num jantar com a equipa da Tailândia, no campo de treinos 1

Diga.

'Contratei um treinador jovem'. Está a brincar comigo presidente?. 'Não. Eu não te contratei para trabalhar, contratei a tua inteligência. Para trabalhar tu tens os teus adjuntos que são jovens.' Vá lá dizer isso aos dirigentes portugueses. Dizem que eu ando à procura de lugar. Agora veja se o tailandês tinha razão ou não. Para preparador físico eu tinha um puto novo que andava na faculdade. E há outra coisa, aqui em Portugal, desgraçadamente, eu até já perguntei se isso vem na Constituição, porque parece que é proibido eu ter ideias novas só porque sou mais velho. Não é, pois não? É que aqui pensam que só os novos é que têm ideias novas. Põe-se um rótulo às pessoas. Agora vou falar de futebol um pouquinho, permita-me. Eu disse-lhe que tinha zero de conhecimento quando comecei, não tenho vergonha nenhuma em dizê-lo. Sabe o que é que eu utilizava quando comecei como treinador? Como não tinha conhecimento, usava a imaginação. Tinha que imaginar qualquer coisa. Com os anos fui adquirindo conhecimento, como toda a gente. Pensei que ia adquirindo conhecimento e perdendo imaginação. A conclusão a que cheguei é que quanto mais conhecimento tenho, mais imaginação utilizo. O que eu faço é utilizar o conhecimento com imaginação, que é uma coisa que a maior parte dos patetas não sabe fazer. Sabe o que é utilizar conhecimento com imaginação?

Dê um exemplo.

Dou. Quando cheguei à China, levei os melhores processos, os mais avançados da Europa para treinar. Uma semana depois vieram falar comigo porque não gostavam dos treinos, queriam era preparação física, aquilo que ninguém quer em Portugal. 'Nós queremos é correr e preparação física'. Tive que lhes mostrar, usando a imaginação, que estavam enganados. Organizei uma peladinha e expliquei-lhes que estávamos a treinar posse de bola, a criar linhas de passe, a fazer desmarcações de rutura, a treinar todos os factores, todos os conteúdos da técnica, táctica, mas também estávamos a trabalhar a condição física, porque o espaço é mais reduzido. E eles: 'Ah, não sabíamos'. No final da época já toda a gente gostava daquilo.

D.R. Tribuna Cajuda na Tailândia, ao lado de um polícia 1

Uma das coisas por que ficou conhecido foi por ter sido o primeiro treinador a utilizar psicólogo e nutricionista na equipa.

Isso foi em 1996, se não me engano, no SC Braga. Chamei para a minha primeira equipa técnica um treinador excelente do basquetebol, o Humberto Gomes. Porque o basquetebol era e é um dos desportos coletivos mais inteligentes. Depois percebi que acima de tudo há uma condição que tem de estar bem, a psicológica. Então utilizei um psicólogo. Hoje, se me perguntar se faz falta, eu digo faz, se me perguntar se quero, eu digo não.

Porquê?

Hoje já vejo como eles, trabalhei oito anos com um psicólogo. E uma nutricionista. Na altura disseram-me que era uma heresia o que eu estava a fazer. Tinham a mania que eu ia mandar na comida, na casa dos jogadores. Não, vou é ensiná-los a não cometer erros. O treino desportivo tem de ser visto num aspecto tridimensional: a carga de treino, a recuperação e a alimentação. Se não se alimentarem e repousarem bem, a carga de treino não presta para nada. Das três dimensões, eu só sou responsável por uma, que é a carga de treino. As outras duas... O futebol português tem feito evolução com as novas metodologias e a modernidade, mas adquiriu o bom e o mau. E adquiriu agora três coisas novas que são: a desculpalogia, a queixalogia e a achologia.

D.R. Tribuna Cajuda visitou o presidente do clube que treinou no Dubai para oferecer-lhe uma camisola do clube chinês que estava a treinar 1

Sente-se um treinador injustiçado ou mal compreendido?

Não, o que digo é que muitas vezes a minha inteligência colide com a incompreensão dos outros. Estamos num país que voltou ao escárnio e maldizer. O falar mal de alguém é moda. Sabe do que me sinto injustiçado? Quando falam de mim sem me conhecer, sem terem falado comigo pelo menos 10 minutos.

Tem alguma mágoa por nunca ter treinado um dos três grandes em Portugal?

Não. Nestes últimos 30 anos os três grande atravessaram grandes crises e se calhar eu fui convidado na altura em que a grandeza desses grandes estava ofuscada pelo presente negativo que eles estavam a ter. E eu disse, não me interessa isto. Qual é o problema? Já disse uma vez, não fui porque não quis ir. Chamaram-me arrogante, vaidoso. Não, não fui porque eu achei que não era bom para mim. Vi o que fizeram a alguns treinadores portugueses. Pensei, eu não ganho 40 mil, mas ganho 10 mil e sou feliz, ganho mais do que a maior parte da população portuguesa. Tenho o direito de ser feliz à maneira. A um desses clubes eu disse: 'Quem é que vos disse que eu queria ser vosso treinador? Eu não pedi nada'. Senti que como pessoa ia ser trucidado como foram outros. Mas não tenho nada contra os clubes grandes, atenção.

D.R. Tribuna Cajuda num momento de descontração com a mulher 1

E a seleção, gostava de ser selecionador?

Gostava.

Ainda vai a tempo?

Não. E eu quero que o Fernando fique lá muito tempo. Primeiro porque merece como pessoa e merece como treinador. Eu sou feliz, eu sou um menino da província que ninguém dava nada por ele e fez 560 e tal jogos na I Divisão. Fiz 60 como adjunto e 504 como treinador principal, mais coisa menos coisa. Estou no top 10 dos treinadores que conseguiram fazer isso. Estive duas vezes em cima da mesa da FPF como opção para ser selecionador. Não fui, mas fui uma opção. E ainda bem que foi o Fernando Santos e que fique lá por muitos anos.

Porque é que nunca nenhum empresário português se interessou em gerir a sua carreira?

Porque fui mais burro do que eles (risos). Vivi sempre do meu trabalho e durante algum tempo pensei que não precisava de ninguém. E tive sempre uma visão diferente do que é a relação entre um empresário e um treinador. Aos empresários disse sempre, que só dava aval aos jogadores que sirvam ao meu projeto de trabalho e às condições do meu clube. Eu não dou aval a um jogador por causa do empresário A ou do empresário B. As pessoas achavam ou acham que se me arranjarem trabalho eu depois tenho que colocar os jogadores deles. Veja agora o meu filho. É agente, mas se não tiver jogadores que me sirvam não tem hipótese. Mas também digo que se ele tiver bons jogadores, que me sirvam, entre ele e outro empresário dou-lhe preferência a ele, porque é meu filho. Não tenho problemas em dizer. Agora meter um dele para prejudicar o meu trabalho, não.

D.R. Tribuna Cajuda com os dois fllhos, a mulher e netos 1

É sócio de algum clube?

Fui sócio do Olhanense e do V. Guimarães. O Vitória perdeu cinco sócios pela maneira como me tratou porque toda a família era sócia. Se calhar um dia ainda vou ser sócio do Braga para agradecer a forma como me trataram durante tantos anos.

Tem quantos netos?

Tenho três netos do Hugo. Uma neta com 20 anos, um com 16 e outro com 10 anos. A minha preocupação agora são eles, são a coisa mais sagrada para mim. São o nosso 'ai Jesus'.

É verdade que no Farense roubou um autocarro para ir à discoteca?

É verdade, já era ajudante de treinador. Eu, a minha mulher mais três ou quatro jogadores e o treinador, o Mladenov, depois de um jogo quisemos ir beber um copo, não tinhamos carro na altura... E aquela irreverência, como é que vamos, como é que não vamos... Consegui pifar a chave ao motorista e fomos de Faro a Vilamoura para ir a uma discoteca. Está a ver o que é conduzir um autocarro daqueles, sem direção assistida? Fomos e viemos, não fizemos mal a ninguém e pronto.

D.R. Tribuna Na China, Cajuda aprendeu a gostar de Hot-Pot, comida tradicional picante 1

E ouvi outra história sobre um filme que mostrou aos jogadores...

Como é que sabe isso?! Eu disse que tínhamos de ganhar aquele jogo porque o futebol era para homens de barba rija e eles ganharam. No regresso, no autocarro, disse-lhes: 'Fechem as cortinas que eu vou mostrar-vos um filme para homens' (risos). Era um filme para homens que metia mulheres.

É também verdade que um dia chegou ao balneário e baixou as calças?

(risos) É verdade, não vou mentir. Baixei as calças, virei-me e disse-lhes: 'Se me querem ir ao… pronto, aproveitem agora que é de borla'. Estava lixado, estava a sentir que as coisas não estavam a andar.

Qual foi o problema disciplinar mais complicado que teve?

Num determinado estágio um jogador meteu uma rapariga no seu quarto. Eu vim a saber. Chamei-o e disse-lhe vais ser multado em 50% do ordenado. Ele disse que não pagava, que ia fazer queixa ao Sindicato. Eu disse-lhe que a multa eram 50% do ordenado, porque não fui eu que infringi os regulamentos, foi ele. E ele insistiu: 'Não pago'. Não pagas? Então está bem, pede à tua mulher para vir falar comigo amanhã. 'Ó mister, eu pago tudo' (risos).


Veja também: 3 toneladas de ouro e metais preciosos caíram do céu

A SEGUIR
A SEGUIR

O melhor do MSN em qualquer dispositivo


AdChoices
AdChoices

Mais do Tribuna

image beaconimage beaconimage beacon