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Terá sido a última parada de Casillas?

Logótipo de Tribuna Tribuna 08/03/2018 Diogo Pombo, Carlos Esteves

Imberbe, lá estava ele, descontraído na aula de desenho em que o professor, relaxado que era, deixava os miúdos falarem à vontade. Era uma “aula amena”, já o disse, entretanto. Sempre fora assim até ao dia em que a porta da sala se abriu, de rompante, para uma voz gritar: “Iker!”. Tal repentismo na exclamação de um nome ali, a meio de uma aula, num colégio, fê-lo pensar que estava tramado, tinha feito alguma, o diretor quereria dar-lhe nas orelhas.

Ou, então, talvez fosse alguém do Real Madrid, urgido pela urgência, a chamar um rapaz de 16 anos e fazê-lo apressar-se para ir a casa, empacotar roupa e seguir para o aeroporto de Madrid. Havia um jogo da Liga dos Campeões na Noruega e a equipa principal precisava de um guarda-redes.

Lá foi ele, para espanto dos colegas, desinformados sobre o que se passava numa altura “em que não havia telemóveis”, como contou. Iker Casillas foi para Trondheim, terra do Rosenborg, sentar-se no banco, cobrir-se com gorro e mantas e salvaguardar qualquer azar numa equipa que não tinha Bodo Illgner, o titular, e estava com Santiago Cañizares lesionado. Era a época de 1997/98, ele não jogou, mas a sua história com a Liga dos Campeões começou aí.

Tribuna: Terá sido a última parada de Casillas? © Graham Chadwick /Allsport Terá sido a última parada de Casillas?

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Uma relação em que Iker Casillas, a navegar numa conjugação entre as qualidades que tem, os clubes em que jogou e a constância com que existiu na baliza, se tornou na lenda que é hoje.

O espanhol tem 36 anos e 167 partidas contadas na Liga dos Campeões, a prova que mais interessa no continente deste lado do Atlântico, desde que se estreou uns tempos depois de o resgatarem da sala de aula. Foi em 1999, ainda com o Real Madrid, clube espanhol que vive, existe e é papão desta taça: ganhou-a já por 12 vezes e em três delas (2000, 2002 e 2014) teve Casillas a defender as redes.

De imberbe e inexperiente passou a maduro e defensor de bolas decisivas entre os postes. Com os anos, foi sendo reconhecido como o muro reativo e bloqueador de bolas rematadas, sobretudo, em situações de um para um ou em que o avançado parece ter a baliza à mercê, escancarada. Jogadas em que parecia não haver guarda-redes à distância e aparecia Iker Casillas a parar bolas impossíveis, o tipo de jogadas que lhe foram dando fama na Champions e em outras provas.

Até quando a convivência conflituosa com José Mourinho, entre 2011 e 2013, lhe forçaram o minguar de uma carreira, sentando-o no banco, a Liga dos Campeões nunca deixou de ser a casa de Casillas. O espanhol não vestia as luvas no campeonato, mas suava-as na competição-mor para o Real Madrid, forma de viver que se manteve com Carlo Ancelotti mesmo que a sua reputação, a partir do governo de Mourinho, o passasse a retratar como um guardião mais falível, mais errático. Menos confiável.

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Mas ele prosseguiu para uma aventura no FC Porto que o fez experimentar a Liga Europa, pela primeira vez. Acrescentou um par de jogos ao pecúlio na Europa que, hoje, o tem com 178 partidas feitas nas provas da UEFA. É o futebolista com mais jogos europeus da história. E está no ativo.

Na competição que mais lhe interessa, e a toda a gente, Casillas é o tipo que mais jogos venceu e quem, jogando à baliza, mais vezes acabou sem deixar entrar lá uma bola.

São recordes de um guarda-redes que, mais ou menos criticável, elogiável, adorável ou odiável, é uma lenda. Ainda mais lendário é em Portugal, onde nunca houve futebolista com um currículo sequer semelhante ao de Iker Casillas, jogasse ele no FC Porto, Benfica, Sporting ou em qualquer outro clube. O espanhol tem 22 títulos na carreira que poderão ser 23 ou 24 no final desta época, dependendo do que os dragões ainda façam.

Daí em diante, tudo dependerá de Casillas. Há rumores de que os milhões que aufere anualmente são incomportáveis para um FC Porto em contenção de custos e, por isso, à espera que o contrato termine para se despedir do espanhol. A não ser que o espanhol, aos 36 anos, se acomode nas pretensões salariais, consinta uma redução e permaneça no Dragão. Ou que, mesmo saindo e querendo prolongar a carreira, escolha e haja interessados para que vá para outro clube europeu, com hábitos de Champions ou de Liga Europa.

Porque, caso contrário, o nulo em Liverpool de terça-feira e aquela parada em voo, para trás, espetacular para desviar uma bola cabeceada por um avançado que o viu uns passos além da linha de baliza, terão sido as últimas coisas que Iker Casillas terá feito nas competições da UEFA.

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