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Um clássico é um clássico, e este ainda pode animar isto

Logótipo de Tribuna Tribuna 12/01/2019 LUÍS MATEUS

Sábado depois de almoço. À moda antiga. O Sporting recebe um FC Porto que embala para o bicampeonato, com candidatura reforçada depois do 1-1 do Sporting de Braga em Portimão. Se vencer, “elimina” o rival direto, a vantagem aumenta, pelo menos, para sete pontos, e na segunda volta recebe Benfica e leões. Só o “Keizerball” parece poder conseguir mudar o rumo da Liga, mas será que tem ainda força para uma última dança?

Tribuna © NurPhoto Tribuna

No FC Porto, cada vez mais favorito, mantém-se a vertigem. A força, personificada na perfeição por Danilo e Marega, a luta por todas as bolas, primeiras e segundas, o foco mental, e o jogo vertical.

Sérgio Conceição atacou, com a perícia de um cirurgião, os problemas que apareceram. A lesão prolongada de Aboubakar não se fez sentir. A defesa estabilizou com Militão, a falta de criatividade foi repescada com Óliver. Primeiro, arriscou o 4x4x2 de sempre, depois sentiu necessidade do terceiro médio e capitão Hector Herrera, mesmo em final de contrato. Há algumas semanas, com a equipa a carburar, o espanhol foi novamente sacrificado em nome do equilíbrio.

Corona ganhou polivalência enquanto lateral, e abriu espaço para Otávio na direita. Conceição não quis esperar, atacou quando sentiu a equipa a vacilar e resistiu. Sempre que parecia encostado às cordas havia mais um remate, e as vitórias continuaram a surgir.

O FC Porto já perdeu esta temporada e as derrotas não foram assim tão acidentais. A primeira, frente ao Vitória de Guimarães no Dragão, depois de ter estado a vencer por 2-0, trazia sinais de intranquilidade. Na Luz, perante o maior rival, e num jogo sem muito sumo, o Benfica espremeu a vitória numa segunda bola, que alimentou a transição veloz, concluída por Seferovic. O que se passava?

O único sem dúvidas era o treinador. Garantiu que seria o último desaire, e o percurso dá-lhe razão.

ASCENSÃO E QUEDA DO “KEIZERBALL”

Triângulo invertido, o 8 Gudelj a fazer de 6 e uma primeira fase da construção garantida, depois de receber dos centrais ou no meio destes. Um Wendel que não contava, promessa vinda do outro lado do Atlântico, utilizado para pressionar bem alto, como se não houvesse amanhã. Extremos velozes e artistas da bola, e um goleador em Dost para fechar processos, por ar ou pelo chão.

Os primeiros resultados do Sporting de Keizer foram muito bons, mas os adversários não demoraram a perceber onde estava a falência do modelo © FOTO MIGUEL A. LOPES / LUSA Os primeiros resultados do Sporting de Keizer foram muito bons, mas os adversários não demoraram a perceber onde estava a falência do modelo

No coração, bem no miolo, o xerife Bruno Fernandes a atar todas as pontas soltas. O maior. A concorrer para o título de jogador da Liga 2018-19.

“Keizerball”, chamaram-lhe! Pós-invasão, pós-sangria dos melhores, pós-processo ofensivo pouco entusiasmante teorizado por Peseiro e, pós de perlimpimpim, o Sporting renascia por força de uma ideia prá-frentex, assente nos velhos ideais do futebol total. Construção apoiada, posicional, a um ou dois toques, sempre a desbravar caminhos até à baliza. Aceleração e velocidade no último terço.

Trinta golos em sete jogos rasgaram sorrisos nas bancadas, e alguns sustos atrás não os fizeram esmorecer. Só que os adversários não demoraram a perceber onde estava a falência do modelo keizeriano. Bloquearam o corredor interior, obrigaram a jogar direto e o leão perdeu-se. O primeiro choque surgiu em Guimarães, o segundo em Tondela, precisamente antes do clássico.

OS ENCAIXES DO CLÁSSICO

Os dragões, em série triunfal de 18 vitórias, são favoritos num jogo que não costuma tê-los. Até no encaixe entre pontos fortes e fracos de ambos os conjuntos, os azuis e brancos parecem tirar da equação mais garantias de sucesso.

Brahimi está a fazer uma primeira volta de enorme qualidade © FOTO JOSÉ COELHO / LUSA Brahimi está a fazer uma primeira volta de enorme qualidade

As dificuldades dos leões perante equipas de transição, a permeabilidade da defesa a futebolistas mais técnicos, a lentidão, maior em Mathieu, dos centrais num bloco que costuma andar bem perto da linha de meio-campo, e ainda o filão entre o francês e o lateral-esquerdo a poder ser explorado por Marega ou Corona reforçam o favoritismo do líder, que pode deixar aqui um dos candidatos a 11 pontos.

No entanto, os clássicos ensinam-nos há muito que a superação anula diferenças visíveis a olho nu, e quem tem o talento de Bruno Fernandes, a excelência da finalização de Dost e a explosão de Raphinha e Nani sabe que conseguirá criar problemas ao rival. Com acertos coletivos feitos pelos treinadores, os pratos da balança podem também equilibrar-se.

Pressionado ainda pela necessidade de vencer, Keizer tem uma montanha pela frente, ainda mais se olharmos para a falta de profundidade do grupo – em Tondela fez entrar um central (André Pinto) para poder atacar com outro (Coates) porque não tinha mais avançados. Levará para a frente a sua ideia, e conseguirá preparar uma última dança? Veremos.

MAIOR PESO DAS BOLAS PARADAS EM ALVALADE

O primeiro classificado visita o quarto, e como tal é natural que apresente números mais impressionantes, recolhidos pela WhoScored. No Dragão, mora o segundo melhor ataque (34 golos, menos um do que o Benfica), enquanto o Sporting apresenta 33.

A equipa de Alvalade distribui os golos da seguinte forma: bola corrida, 21 (64%), bolas paradas sem penáltis, quatro (12%), penáltis, oito (24%) e contra-ataques (0). 36% é o valor correspondentes às bolas paradas com as grandes penalidades incluídas.

Já os portistas apresentam 22 (71%) de bola corrida, dos quais dois resultaram de transições ofensivas (6%). nove golos (26%) surgiram na sequência de cantos, livres diretos e indiretos, e um de penálti (3%). Somadas as parcelas, as bolas paradas têm um peso de 29%.

Também veste de azul e branco o segundo conjunto, novamente atrás do Benfica (57,9%), com maior percentagem média de posse de bola (56,4%). Os homens de Keizer têm 54,3%.

MAIOR PRESENÇA NA ÁREA POR PARTE DO FC PORTO

Se os dois candidatos rematam mais ou menos o mesmo número de vezes (16,8 vs 17 por partida), e o Sporting até acerta mais na baliza do que o FC Porto (6 vs. 5,6), são os leões os que atiram mais, em toda a Liga, de fora da área (7,4 vs. 4,9), fruto do efeito Bruno Fernandes (3,5 remates por encontro; vs Marega, 3,4 e Soares, 3,1). Os visitantes têm mais finalizações na pequena área (1,8 vs. 1,3) e também não há discussão nos dribles. Brahimi e companhia recorrem à jogada individual 9,8 vezes contra seis por parte dos adversários deste sábado.

A POSSE EM AMBAS AS IDEIAS

Se o FC Porto é mais vertical, objetivo e até explosivo, e o Sporting procura a construção apoiada, os números nivelam as duas equipas no que aos passes diz respeito, e até com ligeira vantagem para os dragões. No campeonato, é preciso dominar e esse domínio é estabelecido com posse. O Benfica faz 504 passes em média, dos quais 446 são curtos, e 22 cruzamentos. Logo atrás, em segundo deste “ranking”, está o FC Porto, com 433 no total, 376 curtos e 21 cruzamentos, e Sporting aparece na quarta posição, com 423 (atrás do Rio Ave), 366 (igual aos vilacondenses) e os mesmos 21 cruzamentos.

Se os encarnados até estão mais ou menos a meio da tabela dos passes longos com 65, o Sporting é a equipa que menos utilizou esse recurso até aqui com 61, seguido do FC Porto com 62.

A equipa da casa ataca preferencialmente pela esquerda (38%), o que se justifica pela presença de Acuña e de um Nani centenário (100 jogos pelos leões), contra 36% pela direita e 26% pelo meio. Já nos visitantes, destaca-se, com 41%, a direita com Corona. Na esquerda, Telles compensa as deambulações de Brahimi por terrenos interiores, mas apenas chegam aos 31%.

BRUNO FERNANDES POR TODO O LADO

Dost, o goleador do Sporting na Liga com 10 golos, está de volta. Onze jogadores já faturaram, com destaque ainda para Bruno Fernandes e Nani, ambos com seis. O número 8 vai à frente nas assistências, com cinco. É também o jogador que faz mais passes de decisivos (3,5 em média) e aquele que, depois dos guarda-redes e de Mathieu (4,2), mais vezes tenta o passe longo (quatro por partida).

Com seis golos e cinco assistências, Bruno Fernandes é o MVP dos leões © FOTO MÁRIO CRUZ / EPA Com seis golos e cinco assistências, Bruno Fernandes é o MVP dos leões

Nani é muitas vezes seduzido pelo drible (1,4) e Wendel aquele que sofre mais faltas (2,3), à frente de… Bruno Fernandes (2,1). Em minutos jogados, ninguém bate Seba Coates (1350), embora o internacional português venha na perseguição (1339).

MAIOR DISTRIBUIÇÃO NO DRAGÃO

Quinze jogadores já marcaram pelo FC Porto na Liga, com destaque para os sete remates certeiros de Marega, os seis de Brahimi – a fazer primeira volta de enorme qualidade – e os cinco de Soares.

Nas assistências, uma novidade: Otávio, que fica de fora por lesão, já assinou quatro e leva vantagem sobre o “especialista” Alex Telles, e ainda Corona e Marega, todos com três. O lateral domina, no entanto, nos passes decisivos (3,2) e nos cruzamentos (3,8). Casillas está à frente nos minutos (1440), Marega nos remates (3,4), Brahimi nos dribles (2,8) e André Pereira nas faltas sofridas (2,5).

A MELHOR DEFESA RESIDE NO DRAGÃO

A entrada de Pepe no FC Porto reforça a ideia da solidez defensiva: há um Casillas em grande nível – curiosamente, só ainda não conseguiu vencer em Alvalade – e um bloco de betão nuclear formado por Militão e Filipe. Os números sustentam a ideia: é a melhor defesa do campeonato, com dez golos sofridos.

O Sporting já leva 18, e só num dos últimos 11 encontros acabou com a folha de serviço limpa (Vorskla).

Os dragões são a equipa que menos remates consente (8,1 vs. 10,9 dos rivais), embora faça menos desarmes por encontro (16,1 vs. 17,8 dos leões; e 19,8 do Sporting de Braga). É o conjunto que mais interceções consegue (14,9 vs. 13,1) e também aquele que comete menos faltas (15,9 vs. 16,4).

NÚMEROS DE RISTOVSKI E MIGUEL LUÍS SOBRESSAEM

Keizer tem preferido Bruno Gaspar a Ristovski, e Miguel Luís perdeu espaço com Wendel apto, mas as estatísticas contrariam um pouco as decisões do treinador.

O macedónio é aquele que faz mais interceções (2,7), o segundo com mais desarmes (2,3), atrás de Miguel Luís (2,4), e o terceiro que mais bolas alivia (1,9), a seguir a Coates (4,9) e Mathieu (3,3). Gaspar foi muito castigado em Tondela, haverá espaço para a volta de Ristovski?

No lado portista, não há surpresas. Felipe lidera nos alívios (4,5) e nas interceções (3,1) sempre com Militão por perto. Já Herrera é rei dos desarmes (2,2), à frente de Maxi (dois) e Sérgio Oliveira (dois).

A VITÓRIA QUE TUDO EMPATA

Se no total há uma vitória apenas a dar vantagem ao FC Porto (82-65-83), em Alvalade a margem ainda é confortável para os leões: em 84 jogos, venceu 45, empatou 20 e perdeu 19.

A última vitória do FC Porto em Alvalade aconteceu em 2008, um ciclo que Sérgio Conceição quer interromper © FOTO OCTÁVIO PASSOS / LUSA A última vitória do FC Porto em Alvalade aconteceu em 2008, um ciclo que Sérgio Conceição quer interromper

O FC Porto não ganha para o campeonato na casa do rival desde 2008. Golos de Lisandro e Bruno Alves contrariaram um penálti assinado por Moutinho e valeram o 1-2 final. Desde então, registaram-se quatro triunfos do Sporting e cinco empates.

Os dados lançados parecem favoráveis ao campeão. Só que é aqui que entra La Palice e a história de não haver vencedores antecipados.

É o clássico, e que seja uma bela dança!

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