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"A PIDE no Xadrez Africano" ou as ações e subversões de um agente para manter império português

Logótipo de O Jogo O Jogo 24/10/2017 Administrator

Durante o período da guerra que Portugal travou nas antigas colónias em África (1961/1974), a polícia política portuguesa desempenhou um conjunto de ações e subversões para manter o Império, movimentações que se estenderam a outros Estados africanos.

Muito do contexto dessas duas vertentes está contido no livro "A PIDE no Xadrez Africano", da historiadora espanhola María José Tíscar, cuja nova obra, a apresentar hoje em Lisboa, conta, numa entrevista ao antigo inspetor da polícia política portuguesa António Fragoso Allas, como os "tentáculos" das ações desestabilizadoras lusas se estenderam também ao Congo, Namíbia, Zaire (atual RDCongo) e Zâmbia.

Em declarações à agência Lusa, María José Tíscar contou que, ao investigar os arquivos espanhóis sobre as relações diplomáticas entre Portugal e Espanha durante as diversas guerras do século XX, descobriu "com surpresa" que foram "muito mais extensas e profundas" do que se pensava, sobretudo por ocorrerem nos regimes de Salazar e Franco.

"Chamou-me particularmente a atenção o facto de agentes do Estado terem sido colocados em diferentes embaixadas de Espanha em África, com a correspondente acreditação diplomática e que o Alto Estado-Maior espanhol tivesse realizado operações de compra de armamento para Portugal, em violação do embargo internacional, conhecendo bem que a precária posição de Espanha no contexto internacional não lhe permitia tal ousadia", explicou.

"Contudo, foi ainda mais surpreendente para mim, quando, nos arquivos diplomáticos, e mais tarde nos policiais, descobri que, entre esses agentes, havia uma pessoa de especial relevância que, a partir do seu posto clandestino e sob a proteção da legação espanhola em Kinshasa, tinha estabelecido redes de informação, não somente neste país, mas também nos países vizinhos, tendo ainda colaborado com outros serviços estrangeiros na organização de operações secretas, sempre que coincidiam os interesses dos diferentes governos", prosseguiu.

A "pessoa de especial relevância" é Fragoso Allas, que passou sucessivamente por Angola, os então Zaire e Congo Belga, Zâmbia, Namíbia, Moçambique e Guiné, onde, nalguns casos, "cozinhou" ações de desestabilização para beneficiar o domínio português nas antigas colónias e contra os movimentos independentistas de então.

À Lusa, María José Tíscar não põe em causa, pelo contrário, a credibilidade de Fragoso Allas, sobretudo porque, ao apresentar-lhe apoios documentais espanhóis e portugueses, o agente da PIDE reconheceu-os e, confrontadas que foram as fontes orais e escritas, "ficou mais um pouco da História" da guerra nas antigas colónias.

A autora lembra que, no panorama da historiografia sobre as informações nas então colónias de Portugal, há uma figura que se destaca, Aníbal São José Lopes, antigo diretor do Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), e, mais tarde, diretor adjunto da PIDE/DGS, primeiro em Angola e, depois, em conjunto, com Moçambique.

"A partir de Luanda, São José Lopes desenvolveu uma amplíssima atividade em toda a África Central e Austral durante praticamente toda a guerra colonial. (Na altura) ganhou uma relevância especial o inspetor-adjunto António Fragoso Allas, o qual, além do trabalho no interior de Angola - esteve na origem da criação do «Corpo Auxiliar», que mais tarde se transformaria nos «Flechas» -, atuou no campo de operações militares nas áreas da fronteira com o Zaire, Congo Brazzaville, Zâmbia e Namíbia (esta, então, administrada pela África do Sul), áreas nas quais existiam estreitas relações dos serviços portugueses com os seus congéneres sul-africanos e rodesianos", acentuou.

No decorrer da comissão de serviço em Angola, e durante algum tempo, Allas esteve acreditado como conselheiro da Embaixada de Espanha em Kinshasa, na missão portuguesa encoberta ali criada por proposta do próprio presidente Mobutu, situação "diplomaticamente pouco ortodoxa", decidida na embaixada do Zaire em Bruxelas.

Segundo María José Tíscar, já instalado na capital do antigo Congo Belga, Brazzaville, Allas organizou redes de informadores e apoiou operações de desestabilização nos países vizinhos do Zaire.

Já na então província portuguesa da Guiné (atual Guiné-Bissau), Alas "teve um relevo especial" quer no campo político, quer no militar, no período em que ocupou o cargo de Chefe da Delegação da DGS em Bissau, atividade essa desenvolvida em estreita colaboração com o general António de Spínola, a quem acompanhou pessoalmente, no encontro, por si organizado, entre aquele e o presidente do Senegal, Léopold Senghor, na procura de uma solução para a guerra em Cap Skirring, em 1973.

"Também em 1973, (Allas) manteve contactos com os serviços de inteligência britânicos, interessados que estavam estes na colaboração com Portugal, na sequência da viagem ao Reino Unido do Presidente do Conselho Marcello Caetano", lembrou María José Tíscar, licenciada em Filosofia e Letras pela Universidade de Santiago de Compostela.

A autora é também doutorada em História pela UNED - com uma tese sobre o apoio da Espanha franquista a Portugal durante a Guerra Colonial (livro publicado em Portugal) -, professora de Geografia e História, profissão que exerce em diferentes liceus em Espanha, Alemanha, França e no Instituto Espanhol de Lisboa.

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