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Augusto Inácio em exclusivo: "Os clubes pequenos não têm tomates"

Logótipo de O Jogo O Jogo 28/08/2017 Hugo Monteiro

Treinador português não vê forma de acabar com o desequilíbrio na Liga, mas condena a falta de coragem da maioria dos dirigentes que não se esforçam para se libertarem das garras de águias, leões e dragões.

Em janeiro, Augusto Inácio tornou-se no último treinador a vencer uma prova nacional sem ser nos três grandes (na Taça da Liga, eliminou FC Porto e Benfica e ganhou a final ao Braga). Ao comando do Moreirense, mostrou que é possível bater o pé aos poderosos ao serviço dos pequenos, pelo que contesta as recentes queixas do... atual técnico dos cónegos.

© Álvaro Isidoro/Global Imagens

Concorda com as palavras de Manuel Machado, que falou em "campeonato dos três grandes", sendo o resto "carne para canhão"?

-Nesta época, o primeiro a falar da diferença de orçamentos até foi o Abel, quando o Braga visitou o Benfica. Depois, sim, foi o Manuel Machado. Desde que ando no futebol sempre foi assim. Obviamente o que se vai exigir a um Moreirense é que fique na Liga, não que seja campeão. Não concordo com a expressão porque já treinei pequenos. O Moreirense ganhar a Taça da Liga é uma exceção, mas pode acontecer. Acho que essas palavras são mais no contexto de alguma frustração por querer ter mais jogadores, mais qualidade... O campeonato português está bom, mais competitivo, mas cada um com os seus objetivos. Na Taça da Liga ganhámos ao FC Porto e ao Benfica porque eles facilitaram, deixaram andar. Porque ganhamos um jogo em dez, certamente. É possível moer o juízo aos grandes e às vezes há surpresas.

Que medidas se poderia tomar para dar equilíbrio?

-Para o campeonato ser mais competitivo não há dúvida que o melhor era a centralização dos direitos televisivos. E acho que se podia limitar o número de inscrições por clube: em vez de Benfica, Sporting e FC Porto estarem a emprestar vinte jogadores a clubes da Liga, sobrariam muitos jogadores para alimentar as equipas pequenas. Há muitos emprestados por interesse de quem empresta e não de quem os recebe. Essas equipas teriam mais qualidade e com jogadores seus.

Essa política dos grandes de excesso de jogadores nos quadros e muitos empréstimos a clubes da Liga gera subserviência e dependência?

-Claro. É uma bola de neve. É um jogo de interesses que depois tem impacto nos votos e decisões em sede da Liga, por exemplo - se votam contra não recebem emprestados... Seja que clube for, o vício é tanto que quando se empresta é a clubes "amigos".

E por que os pequenos não se libertam dessa teia e começam a valorizar ativos próprios?

-Aos pequenos falta-lhes tomates. Basta ver a polémica do cigarro eletrónico: o Benfica propôs o tema a votação, contra Bruno de Carvalho, e os pequenos não votaram. Ninguém tem voz para dizer se concorda ou não? Se isto não é subserviência e medo, o que é? Por isso digo que faltam tomates ao dirigismo dos pequenos. Têm medo, comem a sua sopinha e por isso as coisas andam como andam. Os pequenos seguem a voz dos grandes, ninguém sabe o que eles sentem genuinamente, têm medo de represálias.

Torna-se repetitivo usarem sempre o mesmo argumento? Há intenção de desculpabilização?

-Quando se assina por qualquer clube, já se sabe a realidade. O Abel falou da diferença do orçamento entre Braga e Benfica, mas acontece o mesmo entre o Braga e o Portimonense e custou-lhe ganhar! O futebol é bonito porque a surpresa pode estar ao virar da esquina. E o futebol mudou, quem tem dinheiro realmente tem os melhores jogadores, mas isso não significa que tenha a melhor equipa.

Com boa gestão, os pequenos podem dar um salto e equilibrar, apesar do histórico e dos orçamentos díspares?

-O orçamento não ganha os jogos, são os jogadores. Não acredito em nenhum projeto no futebol português. Porque quando se faz um projeto para três anos, ao fim de duas ou três derrotas o projeto já foi e o treinador vai para a rua. Claro que tem a ver com o dirigismo. O Braga tem uma visão fantástica, mas não consegue chegar ao título. Sem vender e ainda a reforçar-se, podia ter equipa para lutar pelo título. Mas tem de vender e assim não vai chegar ao topo. Para a sua dimensão, é um exemplo. Consegue chatear os grandes, fazer gracinhas, mas não consegue aguentar jogadores. Até o Benfica teve de vender. E orçamentos maiores dá em despesas maiores. Temos de vender. Chega cá um West Ham qualquer e leva o William Carvalho. E ele não merece melhor? Se até os grandes têm de vender, imagine os pequenos. É um ciclo vicioso. Nós, treinadores, vamos vivendo com o resultado de cada domingo para ver se conseguimos manter o emprego.

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