Ao utilizar este serviço e o conteúdo relacionado, concorda com a utilização de cookies para análise, anúncios e conteúdos personalizados.
Está a utilizar uma versão de browser mais antiga. Utilize uma versão suportada para obter a melhor experiência possível com o MSN.

Boleias salvaram a carreira de Pavón

Logótipo de O Jogo O Jogo 23/06/2017 Rui Trombinhas

Esteve para abandonar o futebol porque a família não tinha dinheiro para pagar as viagens. Mas a vontade de Pavón era tanta que nunca desistiu e agora virou ídolo do campeão argentino. O JOGO apresenta-lhe o perfil do extremo que brilha no Boca Juniors e faz parte dos planos do FC Porto

"Olha, Cristian, agora estou sem trabalho, só tenho o ordenado da mãe e começa a ser difícil pagar a tua viagem e a do Rodrigo para ir treinar a Córdoba. Um dos dois tem de deixar de ir e o Rodrigo já está mais próximo da I Divisão." Com uma profunda dor na alma, Walter Pavón dizia ao menor dos seus três filhos varões, que não podia continuar a jogar futebol no Talleres. Sabia que Kichán, nome que tinha ficado deformado pela pronuncia de Cristian, amava a bola mais do que qualquer outra coisa no mundo, a situação económica complicava o dia a dia da família. Mas surgiu uma solução: a família Bogado ofereceu-se para fazer um desvio no caminho Alta Garcia-Córdoba e passar por Anisacate para ir buscar aquele que é hoje dianteiro do Boca, que o FC Porto pretende. Foi assim que o sonho de Pavón seguiu em frente e em muito pouco tempo se tornou realidade.

citacaoNo início da carreira, o extremo tinha de fazer 47 quilómetros todos os dias para ir treinar.

© REUTERS

Contam os familiares que em pequeno Cristian nem sequer calçava as sapatilhas para cruzar no campo de terra batida, que fica mesmo em frente à casa dos Pavón, em Anisacate, uma aldeia de três mil habitantes, a 47 quilómetros de Córdoba. "Levantava-se e ia jogar à bola, passava horas ali", recorda Rodrigo, seu irmão, atualmente sem clube, depois de representar vários anos o Racing de Córdoba.

A paixão era tão grande que, depois de começar a ir para a escola de futebol que havia no bairro, levaram-no ao Talleres, o maior clube da província. "Estava no primeiro ano da secundária e disse-me, "mamã, quero dedicar-me ao futebol." A ideia não me convencia muito, mas acabei por aceitar e, por sorte, correu bem", recorda Verónica, mãe do avançado, que hoje desfruta do momento que o filho atravessa. No Talleres, Cristian cresceu a passos largos. Começou com os profissionais com 17 anos apenas, em dezembro de 2013, e foi ao Mundial sub-17, nos Emirados Árabes. O Boca não tardou a aparecer para aproveitar as dificuldades financeiras do Talleres, pagando 14 milhões de pesos (1,5 milhões de euros) para ficar com o passe de Pavón, ajudando assim o clube de Córdoba a sair da sua delicada situação financeira. Mas o jogador não se mudou para Buenos Aires, acabando emprestado ao Colón de Santa Fé, em julho de 2014, para ganhar experiência. Foram seis meses durante os quais Pavón teve um papel importante na subida à I Divisão.

A partir daquele momento, com apenas 19 anos, Cristian transformou-se num elemento importante para o Boca, surgindo como alternativa a Tévez e Daniel Osvaldo, avançado que mais tarde jogou no FC Porto. Pavón, O Gordo, alcunha que lhe puseram por gostar tanto de chocolate, cresceu a vê-los jogar e admirando Messi. Ainda tinha muito que melhorar, como todo o jogador promissor que começa a dar os primeiros passos. Os adeptos exigiam dele como se já fosse um jogador experiente. Mas o tempo serviu para que amadurecesse e a chegada de Guillermo Barros Schelotto, para treinar a equipa, consolidou-o como titular. "Eu não precisava dos golos do Pavón, mas ele sim. Tem nível de seleção e nível europeu. Dá sempre muito à equipa, até quando não joga bem, tem velocidade e um remate em arco muito bom. Considero-o um jogador notável e sei que tem um potencial enorme", elogiou o seu atual treinador.

Aos 21 anos, Pavón já alcançou várias metas. Algumas destacou-as com tatuagens como as que tem com os nomes de Walter e Verónica (seus pais) e Lurdes (a irmã mais nova), ou as que lhe deram o futebol, como as duas subidas de divisão (uma com o Talleres, outra com o Colón) e os dois títulos conquistados pelo Boca (campeonato e Taça da Argentina 2015), preparando-se agora para dar a sua terceira volta olímpica pelos xeneizes, depois da conquista de mais uma Liga. Também guarda como se fossem troféus as fotos com Ginóbili, Scola e Nadal, que sacou no refeitório da aldeia olímpica, durante os jogos do Rio, em 2016. "Gosto de começar uma jogada lançado e atacar a baliza. Essa é a minha maneira de jogar. Pela esquerda sinto-me mais à-vontade. A minha maior virtude é encarar a baliza e fazer golo. O meu ponto mais fraco poderá ser a recuperação", descreve-se o próprio Cristian, o mesmo que sonha com a volta olímpica que está quase a acontecer, para abraçar o seu amigo Jony Silva, que já lhe contou todos os segredos do futebol português. Será esse o próximo passo da carreira? Entretanto, para continuar a surpreender com golos de meia distância, o avançado fica no final dos treinos a trabalhar o remate de fora da área. No fundo, faz aquilo que costumava fazer quando jogava no campo de terra batida em frente a casa e passava horas com a bola.

AdChoices
AdChoices

Mais de O Jogo

image beaconimage beaconimage beacon