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Campo Alegre estreia "Medeia", uma figura "amputada" devido à dor

Logótipo de O Jogo O Jogo 03/10/2017 Administrator

O Teatro do Campo Alegre, no Porto, vai receber na quarta-feira a estreia portuguesa de "Medeia", de Jean Anouilh, encenada por Renata Portas, que disse tratar-se de uma personagem "amputada", mas que se refaz, "por causa da dor".

"Medeia começa amputada, no início não está inteira, não está refeita, não é a Medeia poderosa que nós temos no Eurípides, é uma Medeia amputada, castrada, mas ela vai se refazendo [ao longo da peça], por causa da dor", explicou a encenadora, referindo-se à versão do dramaturgo francês, escrita no termo da II Guerra Mundial.

Em declarações à agência Lusa após o ensaio de imprensa, Renata Portas explicou que, apesar de a personagem ser normalmente associada à tragédia grega, aqui há uma disrupção com Eurípides, e Medeia "começa numa 'roulotte'", considerando que a peça abre com a "deslocação social mais profunda" que podia dar.

"Medeia - esta filha originalmente do Rei Sol, aristocrata, feiticeira - encontra-se agora desolada e praticamente na vertigem do abandono de Jasão e está sem terra, sem companhia", disse Renata Portas.

Segundo a encenadora da companhia Público Reservado, Medeia "é um bocadinho a estrela em redor da qual todas [as personagens] gravitam", incluindo os músicos, provocando, através das suas ações, sentimentos distintos.

"Por um lado, [Medeia provoca] esta vertigem amorosa, esta espécie de buraco negro amoroso, no qual uma pessoa pode gostar tanto que perde o pé e perde o norte e todo o resto dos sentidos, (...) até desparecer e fazer desaparecer tudo à sua volta", disse.

Em sentido oposto, cresce, "também por causa disso, uma vontade de renovação da parte de outras personagens - da ama, de Creonte, do guarda, há uma vontade de recusar esta insanidade amorosa, em nome de outros amores: do amor da cidade, do amor do país, do amor do coletivo, em vez do amor do quarto, da sala-de-estar".

Medeia revisita, nesta peça, a figura feminina de uma forma "extremada" e, não sendo uma "figura fácil do ponto de vista feminino", que "é insultada e faz coisas obscenas o tempo todo", "a sua força reside na vontade e na decisão de poder fazer todos os gestos obscenos", explicou Renata Portas.

"'Medeia' é um ato de coragem e abandono -- uma coragem que se inflama na destruição de si e dos outros, e no abandono de tudo (inclusive do corpo, último vaso). Sem amor vale a pena viver?", pode ler-se na sinopse da página oficial do Teatro Municipal do Porto.

Renata Portas explicou ainda que, na peça, "há uma vontade de pensar o mundo como um lugar de ruído" e, por isso, "mais de metade do espetáculo é profundamente silencioso".

A peça, coproduzida com o Teatro Municipal do Porto e teatromosca, é acompanhada por música ao vivo, e parte do texto do dramaturgo Jean Anouilh, escrito em 1947, ficando em exibição no Campo Alegre entre quarta-feira e sábado, às 21:30.

A partir de dia 14, a peça ficará em cena no Auditório Municipal António Silva, no Cacém, Sintra, na região de Lisboa, em colaboração com o teatromosca.

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