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Cartas do escritor libertino Luiz Pacheco a Laureano Barros publicadas em livro

Logótipo de O Jogo O Jogo 08/07/2017 Administrator

As cartas escritas durante 35 anos pelo escritor libertino e "eternamente falido" Luiz Pacheco ao seu amigo e mecenas Laureano Barros estão compiladas num livro agora editado pela Tinta-da-China, sob o título "O grilo na varanda".

A publicação inclui um DVD com um documentário sobre Laureano Barros, o matemático que colecionava livros, intitulado "Rigoroso refúgio", realizado por Paulo Pinto.

"O libertino revelado na sua compulsão epistolar" é como o biógrafo de Luiz Pacheco e autor da sua biografia, João Pedro George, define este livro naquilo que tem de denunciador da personalidade do escritor através das cartas que escrevia de forma compulsiva.

A relação de Luiz Pacheco com Laureano Barros "não será muito diferente da relação que teve com outras pessoas ao nível da epistolografia, porque ele escrevia cartas praticamente todos os dias e manteve correspondência durante décadas com outras pessoas e, portanto, nesse aspeto não será singular", afirmou à Lusa João Pedro George, que organizou, prefaciou e anotou o livro.

"Nestas cartas em particular, até por se tratar Laureano de um colecionador, de um bibliófilo, o Pacheco sabia que estava a falar com alguém informado, que conhecia bem o mundo dos livros e terá desenvolvido nas cartas algumas preocupações ao nível do tipo de informação que transmitia. São cartas, algumas extensas, com muitas páginas", afirmou.

Dessas cartas, escritas a partir de sítios tão diferentes e tão reveladores da sua vida, como do hospital, da prisão, de quartos imundos ou de casas de amigos, "emerge o impetuoso crítico de 'rompe-e-rasga', o escriba que combateu a PIDE, a censura e os ídolos das letras, o ser humano em luta para se realizar na sua paixão pela literatura", mas também "o solitário enraivecido, o homem que viveu de muitos cravanços e o doente crónico com pavor da morte".

Luiz Pacheco escrevia cartas para comunicar com os outros, para se afirmar literariamente, para criticar e satirizar compadrios e clientelas, para contornar a censura, para pagar cauções e sair da cadeia ou pedir favores, porque tinha falta de dinheiro para a renda do quarto, para comer e pagar as contas, para os tratamentos.

Apesar da manifesta situação de penúria em que vivia permanentemente, da vida boémia, das doenças e hipocondria evidentes na correspondência, o que João Pedro George destaca da personalidade de Luiz Pacheco, até por aquilo que conheceu em vida do escritor -- foi conhecê-lo em 1993 a Setúbal, onde vivia num quarto de uma cabeleireira --, é a ousadia.

Se tivesse que o descrever "diria que era a provocação com duas pernas".

O crítico literário encontrou em Luiz Pacheco "alguém capaz de dizer uma série de coisas sem aqueles habituais cálculos relativamente aos interesses do meio, relativamente às portas que se podem fechar por darmos uma opinião negativa, alguém que fazia menos cálculos relativamente à sua forma de se relacionar com a literatura e com o que escrevia".

"Alguém que me pareceu mais corajoso, menos calculista, menos interesseiro do que a maior parte dos outros escritores", sublinhou.

A organização deste livro surge de um contacto que o proprietário das cartas fez a João Pedro George, perguntando-lhe se gostaria de fazer uma edição.

"Ele leu a biografia do Luiz Pacheco gostou muito e achou que eu seria a pessoa mais indicada para editar as cartas que ele comprou no leilão da biblioteca do Laureano Barros", contou.

Laureano Barros, matemático de formação, expulso da universidade por ter subscrito uma carta de oposição à prisão, por ordem da PIDE, da estudante Nazaré Patacão, tornou-se explicador particular de álgebra e cálculo infinitesimal.

Mas o seu grande vício, a que se dedicou principalmente após a morte dos pais, quando se mudou para a quinta da família em Ponte da Barca, era colecionar preciosidades bibliográficas.

Quando morreu, em 2008 (o mesmo ano em que morreu Luiz Pacheco), possuía uma das melhores bibliotecas privadas da segunda metade do século XX.

É graças a Laureano Barros e à sua coleção que uma parte importante dos manuscritos de Luiz Pacheco chegaram aos dias de hoje, sendo disso exemplo a correspondência agora publicada sob o título "O grilo na varanda".

"O título é do próprio Luiz Pacheco, encontrei-o num diário inédito, que está no espólio da família, como o título de um texto que Luís Pacheco previa escrever, ou pensava escrever, e, tanto quanto sei, nunca escreveu. Pareceu-me apropriado para uma troca de correspondência, alguém que está a falar à distância, que está numa varanda a falar com alguém", explicou João Pedro George.

Em última análise, pode também ser o tal "livro que ele não escreveu e pensava escrever".

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