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Catalunha: Intelectuais catalães viam Portugal como "parceiro na resistência" ao centralismo de Madrid -- académico

Logótipo de O Jogo O Jogo 29/09/2017 Administrator

Portugal foi durante o século XX encarado por muitos nacionalistas catalães como um parceiro na resistência ao centralismo e hegemonia castelhanos, disse à Lusa um estudioso das relações entre os dois países ibéricos nos últimos dois séculos.

"A experiência histórica portuguesa foi muito diversa da catalã, até pela sua geografia. Mas durante o século XX muitos nacionalistas catalães viram em Portugal um parceiro na resistência ao centralismo e hegemonia castelhanos", considerou Sérgio Campos Matos, professor da Universidade de Lisboa e que se tem dedicado ao estudo das historiografias, nacionalismos e relações Portugal-Espanha nos séculos XIX e XX.

"Refira-se, por exemplo, Fèlix Cucurull. E ainda não há muito, o historiador Josep Sánchez Cervelló chegou a afirmar que a independência de Portugal em 1640 foi possível "per la sublevació catalana de Corpus de Sang" [7 de Jun. de 1640]", precisa, numa referência à restauração da independência de Portugal após 80 anos de "União Ibérica", iniciada em 1580.

"Claro que houve outros fatores não menos relevantes, pois a chamada Guerra da Restauração durou 28 anos, até 1668, e como demonstrou recentemente o historiador António Borges Coelho, a independência portuguesa não teria sido possível sem uma dinâmica participação popular. E uma ativa diplomacia nas capitais europeias".

Sérgio Campos Matos recordou que o "interesse das elites intelectuais catalãs por Portugal" se desenvolveu com a afirmação do catalanismo.

E precisou: "Tratava-se de um nacionalismo cultural muito ativo que se afirma na segunda metade do século XIX com o movimento da 'Renaixença': Joan Maragall, Jacinto Verdaguer e Bonaventura Aribau. Já nos princípios do século XX, Ribera i Rovira, que viveu em Portugal durante alguns anos e colaborou na imprensa periódica em Portugal, contribuiu de um modo notável para a difusão da literatura portuguesa na Catalunha, traduzindo poetas portugueses. Fundou-se nesses anos, na Universidade de Barcelona, a primeira cadeira de língua portuguesa".

O historiador recorda ainda a contribuição de Victor Martinez-Gil, "que se tem dedicado ao estudo das literaturas peninsulares, com destaque para as relações entre as culturas catalã e portuguesa, e organizou há poucos anos, em 2010, um valioso volume de estudos "'Uns apartats germans': Portugal i Catalunya".

No entanto, e apesar das obras citadas, o académico verifica a ausência de um "trabalho sistemático e de estudo das relações culturais, não apenas literárias, e até históricas, entre Portugal e a Catalunha. Algo que faz falta".

As investigações disponíveis indicam contudo que sempre foram mantidas relações entre Portugal e a Catalunha.

"A Catalunha mais voltada para a expansão no Mediterrâneo [integrada no reino de Aragão, incorporou a Sicília, Nápoles, e temporariamente a Sardenha e a Córsega]. Mas a monarquia dos Habsburgo foi uma monarquia compósita que integrou vários reinos e unidades políticas, entre eles Portugal e a Catalunha".

O investigador, que coordena o Dicionário de Historiadores Portugueses 'on line' no site da Biblioteca Nacional de Portugal, refere-se ainda longa tradição de monarquia pactista, contratual da Catalunha.

"Resistiu fortemente às políticas centralistas de Madrid, caso da política do conde-duque de Olivares, ministro de Filipe IV, que deu lugar a uma guerra que se prolongou durante cerca de 12 anos. O que, claro, facilitou o sucesso dos 'restauradores' portugueses", explicitou Sérgio Campos Matos.

A decisão dos líderes do governo autónomo catalão em promover um referendo sobre a independência no próximo domingo, dia 01 de outubro, também provocou reações inesperadas no meio universitário.

"Neste momento há um abaixo-assinado subscrito por 400 historiadores espanhóis de diversas universidades, que estão contra a independência da Catalunha e têm precisamente o mesmo argumento da Constituição [à semelhança do Governo de Madrid]. Alegam que a Catalunha, os catalanistas, os independentistas, não estão a respeitar a Constituição, a respeitar o direito, que estão a cometer uma ilegalidade. E agitam os nacionalismos, chamam a atenção que os nacionalismos levaram onde levaram no século XX, sabem-se as consequências, etc.", revela.

"De novo o argumento de que a Constituição é para se cumprir, e de alguma forma apelando para que o Estado central proíba por todos os meios -- a expressão está nesse manifesto --, impeça por todos os meios a possível independência da Catalunha".

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