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"Clepsydra", de Camilo Pessanha, lançada em Macau em formato de missal

Logótipo de O Jogo O Jogo 01/09/2017 Administrator

Uma nova edição da obra "Clepsydra" em formato de missal foi hoje lançada em Macau, no arranque de uma semana cultural dedicada a Camilo Pessanha, que decorre até quinta-feira, quando se assinalam 150 anos do nascimento do poeta português.

Considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, Camilo Pessanha nasceu em Coimbra a 07 de setembro de 1867 e morreu em Macau a 01 de março de 1926, cidade onde viveu desde 1894.

"Camilo Pessanha, um homem que nasceu há 150 anos e que morreu há 91 anos, a obra dele é isto?", questionou, enquanto erguia no ar a nova edição em formato de missal, o responsável pela iniciativa e diretor do jornal Hoje Macau, Carlos Morais José.

Ao mesmo tempo, desafiou os presentes a verem além da dimensão do livro de pouco mais de 70 páginas com a palavra "Clepsydra" gravada na capa de pele preta.

"Ainda ontem [quinta-feira] vi um vídeo no Youtube, de um teatro numa prisão do Brasil, em que eles pegaram num poema de Camilo Pessanha", disse, enaltecendo a repercussão do legado do autor português nos quatro cantos do mundo até aos dias de hoje.

Morais José observou que o formato de "missal" está relacionado com "um livro de uma cerimónia, que é a missa".

"A reza não é mais do que uma tentativa de comunicação com o transcendente", afirmou, destacando que na obra de Pessanha "esta relação é uma transcendência que está dentro de nós mesmos".

A opção pelo formato de "missal", acrescentou o editor, foi para que "todos pudessem andar com o livro, e ler, amiúde, um poema, ou os que quiserem".

"As edições de "Clepsydra" têm sido muito polémicas. (...) Muita gente tem feito a sua versão (...) Eu resolvi fazer a minha", afirmou.

Morais José explicou que a ordem dos poemas está de acordo com a sua "sensibilidade" enquanto editor, e que não seguiu qualquer critério académico ou lógica cronológica ou temporal, nem teve em conta o local onde os versos foram escritos, em Macau e Portugal.

Há mais de 30 anos radicado em Macau, o investigador Luís Sá Cunha destacou os vários autores que se têm debruçado sobre o estudo de Camilo Pessanha, como os também investigadores Daniel Pires, Paulo Franchetti e Pedro Barreiros, o tradutor chinês Yao Jingming, a historiadora Celina de Oliveira e o próprio Carlos Morais José.

Entre algumas leituras de poemas, Luís Sá Cunha destacou "o universalismo" de Pessanha e o lado "sinólogo" do autor português, que "começou a aprender chinês quase desde o dia em que chegou a Macau" e que fez a tradução das Elegias Chinesas.

Também o autor e tradutor Yao Jingming destacou a vertente do sinólogo.

"Camilo é um exemplo para todos nós. Nós chineses temos de aprender mais português e os portugueses têm de aprender mais a língua chinesa", afirmou, observando que "Macau tem condições para formar talentos bilingues".

Yao Jingming, que entre outros autores portugueses já traduziu Fernando Pessoa ou Eugénio de Andrade, sublinhou a "tarefa árdua" de verter para o chinês Pessanha, que "não é tão conhecido na China como Fernando Pessoa".

"Traduzir a poesia dele [Camilo Pessanha] foi muito difícil. Tem muitos efeitos musicais e duplicidade de sentidos na linguagem", afirmou.

Na sala do antigo tribunal onde decorreu o lançamento da nova edição de "Clepsidra", está também patente uma exposição sobre a vida do autor no Oriente.

Num dos painéis expostos lê-se que "Macau foi o cenário mais constante da vida de Camilo Pessanha. Nela bebeu a música que tornou poesia, singular, e rara. Partilhou conhecimento, aplicou a lei, desdenhou, amou. Fumou ópio, colecionou arte, desafiou convenções, hipocrisias e etiquetas. Sonhou, decerto ousou olhar e conhecer o outro que, tão perto, ficava do outro lado. Misturou o sangue e ali ficou enterrado".

No edifício do antigo tribunal foram ainda inauguradas a exposição de artes plásticas com o título "Pessanha, a última fronteira", com vários artistas com obras "inspiradas no poeta", e a exposição de fotografia "Kleptocronos", do português António Falcão.

Até 07 de setembro, Pessanha vai ainda ser lembrado na cidade através de conferências e do lançamento de livros, entre outras atividades.

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