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Colson Whitehead levou 15 anos a amadurecer uma ideia que lhe valeria o Pulitzer

Logótipo de O Jogo O Jogo 17/10/2017 Administrator

Colson Whitehead demorou 15 anos a amadurecer a história que lhe valeu o Pulitzer, "A estrada subterrânea", um livro sobre racismo e escravatura no século XIX, mas que permanece atual numa "América muito racista", que elegeu um "presidente racista".

"A Estrada Subterrânea" não partiu da ideia de escrever sobre escravatura, mas de uma visão de infância daquilo que foi a "underground railroad" americana: uma rede de colaboradores abolicionistas que ajudaram escravos em fuga, abrigando-os em casas ou sótãos, dando-lhes boleias ou ajudando-os a atravessar rios, e não um caminho-de-ferro subterrâneo, no sentido literal.

O escritor norte-americano usou essa "metáfora" e decidiu "explorar essa ideia infantil", de uma ferrovia subterrânea clandestina por onde os escravos podiam fugir, "e ver que história conseguiria tirar daí", contou em entrevista à agência Lusa.

Essa história foi a de Cora - uma escrava de 15 anos numa plantação de algodão na Geórgia, abandonada pela mãe na infância, que sofre os horrores da sua dupla condição de escrava e mulher - e com ela ganhou o Pulitzer para ficção, o National Book Award e o prémio Arthur C. Clarke para ficção científica, entre outros.

Cora aceita o desafio de fugir com outro escravo, Caesar, e, a partir desse momento, a sua vida é uma "odisseia", percorrendo diferentes Estados e encontrando em cada paragem um mundo diferente e formas diferentes de encarar os negros e a escravatura, numa narrativa que o autor admite ter ido beber às viagens de Gulliver.

Partindo da profundamente esclavagista Geórgia, depois de ver um escravo ser torturado e queimado vivo, Cora dirigiu-se para a aparentemente tolerante Carolina do Sul, onde pôde saborear escassos momentos de liberdade, até perceber que as mulheres negras eram esterilizadas à força e usadas em experiências, que visavam uma limpeza étnica.

Colson Whitehead socorreu-se de "arquivos de escravos, pessoas que fugiram e tornaram-se forças da abolição, que contaram as suas histórias de ajuda a pessoas a fugirem para norte", bem como de entrevistas feitas por escritores contratados pelo Federal Writers' Project, nos anos 1930, durante a Grande Depressão, a antigos escravos, para poderem recolher "as suas histórias antes de morrerem".

Toda esta documentação forneceu "vários detalhes" para o livro, a que se juntaram histórias como "a esterilização forçada e a eugenia", que foram obtidas a partir de leituras que o autor foi fazendo ao longo de décadas.

Aliás, este foi um livro muito demorado, já que a ideia nasceu no ano 2000, mas Colson Whitehead não a conseguiu "pôr para fora", porque a estrutura lhe parecia "muito complicada", e sentia-se ainda demasiado novo para conseguir escrever sobre aquele assunto.

"Então esperei e, há cerca de três anos, depois de tanto tempo a evitá-la, escrevi-a", mas não sem antes ter refletido muito sobre quem seria a personagem principal.

Colson Whitehead já explorara anteriormente diferentes tipos de personagens, mas nunca "uma dinâmica de mãe e filha", por isso a escolha de uma mulher para protagonista resultou, em parte, de querer "contar uma história diferente" e tentar não repetir o seu próprio "método artístico".

Por outro lado, o "famoso relato de uma escrava, de Harriet Jacobs" (em Portugal publicado pela Antígona como "Incidentes na vida de uma escrava"), que fugiu do seu "dono" e passou sete anos escondida antes de conseguir chegar ao norte, que "fala sobre o dilema das mulheres escravas, a sua puberdade, a possibilidade de terem bebés - e terem bebés significava mais escravos e mais propriedade para os seus donos -, pareceu-me uma coisa interessante para explorar", acrescentou.

"A estrada subterrânea", em Portugal editado pela Alfaguara, resulta num livro que é uma mescla de realismo e efabulação, que combina a violência da escravatura com o medo e o drama da fuga em direção a um lugar e a uma liberdade que na verdade não existem -- levando os protagonistas a perceber que a cor da pele os condenava à nascença a serem escravos para sempre -, e faz a ponte com a América contemporânea.

A ideia de que "um escravo será sempre um escravo", latente durante toda a luta pela fuga e sobrevivência de Cora, persiste nos dias de hoje, não sob a imagem da escravatura, mas do racismo, porque um negro será sempre um negro e "nunca foi seguro ser um jovem negro na América", nem na "racista de 1850", nem na "América que continua a ser muito racista e elegeu um presidente racista".

"Progredimos de uma forma muito lenta, não é tão mau como era na altura, mas o racismo continua a ter uma força poderosa na América e na maioria do resto do mundo", considerou o escritor, comparando os grupos organizados de homens brancos que controlavam, perseguiam e castigavam os escravos no sul dos Estados Unidos, com as forças policiais que param, identificam, revistam e matam, se fugirem, as pessoas negras, e com os grupos de supremacia branca: "o paralelismo entre as forças de então e as de hoje é óbvio".

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