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Eleitores no Quénia escolhem entre comboios modernos e altos preços da farinha de milho

Logótipo de O Jogo O Jogo 06/08/2017 Administrator

Pouco antes das eleições no Quénia, o Presidente Uhuru Kenyatta inaugurou a maior infraestrutura do país, uma linha ferroviária ultramoderna entre Nairobi e Mombaça, mas a sua reeleição esta terça-feira pode ser decidida pelo preço do milho.

O 'timing' era perfeito. No último dia de maio, cerca de dois meses antes de disputar um segundo mandato esta terça-feira, dia 08, Kenyatta pôde cortar em Mombaça a fita mais dourada de todas obras públicas quenianas: uma linha ferroviária tecnologicamente avançada e polivalente que liga o maior porto da África Oriental ao aeroporto internacional de Nairobi e às autoestradas que saem da capital queniana em direção aos principais destinos económicos vizinhos.

A inauguração do investimento, financiado e executado com capitais e mão-de-obra chineses, reuniu no porto queniano as mais altas individualidades locais e do país financiador.

Kenyatta e o seu vice-Presidente, William Ruto, as respetivas mulheres e uma importante delegação chinesa foram as figuras de cartaz da viajem inaugural sobre a renovada Standart Gauge Railway (SGR), deixando para trás 122 anos de história de uma ligação ferroviária de assinatura colonial, percorrida por um comboio que começou por chamar-se "expresso lunático".

Ao mesmo tempo, porém, que a fanfarra tocava pelo comboio moderno, outro evento se assumia como símbolo de uma presidência que falhou no desafio de fazer chegar aos mais necessitados os benefícios do crescimento económico: uma crise alimentar relacionada com a explosão dos preços da farinha de milho, alimento base de uma grande maioria de quenianos, cujo acordar provocou o sonoro descontentamento do país.

O Quénia tem beneficiado de taxas de crescimento superiores a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2013 e tem desenvolvido as suas infraestruturas, de que é o ícone maior a SGR, mas onde constam também investimentos importantes em aeroportos, estradas e pontes, energias renováveis e o início da construção de um novo porto em Lamu.

O crescimento sólido da economia queniana, entre os 5,4 e os 5,9% do PIB nos últimos quatro anos e o forte investimento público - traduzido por um aumento da dívida pública em 10 pontos para mais de 50% do produto - têm estimulado o consumo, mas nem tudo é luz no mandato de Uhuru Kenyatta.

Como é frequente em África, a agricultura é o maior empregador do país, mas o Quénia distingue-se dos seus rivais regionais por ter uma população ativa mais qualificada, uma melhor rede de internet e uma mentalidade empresarial quase compulsiva.

O setor turístico, afetado pelo ataque da Al-Shabab, braço da Al-Qaida na Somália e no Quénia, ao centro cultural de Westgate de Nairobi (67 mortos em 2013) também retomou o caminho em frente, e o clima de negócios não tem parado de melhorar, reconhecem relatórios sucessivos do Fundo Monetário Internacional.

Estes dois aspetos são, porém, vulneráveis a uma ameaça cada vez mais presente do Al-Shabab, que prometeu vingar-se do envio pelo Quénia em 2011 de tropas para a Somália, para combater o grupo radical islâmico.

O Al-Shabab foi no ano passado o grupo islâmico extremista mais mortífero em África e nas últimas semanas tem aumentado os ataques no Quénia, à medida que se aproximam as eleições gerais.

"Por um lado, há o Quénia que se desenvolve e que se afirma como a economia mais dinâmica da África Oriental. Por outro, há o Quénia que não beneficia do crescimento", sublinhou em declarações à France Presse Francis Mwangi, analista do Standard Investment Bank.

A subida dos preços alimentares, nutrida por uma nova seca no início do ano, e por vários incidentes de corrupção e acusações de favorecimento associadas ao aumento dos preços da farinha de milho ameaçam a reeleição do Presidente.

O Governo começou por reagir à escassez de produção de milho desonerando de impostos a sua importação e, em seguida passou mesmo a subsidiar as importações. Não obstante, uma e outra medida não tiveram impacto nos preços finais, deixando uma larga franja da população sob ameaça de crise alimentar e a arena política carregada de acusações de corrupção e críticas generalizadas na gestão da escassez deste bem de primeira necessidade.

No pico da crise do milho em maio, dois quilos de farinha custavam em Nairobi 180 shillings (1,50 euros), 50% acima dos preços praticados um ano antes.

O caso denuncia a vulnerabilidade económica de uma grande parte da população que "não se alimenta do PIB", como é comum ouvir-se nesta região de África, e pode vir a ter consequências drásticas para a coligação no poder no Quénia. O aumento do custo de vida é a principal preocupação da população em sondagens feitas nas vésperas destas eleições, muito à frente da corrupção, que por várias vezes atingiu o governo de Uhuru Kenyatta.

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