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Em seis meses, Trump enfraqueceu liderança americana da comunidade internacional

Logótipo de O Jogo O Jogo 18/07/2017 Administrator

Desde que assumiu a presidência dos EUA, a 20 de janeiro, Donald Trump enfraqueceu a liderança norte-americana da comunidade internacional que vigorava desde o final da II Guerra Mundial, defendem especialistas ouvidos pela Lusa.

"Apesar de estar no poder há apenas seis meses, Trump já alterou a situação internacional, ao comprometer o 'soft power' americano, reduzindo a liderança americana, e enfraquecendo as regras que fundam a ordem liberal", disse à Lusa Joseph Nye, professor universitário em Harvard e considerado um dos académicos mais influentes na política internacional norte-americana.

Howard Dean, ex-candidato à presidência dos EUA e hoje professor na Universidade de Yale, disse à agência Lusa que "Donald Trump já mudou muito" na comunidade internacional e que "os EUA perderam muita da liderança e autoridade moral que tinham."

"Os nossos parceiros não confiam em Trump e acham que não podem confiar nos EUA sob a sua liderança", disse o especialista.

"Trump afetou de forma severa a reivindicação americana de que é o líder natural da comunidade internacional. Está a forçar outros países a olharem para a China enquanto alternativa. Este é um grande e desnecessário erro estratégico", afirmou o professor da Universidade de Nova Iorque Richard Gowan.

Joseph Nye disse que esta degradação aconteceu com "a retirada do Acordo de Paris, a retirada do apoio a acordos de comercio multilaterais, e com as constantes ameaças de novas tarifas contra países com balança comercial positiva."

"Ao mesmo tempo, na área de segurança, pelo menos reafirmou o seu apoio à NATO e ainda não abandonou o acordo nuclear com o Irão", acrescentou o especialista, considerando que essas decisões teriam consequências negativas.

Richard Gowan disse que "muitos observadores internacionais estão preocupados com os erros que Trump vai fazer de seguida" e acredita que "se os EUA entrarem em guerra com a Coreia do Norte, por exemplo, podem criar divisões imensas no conselho de segurança da ONU, como aconteceu com a Guerra do Iraque."

Howard Dean considera que os líderes da Alemanha e da França, Angela Merkel e Emmanuel Macron, "são agora os verdadeiros líderes do mundo livre" e que "a União Europeia terá de se aperfeiçoar e alcançar o potencial que tem."

"Ironicamente, esta transformação, forçada, vai acabar por contribuir para a visão da comunidade internacional defendida por Obama, descentralizada e com vários centros de poder, que foi tanto criticada pelos republicanos", disse o especialista.

"Isso será bom para a União Europeia e para o mundo. Não é bom para os EUA a curto e médio prazo, porque perdem capacidade de influência e isso acarreta muitos riscos económicos e de segurança, mas a longo prazo deverá ser bom", explicou, acrescentando que os próximos anos serão "um momento de grande transição".

"A liderança da Europa será agora testada, num momento em que enfrenta as suas próprias dificuldades internas, sobretudo com o 'Brexit'. A Europa tem de provar que está à altura dos desafios", disse Howard Dean, que foi governador do estado do Vermont.

"A Europa tornou-se tão burocrática porque sabia que podia contar com os EUA para exercer liderança. Esta mudança tornará a Europa mais forte. Os EUA vão, eventualmente, voltar a ter um presidente dentro da normalidade, e retomar parte da sua liderança, mas a ordem internacional será muito diferente, a parceria transatlântica será mais igual", explicou.

Alguns especialistas também defendem que o vazio deixado pelos EUA pode ser preenchido pela China, mas os académicos ouvidos pela Lusa não acreditam que isso seja possível.

"Apesar de todos falarem na ascensão da China, Pequim não está preparada para substituir os EUA à cabeça do sistema internacional. Ainda não tem a capacidade diplomática e o conhecimento para gerir as mais complexas negociações internacionais. Os poderes europeus, como a Alemanha e a França, terão um maior papel na gestão de questões diplomáticas complexas", defendeu Gowan.

Howard Dean acredita que "a China está, sobretudo, interessada em preencher o vácuo deixado pelos EUA em termos económicos e comerciais."

"O país tem muitos problemas, nomeadamente em relação à violação de direitos humanos, que devem impedir uma liderança mais abrangente", explicou, afastando também a hipótese de liderança russa.

Richard Gowan, que é especialista nas Nações Unidas, acredita que a organização também enfrentará dificuldades durante a administração Trump, que a impedirão de ter um papel mais ativo na prevenção e resolução de conflitos.

O professor disse que "António Guterres tem feito um bom trabalho a gerir as relações com a [embaixadora] Nikki Haley e a administração Trump", mas que "as ameaças americanas de cortar o orçamento para a ONU vão continuar a ensombrar o seu mandato enquanto secretário-geral."

"É um período de enorme transição, mas assim como aconteceu com o Acordo de Paris, em que nenhum país decidiu seguir o exemplo dos EUA e isso reforçou o compromisso, acredito que a comunidade internacional e a ordem liberal do pós-guerra podem sair aperfeiçoadas após este período", concluiu Howard Dean.

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