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"Esta noite sonhei com Brueghel" abre reedição completa das obras de Fernanda Botelho

Logótipo de O Jogo O Jogo 17/08/2017 Administrator

A Abysmo vai reeditar a obra completa da escritora portuguesa Fernanda Botelho, e começa com o romance autobiográfico "Esta noite sonhei com Brueghel", considerado um dos mais emblemáticos da sua obra, que deverá chegar às livrarias esta semana.

"Esta noite sonhei com Brueghel" é, nas palavras de Paula Morão, que assina o prefácio da obra, "um livro de construção dúctil e flexível", em que, nas páginas de abertura, é apresentada a personagem Luiza, a protagonista da história, que é na verdade Fernanda Botelho.

A estrutura apresenta-se como um entrançado de personagens, situações e tempos, percetível logo nas primeiras páginas, quando Luiza diz ao amante que pretende dar a ler ao marido o "manuscrito" do livro que está a escrever -- "Esta noite sonhei com Brueghel" -- que é "autobiográfico" e que foi começado há 12 anos, em Bruxelas.

Aqui são postos em cena dois períodos temporais -- o passado de "há 12 anos", 1972, e o presente, 1984 -, bem como dois lugares -- a Lisboa atual e Bruxelas do passado.

Esse manuscrito apresenta, assim, personagens de uma vida que é a da autora e que, portanto, são reais.

Como explica Paula Morão, na introdução, "se o manuscrito intitulado 'Esta noite sonhei com Brueghel' é uma autobiografia, e se nesta os participantes ou personagens são verdadeiros, como Luiza afirma ('conheço-as', 'são e não são. Não as inventei, por isso não são. Mas no manuscrito parecem personagens'), quer isso dizer que todas as armadilhas da verdade simulada pela ficção se encontram neste romance postas em cena com uma técnica de refinada competência".

Pieter Brueghel serve de fio condutor, representando, por um lado, a ligação de Luiza com a mãe flamenga (como o pintor), e preenchendo, por outro, "a deriva onírica" da personagem pelas telas do artista.

O pintor, conhecido como "O Velho", "representa, em suma, nesse encontro de Luiza consigo mesma através da escrita da autobiografia, um caminho tortuoso para ir ao encontro da História que, em episódios verdadeiros ou ficcionados, o pintor fixou, mas propicia também -- e sobretudo -- a reconciliação das memórias materna e paterna que instituem e fundam a protagonista", escreve Paula Morão.

Na decisão da Abysmo de reeditar as obras de Fernando Botelho pesou para a escolha desta como a primeira obra a publicar as "suas características de complexidade formal e temática, com uma mulher em busca de si através da escrita", explica João Paulo Cotrim, o responsável da editora.

A opção pela reedição da obra completa de Fernanda Botelho justifica-se por esta ocupar "um lugar único no panorama literário nacional do século XX, e isso parecia esquecido", disse à Lusa o fundador e diretor da Abysmo.

"De algum modo, a reedição impunha-se pela originalidade da sua escrita, que se revela no modo com constrói as suas narrativas, com grande sentido do dramático, mas também no desenho denso das suas personagens, com destaque para as femininas, e uma atenção muito peculiar aos detalhes e as subtilezas que contribuem para compor um universo fascinante", acrescentou.

Assim, será reeditada a obra completa - os romances, as antologias de contos, a poesia, mas também crónica e alguns inéditos -- ao ritmo de dois livros por ano (sendo que o próximo sairá no início de 2018), naquela que será a efetivação de um projeto com mais de três anos.

As dificuldades vividas por uma editora com a dimensão da Abysmo foram empurrando para a frente este sonho, que acaba por se realizar no ano em que se assinala o décimo aniversário da morte da escritora, uma "triste" coincidência temporal.

A reedição das obras de Fernando Botelho está a ser feita em paralelo com a própria organização do espólio, que está acontecer com o ritmo possível sob a orientação do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa e com "enorme disponibilidade e entusiasmo da família", contou.

João Paulo Cotrim, que conheceu "os labirintos do desejo no feminino" através dos livros de Fernanda Botelho, vê esta escritora "à imagem das suas personagens: uma mulher livre, corajosa e criativa, maior que a vida".

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