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Franceses despediram-se de Simone Veil, a defensora da "liberdade da mulher"

Logótipo de O Jogo O Jogo 05/07/2017 Administrator

"Liberdade" foi a palavra mais repetida pelos franceses que foram assistir às cerimónias fúnebres de Simone Veil, em Paris, com o público feminino a destacar, nomeadamente, o seu papel para a "liberdade da mulher".

A assistir à cerimónia debaixo de um dos arcos que rodeia o pátio do Hôtel des Invalides, uma enfermeira, uma médica e uma obstetra, que não se conheciam, quiseram contar à Lusa tudo o que representa para elas Simone Veil.

"Vim prestar homenagem a Simone Veil pela mulher que foi e pelo que fez pelas mulheres, pelos direitos do Homem e pela Europa. Ela representa a liberdade da mulher e a coragem para exprimir os direitos das mulheres. Simone Veil é o símbolo desta liberdade", começou por contar a enfermeira Sandra Bigot, de 31 anos.

Atenta à conversa, Marie-Christine Dhaussy recordou que obteve o diploma de obstetra em 1974, ano em que Simone Veil fez o seu combate pela legalização da interrupção voluntária da gravidez em França, e, um ano depois, apertou-lhe a mão no hospital, num gesto que a marcou "para sempre".

"Em 1975, ela veio inaugurar o meu serviço de planeamento familiar. Apertou-me a mão, com aqueles enormes olhos azuis, e isso deu-me uma certa grandeza para o meu trabalho e acompanhou-me toda a minha carreira. Graças ao seu trabalho, ela evitou que milhares de mulheres fossem mutiladas", afirmou a antiga obstetra de 67 anos.

A médica Cicile Grosskopf, de 59 anos, amiga da família de Simone Veil, deslocou-se aos Invalides para se despedir de "um grande símbolo para as mulheres e para os judeus", alguém que transmitiu "uma bela mensagem de amor ao ultrapassar o ódio a que foi submetida" nos campos da morte, em Auschwitz, entre março de 1944 e janeiro de 1945 e, depois, no campo de Bergen-Belson até à libertação.

Quase a cortar a frase de Cicile, Michelle Serra, de 80 anos, quis sublinhar que Simone Veil morreu, mas deixa um legado de "valores imortais e uma mensagem de liberdade".

"Ela viveu acontecimentos muito graves, sobreviveu ao Holocausto, perdeu familiares exterminados pelos judeus. Depois, perdeu um filho num acidente e conseguiu sobreviver a tudo isto. Fez o seu luto e até teve coragem para tomar conta dos franceses. É uma grande senhora que nos deixa, ainda que a França a tenha um pouco esquecido nos últimos anos", afirmou a parisiense.

Para Fred Otvas, funcionário público de 56 anos, Simone Veil representa não apenas "a liberdade para as mulheres" mas também a "luta contra o racismo e contra o antissemitismo", resumindo-a como "uma mulher excecional que defendeu causas justas".

A palavra "coragem" é também das primeiras utilizadas pela professora e historiadora Yaelle Arasa, de 48 anos, para quem Simone Veil representa "a força e a dignidade", lembrando que ela "lutou, primeiro, para sobreviver em condições terríveis, depois lutou pelas mulheres e depois pela Europa", estando na cerimónia porque "é importante para o futuro para que a Europa não esqueça as pessoas".

Veterano de guerra, numa cadeira de rodas, André Tassin, de 89 anos, também fez questão de estar presente na despedida a Simone Veil, que conheceu "quando era jovem", e não conseguiu deter as lágrimas para contar que era sua amiga e que "era muito corajosa e gostava muito dela".

As cerimónias fúnebres desta manhã no Hôtel des Invalides, em Paris, foram presididas pelo chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, na presença de familiares de Simone Veil, representantes da Fundação para a Memória do Holocausto, da União para a diversidade republicana, da União dos deportados de Auschwitz e do Conselho Representativo das Instituições Judaicas de França.

Macron encerrou o discurso na cerimónia a anunciar que decidiu, juntamente com a família, que Veil será sepultada no Panteão, como forma "do agradecimento do povo francês".

A ministra da Presidência e da Modernização Administrativa portuguesa, Maria Manuel Leitão Marques, representou o governo português nas cerimónias.

A antiga ministra Simone Veil, autora da lei de legalização da interrupção voluntária da gravidez em França e primeira presidente do Parlamento Europeu, morreu a 30 de junho, com 89 anos.

Figura maior da vida política francesa, Simone Veil escapou aos campos da morte durante a II Guerra Mundial, para onde foi deportada com 16 anos, e incarnava para os franceses a memória do holocausto judeu.

Curadora da Fundação Champalimaud, feminista inflexível, com fortes convicções morais e republicanas, Simone Veil foi a primeira mulher a assumir as funções de ministra de Estado em França, assim como foi a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu.

Em 1974, Simone Veil entrou na política como ministra da Saúde e o seu combate para adotar a lei -- contra uma boa parte da direita francesa -- sobre a interrupção voluntária da gravidez fez dela, durante muito tempo, a figura mais popular do país.

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