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Julián Fuks defende uma literatura de diálogo e de resistência coletiva

Logótipo de O Jogo O Jogo 25/10/2017 Administrator

O escritor Julián Fuks, que recebeu hoje o Prémio José Saramago, defendeu que "a literatura se faça de diálogo, que possa ser uma resistência mais coletiva mais ampla", num contexto em que também se referiu ao recente "golpe parlamentar" no Brasil.

Julián Fuks foi distinguido pelo romance "A Resistência", e recebeu hoje o prémio na Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago, em Lisboa.

Na cerimónia, na qual esteve presente o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, entre outras personalidades, Julián Fuks afirmou-se lisonjeado por passar a fazer parte de uma lista de autores, anteriormente distinguidos, que admira e lê, entre os quais Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e João Tordo, que também esteve presente.

"No Brasil, a gente viveu recentemente o golpe parlamentar, a gente vive uma sequência de despautérios políticos, a gente vive retrocessos evidentes por toda a parte, e uma das coisas claras para quem está acompanhando de perto aquela situação é o pensamento de que isso não acontece só ali, não responde só àquele contexto, pelo contrário, se relaciona amplamente, com uma situação vivida mundialmente", afirmou no seu discurso.

"Retrocessos que se iniciam, se insinuam em certos lugares e se cumprem em outros, e que parecem eu nos exigem cada vez mais a aproximação, cada vez mais o diálogo, cada vez mais multilateralismos, inclusive na literatura, que a literatura se faça desse diálogo, que possa ser uma resistência muito mais coletiva, muito mais ampla", acrescentou.

O escritor, que com esta obra foi distinguido no ano passado com o Prémio Jabuti para o Melhor Romance, no Brasil, afirmou que "em certo sentido é um livro sobre um acolhimento, depois que se transpõem fronteiras"

"E sinto que, recentemente, aqui em Portugal, houve um acolhimento impressionante ao meu livro, que me fez acreditar na possibilidade de um diálogo, para a abertura de um entendimento entre nós, na abertura para uma troca maior de experiências, de noções e ideias".

"Portugal tem sido incrivelmente hospitaleiro e recetivo, e só tenho agora que agradecer ao país como um todo, por isso", afirmou.

Em declarações à agência Lusa, Julian Fuks, afirmou-se contente pelo prémio e pelo facto de esta obra estar a fazer "um bom caminho".

Um "motivo de alegria", disse, referindo que, distinguido com o Prémio Saramago, "o livro pode circular mais, pode chegar a mais gentes e as vozes podem-se inter-relacionar".

"A literatura, para mim, tem de ser feita por esse diálogo, pelo diálogo constante com os leitores também", disse.

A literatura, reconheceu o autor, também pode exorcizar fantasmas do passado, e explicou: "Não são necessariamente fantasmas pessoais, são também fantasmas que se ampliam para fantasmas dos outros, neste caso, fantasmas do meu irmão ou dos meus pais, mas que não representam só algo tão individual, que pode, justamente, se expandir para que se torne a literatura como um todo, um sistema de exorcização de fantasmas coletivos, de fantasmas sociais".

Em "A Resistência", segundo a Fundação Círculo de Leitores, o autor desenvolve a história de uma família argentina a partir de 1976, quando se deu o golpe de Estado que derrubou a Presidente María Estela Perón, e instaurou o poder ditatorial de uma junta militar, que governou o país até dezembro de 1983.

"'Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado', anuncia, logo no início, o narrador deste romance. "O leitor descobre-se à partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política", lê-se na mesma informação à imprensa.

O autor está, atualmente, a escrever um outro romance, que se intitula "A Ocupação", "e que tem alguma relação com 'A Resistência', [porque] a noção política recente tem sido a mais forte, a de ocupar e resistir".

O ministro Luís Filipe Castro Mendes, que afirmou ter lido o romance, disse que "é um livro admirável, porque é uma escrita extremamente exigente, de uma grande tensão e de um grande rigor, com uma elaboração narrativa muito interessante", sobre um tema que José Saramago "muita gostaria de ver" abordado.

O ministro da Cultura, autor de vários romances e livros de poemas, afirmou que "a escrita é sempre uma resistência, primeiro à banalidade das palavras, à vulgarização, à tagarelice quotidiana, ao uso mercantil das palavras, às vezes pornográfico da palavra".

NL

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