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Livro "Operação Angola" vai ser lançado em Paris

Logótipo de O Jogo O Jogo 28/10/2017 Administrator

O livro "Operação Angola", que recorda a fuga organizada de 60 estudantes africanos lusófonos de Portugal para França, em junho de 1961, vai ser lançado a 6 de novembro, na livraria Jean Calvin, em Paris.

"Operação Angola - Sessenta estudantes africanos extraídos do Portugal de Salazar" ["Opération Angola: Soixante étudiants africains exfiltrés du Portugal de Salazar"], das edições L'Harmattan, conta os bastidores de uma fuga clandestina em massa, de jovens angolanos, moçambicanos, são-tomenses e cabo-verdianos, incluindo várias personalidades que se viriam a tornar altos responsáveis políticos nos seus países.

Joaquim Chissano, que chegaria a Presidente de Moçambique, Pedro Pires, que seria Presidente de Cabo Verde, Fernando José Van-Dúnem, que seria primeiro-ministro angolano e Pascoal Mocumbi, que seria chefe de Governo moçambicano, foram alguns dos 60 jovens que atravessaram o rio Minho de barca, dormiram numa granja, numa igreja e até numa prisão espanhola até chegarem a França.

A edição original, em inglês, foi publicada em 2015, escrita por dois dos protagonistas da evasão secreta, Charles Harper e William J. Nottingham, dois pastores americanos que ajudaram os estudantes a sair de Portugal e a chegar a França, numa viagem "a salto", com passadores, barcas clandestinas, carros de luxo americanos e um autocarro Dodge.

Em entrevista à Lusa, William J. Nottingham, de 90 anos, considerou que "sem dúvida" também contribuiu, no seio desta operação secreta, para uma página que determinou a história das antigas colónias portuguesas, sustentando que "isto foi reconhecido numa reunião em maio de 2015, em Lisboa, quando Pedro Pires e Fernando Van Dunem discursaram".

Tudo começou com um apelo de estudantes angolanos à Igreja Metodista dos Estados Unidos para ajudar a sair de Portugal os jovens preocupados com a perseguição policial devido à sua simpatia ou implicação nas premissas dos movimentos de independência dos seus países.

O apelo foi ouvido e a Igreja Metodista americana contactou o Conselho Ecuménico das Igrejas que pediu à associação francesa Cimade - uma agência de serviços ecuménicos da Federação Protestante de França - para realizar a operação graças à sua experiência na evasão de presos destinados aos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

"O doutor Visser't Hooft, secretário-geral do Conselho Ecuménico, considerou que era preciso ajudar e que só a Cimade podia fazê-lo porque sabia montar estas operações, exfiltrou muitos refugiados judeus para os Estados Unidos, Espanha e Suíça na guerra e sabia fazer papéis falsos", explicou à Lusa Alain Bosc, membro da Cimade, que supervisionou a tradução da obra.

A operação contou com Jacques Beaumont, secretário-geral da Cimade entre 1956 e 1968, e Charles Harper ("Chuck") que conduziram, de carro, os estudantes até à fronteira com Espanha, no norte de Portugal, e William J. Nottingham ("Bill"), Kim Jones, Dick Wiborg, Dave Pomeroy que foram os motoristas na viagem de Espanha até Hendaye, em França.

Atualmente a viver em Highlands Ranch, no estado norte-americano do Colorado, William J. Nottingham disse à Lusa que foi "uma operação com proporções históricas" e que com o amigo Charles Harper, que morreu no ano passado, sempre quiseram "escrever um livro" a contá-la.

Mais de 50 anos depois, a obra acabou por sair, baseada nas suas próprias memórias, em conversas com os intervenientes e em testemunhos gravados em cassete, no outono de 1961, por três dos motoristas norte-americanos, estudantes de teologia.

Depois dos passaportes falsos carimbados pelas embaixadas do Senegal, do Gabão e do Níger em Paris, e de notificadas as autoridades francesas ao mais alto nível, as viagens aconteceram de 16 de junho a 2 de julho de 1961, em duas fases: na primeira fugiram de Portugal 19 estudantes, na segunda saíram 41.

Todos temeram o repatriamento para Portugal quando foram parar a uma prisão em San Sebastián, mas "houve instruções que vieram de bem alto para libertar estes estudantes", explicou à Lusa Alain Bosc.

Concluída a viagem, foram escassos os contactos posteriores entre os motoristas e os exilados e só passados 50 anos alguns se reuniram em Cabo Verde para lembrar "a fuga rumo à luta" num país então presidido por um dos antigos estudantes, Pedro Pires.

A apresentação do livro "Operação Angola" na livraria Jean Calvin, em Paris, está marcada para as 18.00 (menos uma em Lisboa), na presença de Jacques Maury, presidente de honra da Cimade, Geneviève Jacques, presidente da Cimade e uma filha de William J. Nottingham.

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