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Manuel Maria Carrilho prepara um livro de aforismos e uma autobiografia

Logótipo de O Jogo O Jogo 08/08/2017 Administrator

O ex-ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, projeta escrever um livro de aforismos e uma autobiografia, e está a trabalhar num outro que se deverá intitular "A Política depois da Democracia".

Manuel Maria Carrilho, de 66 anos, faz estas afirmações num diálogo com o escritor José Jorge Letria, publicado pela Guerra e Paz, sob o título: "Manuel Maria Carrilho: Ser Contemporâneo do seu tempo".

O livro de aforismos começou a escrevê-lo há 30 anos, em paralelo à sua tese de doutoramento e, quanto à autobiografia, afirma: "iniciei-a em tempos mais recentes, mais 'de profundis', que comecei a escrever sob a dupla e simultânea inspiração do estoicismo de Séneca e do perspetivismo de Nietzsche - e que poderá vir a ser o meu Ecce Homo".

Sobre si, a dado passo, afirma-se como "um filósofo da contingência". "Sou um filósofo da contingência, penso que tudo pode acontecer... ou não. A necessidade é uma ilusão fomentada pelo determinismo, e o determinismo é um erro metafísico", afirma Carrilho.

"Na vida, como na política, o imprevisível é que é a norma, só os nossos medíocres dirigentes atuais é que pensam que ele é a exceção... No que diz respeito à democracia, digo sempre que nada está garantido", prossegue o socialista, que afirma estar a escrever um livro que se deverá intitular "A Política Depois da Democracia", "porque a política não vai acabar, ou seja, as relações entre os cidadãos, as instituições, os conflitos, tudo isto continuará a ser, digamos, 'regulado'".

Carrilho afirma-se apreensivo relativamente à União Europeia, que afirma ver "em decomposição, sem condições nenhumas para se pensar em saltos federais". "A Europa é uma Europa de nações, não o podemos esquecer, e é assim que ela se vê e parece que é isso que ela quer permanecer", sustenta o filósofo.

O filósofo crítica o "socialismo europeu, sem ideias sobre quase nada", e questiona: "O que é que a Europa tem de Esquerda?"

"Temos lá a Carta Social, está bem, mas não passa de um texto de enquadramento geral, sem alcance vinculativo".

Portugal, por seu turno, chama à atenção Carrilho, "tem um espaço único muito desprezado, que é o Atlântico, que se pode tornar num novo centro do mundo, certamente num dos centros mais importantes".

O antigo ministro do Governo de António Guterres aconselha Portugal a olhar para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) "com outras perspetivas".

"Não diria em alternativa à Europa, mas como uma saída para diversas dificuldades que estamos a ter na Europa, e vamos ter cada vez mais ", profetiza.

Em termos políticos, argumenta o filósofo, que "a grande dificuldade para uma intervenção política diferente prende-se com a dificuldade em sermos contemporâneos do nosso tempo".

"Conseguir não olhar para os 'media' como eles eram há dez naos, não olhar para a justiça como ela era há 20 anos, não olhar para a escola como ela era no tempo da primeira República".

Há, no entender do filósofo, uma "desadequação das instituições que herdámos às realidades do nosso tempo, o que pode implicar tanto a sua eliminação como a sua reinvenção".

Na área da Educação, Manuel Maria Carrilho afirma que "a escola reproduz a sua mesma organização, o mesmo modelo, de há praticamente cem anos".

O professor da Universidade Nova de Lisboa realça que o lugar ocupado pela Educação, na cena política, há cem ou 50 anos, "hoje é ocupado pela saúde".

"Tudo hoje é dominado pelo fantasma da saúde", afirma Carrilho, referindo que tal "se deve em grande parte à ilusão individualista na imortalidade, que vamos viver muito tempo, que temos de viver muito bem, a própria felicidade tornou-se num imperativo mercantilizado incontornável...".

Para Manuel Maria Carrilho, o que lhe interesse "é pensar 'no que lá vem', pensar mais o mundo em que viverão estes meus filhos", referindo-se a Dinis, de 13 anos, e a Carlota, que completa sete anos em outubro próximo.

Sobre si e a sua carreira, afirma que sempre teve "contrariedades". "Nada me foi dado na vida, nem eu procurei nunca caminhos fáceis, fosse na política, na universidade ou na vida pessoal".

"Na verdade até gosto de tempos difíceis, são eles que muitas vezes transformam a rotina dos dias em jornadas fantásticas", afirma, para contar sem seguida o seu pai, Manuel Engrácia Carrilho, lhe dizia que "sempre gostou 'do cheiro da pólvora".

Atualmente, depois de 15 anos na política, vive como mais gosta, atesta, e explica: "A ler, a pensar, a escrever, a ensinar", embora ressalve: "Não abdiquei da intervenção política, mas o meu olhar dirige-se mais para outros mundos".

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