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O romance que era um poema escrito em guardanapos de papel pelo Presidente cabo-verdiano

Logótipo de O Jogo O Jogo 07/07/2017 Administrator

Com o "Albergue Espanhol", o chefe de Estado cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, programou um romance, mas foi traído pela escrita e, no final, o romance revelou-se um poema, num livro que parece definir-se pela sua indefinição.

"Houve quem procurasse programar um romance, um romance diferente, mas foi traído pela escrita e, no final, parece que o romance, à partida, era um poema", sintetiza Jorge Carlos Fonseca.

O poeta e único Prémio Camões cabo-verdiano, Arménio Vieira, que vai apresentar o livro, lançado na quinta-feira na ilha do Sal, na próxima semana na cidade da Praia, caracterizou-o como um longo poema ou um romance irónico ou um poema que nunca quis ser um romance.

Filinto Elísio, da editora Rosa de Porcelana, admite que o livro "foge aos esforços de catalogação precisa" e classificou-o como um "romance anómalo que decidiu albergar poemas e outros textos como notas de rodapé", o que dificulta a escolha entre saber se se trata de "um poemance ou romancema".

"É um livro bem urdido, visceralmente singular que convida os leitores a abrir a mente para perspetivas não tradicionais de literatura", considerou.

O jornalista José Mário Silva, que fez a apresentação do livro, insistiu em saber se "Albergue Espanhol" é um romance ou um longo poema para concluir que a resposta "não é evidente e talvez nem seja necessária".

"É simultaneamente um romance e um não romance, um poema e um não poema, um poema que se esforça por ser outra coisa, talvez um romance, mas não consegue", disse.

José Mário Silva identifica no "Albergue Espanhol" as ilhas e as cidades cabo-verdianas, o mar e "figuras fugidias" com histórias "que se escapam entre os dedos".

"O tema central do livro é a própria ideia de literatura e o questionar do que significa escrever hoje. Creio ser esta a questão central que o livro nos coloca e se coloca", considerou.

"O "Albergue Espanhol" abre-se a dezenas de escritores e suas obras, escavando-as e trazendo de lá frases, versos, passagens que iluminam o texto principal e são contextualizada em notas de rodapé", acrescentou.

Para Jorge Carlos Fonseca, é também "um exercício sobre o próprio ato de escrever com referências locais, nacionais, telúricas, mas num diálogo permanente com o percurso da literatura do mundo".

O chefe de Estado - escritor assume que não "é um livro de leitura muito fácil", "exige um leitor que não seja preguiçoso" e tenha "algumas referências sobre o mundo da literatura e da poesia".

"Há um mundo retratado no livro em que talvez haja aspetos biográficos do percurso literário, político e de cidadão do autor, mas também há um exercício crítico, de forma que se pretendeu literária, daquilo que é o nosso viver coletivo, a vida social e o percurso histórico em Cabo Verde", prossegue Jorge Carlos Fonseca.

"O Albergue Espanhol", numa alusão a um local que acolhe e alberga, é a 18.ª publicação do chefe de Estado cabo-verdiano e aquele que é o seu primeiro livro literário em quase 20 anos.

Jorge Carlos Fonseca tem publicações, na sua maioria, na área do direito penal e sobre a Constituição.

"Fui obrigado a fazer outras coisas e publicar literatura exige uma audácia, uma coragem, uma segurança de que o que se produz vale a pena ser editado, que não exige editar um livro sobre democracia constitucional. O trabalho literário exige mais labor, mais sofisticação e muito mais sofrimento", disse.

O primeiro ensaio de Jorge Carlos Fonseca como romancista aconteceu em 1979 com o início de um romance sobre a cidade da Praia, mas com as várias mudanças de país, do que tinha registado e datilografado "restaram apenas 30 páginas".

"Perdi grande parte desse pretenso romance. Recuperei e reutilizei parte desses resíduos no "Albergue Espanhol" e por isso também é um albergue. Alberga poesia minha, dos outros, escrita minha e dos outros e várias referências à literatura em língua castelhana", disse.

A escrita do livro começou em abril de 2014 e foi acontecendo entre obrigações oficiais e horas vagas "em aviões, em madrugadas, durante as insónias" ou em "almoços e jantares fora de casa, em guardanapos ou em pedaços de papel".

Desde que deu a tarefa por concluída e entregou a obra à editora Rosa de Porcelana, Jorge Carlos Fonseca lançou-se em nova aventura que promete ser tanto ou mais difícil de definir literariamente como este "Albergue Espanhol".

"Estou a redigir uma coisa experimental, uma espécie de diário com aspetos realistas da minha vida pessoal, mas também com comentários, reflexões e alguma ficção sobre acontecimentos reais do dia-a-dia", adiantou.

O lançamento do "Albergue Espanhol" encerrou o primeiro dia do festival Literatura-Mundo do Sal, que decorre até domingo com curadoria do escritor português José Luís Peixoto e atividades nas cidades de Espargos e Santa Maria.

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