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"Poemas Quotidianos", do escritor e cineasta António Reis, reeditados ao fim de 60 anos

Logótipo de O Jogo O Jogo 09/07/2017 Administrator

O livro "Poemas Quotidianos", da autoria do poeta e cineasta António Reis (1927-1991), publicado em 1957 pela revista Notícias do Bloqueio, será reeditado pela Tinta-da-China, 60 anos depois da primeira edição, chegando este mês às livrarias.

A obra, publicada no âmbito da coleção de poesia coordenada pelo escritor Pedro Mexia, regressa em julho às livrarias, depois de ter estado "fora de circulação" durante décadas, afiançou a editora.

Os mais de cem poemas presentes nesta reedição incluem a obra de 1957 e ainda "Novos Poemas Quotidianos", de 1960, constituíndo a primeira edição integral da obra poética do realizador de "Jaime" e "Trás-os-Montes", depois de os dois livros terem sido publicados juntos, em 1967, há 50 anos, pela antiga Portugália Editora, com prefácio de Eduardo Prado Coelho.

Para descrever o "poeta da segunda geração do neo-realismo português", Pedro Mexia detalha que Reis procurou "o despojamento do verso, a emoção contida, o intimismo melancólico", como escreveu na apresentação desta reedição, que permite recuperar um "fulgurante elogio da fraternidade e da conjugalidade".

No prefácio, o professor Fernando J.B. Martinho explica que o Portugal dos anos 1950, um país "em que amplos setores da população [viviam] no limiar da pobreza ou numa apertada mediania", é o foco dos "poemas elípticos" de António Reis, que se distanciam "da ênfase retórica e do tom protestário da lírica de alguns dos seus contemporâneos".

Em vez disso, continua Martinho, os poemas do gaiense "atentam nos pequenos nadas do quotidiano, na banalidade de um dia-a-dia de limitados horizontes".

"Os textos falam de gente que passaja, vira, tinge a roupa, ou a deixa, depois de lavar, a enxugar de noite, para a vestir de novo de manhã, quando vai para o trabalho. Tudo isto numa linguagem simples", pode ler-se no prefácio.

O docente universitário realça ainda que a reedição surge num "contexto completamente diferente" da época em que foi publicado pela primeira vez, e em relação à edição coligida de 1967, inserida na coleção "Poetas de Hoje", da Portugália, onde foram também publicados outros poetas como Eugénio de Andrade, Carlos de Oliveira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Manuel da Fonseca, António Gedeão, Alberto de Lacerda ou Jorge de Sena.

"O volume de 1967, reaparecido agora num contexto completamente diferente do país e da lírica nacional, inseria-se numa coleção de grande prestígio à época, em que figuravam ou viriam a figurar nomes cimeiros da moderna poesia portuguesa", explicou Fernando J.B. Martinho.

Por outro lado, o realizador Joaquim Sapinho destaca, no posfácio, o lado de António Reis, como professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional (hoje integrada na Escola Superior de Teatro e Cinema), onde ensinava "a atenção às formas".

"Para António Reis, as formas tinham vida. O que ele ensinava era a atenção às formas. Retirava-nos da distração da história superficial", escreveu Sapinho.

Nascido na freguesia de Valadares, em Vila Nova de Gaia, há 90 anos, a 27 de agosto de 1927, António Reis trabalhou como empregado de escritório e colaborou com vários jornais e revistas, sendo ainda membro do Cineclube do Porto.

Além da atividade como poeta - embora tenha eliminado da biografia todos os livros menos "Poemas Quotidianos" e "Novos Poemas Quotidianos" -, foi no cinema que se destacou, primeiro como assistente de realização de Manoel de Oliveira, em filmes como "Acto da Primavera" (1962), depois como argumentista, tendo escrito os diálogos de "Mudar de vida", de Paulo Rocha, e mais tarde como realizador de documentários e obras de ficção, assumindo um papel importante na vaga do Cinema Novo português, na década de 1960.

Muitas das suas obras foram bem recebidas e premiadas em festivais internacionais, como a curta-metragem documental "Jaime" (1974), que recebeu o prémio de melhor 'curta' no Festival de Locarno.

A 'docu-ficção' "Trás-os-Montes" (1976), co-realizada com Margarida Cordeiro, foi uma das obras de maior sucesso de António Reis, sendo exibida em quase duas dezenas de festivais e premiada em quatro, nomeadamente em Mannheim-Heidelberg, em Pesaro e em Valladolid, com grandes prémios e prémios da crítica.

"Rosa de Areia" (1989), "Raul Proença" (1986), "Ana" (1982) e as curtas-metragens iniciais "Do Rio ao Céu" (1964) e "Painéis no Porto" (1963) são outros filmes do realizador, a solo ou com Margarida Cordeiro.

Quando da estreia de "Trás-os-Montes", o cineasta João César Monteiro escreveu, na revista Cinéfilo: "Um dos mais belos filmes da história do cinema", "uma etapa decisiva e original do cinema moderno".

Na primeira edição do "Dicionário do Cinema Português", de Jorge Leitão Ramos, na entrada dedicada a António Reis (e Margarida Cordeiro), lê-se que o cinema do realizador "tem a ambição desmedida da poesia, único critério da sua verdade, do seu vigor", "sem paralelo" com nada já erguido. São "poemas fílmicos, belíssimos e solidários, majestáticos". "Dir-se-iam castanheiros...", conclui, as grandes e resistentes árvores dos soutos trasmontanos.

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