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Raúl Alarcón tem um napoleão de cinco metros à espera em Valongo

Logótipo de O Jogo O Jogo 15/08/2017 Alcides Freire

Raúl Alarcón é o homem das patilhas, conhecido no pelotão por El Caballo - "Olhem para mim. Como fico tão magro e sou muito grande, com as pernas tão finas, começaram a chamar-me assim aqui" -- e Máquina, por ser um portento a trabalhar, cumpriu finalmente o desejo de ganhar uma volta de prestígio.

O homem normal que é Raúl Alarcón (W52-FC Porto) deixou definitivamente para trás os maus momentos, do desemprego à necessidade de lavar carros, para tornar-se o radioso vencedor da 79.ª Volta a Portugal em bicicleta. Alarcón é um tipo simples, ou "normal" como prefere dizer. À frente dos microfones, liga a cassete do politicamente correto, não arrisca sair do tom. Mas quando os gravadores se desligam, mostra-se humilde, divertido, grato pela disponibilidade e atenção dos outros, conta histórias da equipa e fala, com admiração, dos colegas e do diretor desportivo Nuno Ribeiro, sempre com um sorriso rasgado, que, em nenhum momento desta Volta a Portugal, se apagou.

Contudo, as aparências enganam, e o sempre impávido alicantino, que se assume como muito familiar, não é tão calmo como parece. "O Raúl é uma pessoa muito nervosa, quando alguém o 'pica', ele não tem calma nenhuma. Muitas vezes tenho de ser eu a meter-me ao meio para acalmá-lo. Ele perde a paciência muito facilmente. Tem um feitio muito próprio e, quando não gosta das coisas, amua bastante. Mas comigo não tem essa hipótese, porque lhe dou logo na cabeça", revela o grande amigo Rui Vinhas.

Ainda assim, o vencedor da Volta de 2016 desfaz-se em elogios àquele que considera seu irmão, dizendo que o seu colega da W52-FC Porto é "uma pessoa dez estrelas". "A maior qualidade é que é um verdadeiro amigo. Ele, por um amigo, dá tudo", completou, revelando que o gigante espanhol (quase 1,90 m) perde-se pelos napoleões de uma pastelaria em Valongo e que até tem prometido um de cinco metros para festejar o triunfo na Volta a Portugal.

Muita coisa mudou na vida de Alarcón até chegar aqui. "Comecei nas bicicletas com 11, 12 anos. A minha família sempre gostou de ciclismo. Somos uns apaixonados pela modalidade e o meu tio já competia. Nessa altura, também jogava futebol, mas, quando tive de optar, percebi que o ciclismo me apaixonava mais e me assentava melhor", contou.

Em juvenil, deu nas vistas, com vitórias em várias provas nacionais, e sagrou-se vice-campeão de Espanha. A série de bons resultados conduziu-o à equipa de formação da Saunier Duval. "Estive lá dois anos, fiz boas temporadas, e passei muito jovem para o WorldTour, com 20 anos". Mas o fim abrupto da equipa, causado pelos positivos por doping de Ricardo Riccò e Leonardo Piepoli na Volta a França de 2008, deixou-o no desemprego.

"Foi um golpe muito duro. Estares no mais alto do ciclismo e, de repente, baixares dois, três escalões de uma penada é bastante duro", sublinhou. Só que o sempre combativo ciclista, nascido em Sax, a 25 de março de 1986, nunca se rendeu. Após uma breve passagem pela Comunidad Valenciana [2009], voltou a competir como amador. Em 2010, fez uma boa época, ganhou a Taça de Espanha, venceu o 'ranking' nacional, e várias corridas importantes.

"Nesse momento, pensei: 'se não me surgir nenhuma proposta, é porque tenho de desistir do ciclismo'. O telefone acabou por tocar, com Carlos Pereira a convidá-lo para ingressar na Barbot-Efapel (2011 e 2012). Mas seria no Louletano-Dunas Douradas que finalmente acabaria por confirmar o potencial que outros lhe reconheciam. Naquele dia, em Gouveia, palco da primeira das suas vitórias na prova rainha do calendário nacional, chorou agarrado ao amigo Vinhas, o responsável por convencê-lo a integrar a fuga que lhe deu o triunfo na sétima etapa de 2013, faz hoje precisamente quatro anos.

Àquele momento de glória, o seu primeiro no pelotão nacional, sucedeu-se novo momento de incerteza. No final de 2014, viu-se sem equipa e forçado a regressar à velha ocupação dos tempos de miúdo. "Tenho uns familiares que têm uma oficina de automóveis, onde há lavagem de carros. Desde pequeno que trabalhei lá. Quando és jovem, queres ganhar alguns tostões para não ter que pedir aos pais. Poupava o dinheiro e geria-o durante o ano para não ter de pedir. Mais recentemente, quando não renovei contrato com o Louletano, voltei lá, porque não sabia o que iria acontecer".

© Filipe Amorim

O destino (e Rui Vinhas) acabou por colocá-lo na W52, versão Quinta da Lixa. Trabalhador de equipa, homens de fugas, foi convertido no ano passado num potencial candidato à geral -- está à espera do veredicto do caso de Daniel Silva para saber se ocupou o último lugar no pódio, atrás do seu amigo e de Gustavo Veloso -, algo que confirmou este ano com uma sucessão de resultados 'inacreditáveis': vitória na Volta às Astúrias à frente do colosso Nairo Quintana, uma etapa na Volta a Madrid, onde foi segundo, e outra no GP Beiras, onde foi quarto.

O homem das patilhas, que é conhecido no pelotão por 'El Caballo' -- "Olhem para mim. Como fico tão magro e sou muito grande, com as pernas tão finas, começaram a chamar-me assim aqui" -- e 'Máquina', por ser um portento a trabalhar, cumpriu finalmente o desejo de ganhar uma volta de prestígio. "É um sonho tornado realidade". Agora pode fazer o que tanto gosta, festejar.

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