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REPORTAGEM: A saga de um brasileiro para levar a capoeira a áreas de conflito na RD Congo

Logótipo de O Jogo O Jogo 15/08/2017 Administrator

O mestre de capoeira Flávio Soares é a alma de um projeto inovador de promoção da não-violência junto de crianças congolesas através daquela arte marcial afro-brasileira.

"A Capoeira tem a grande missão de reconciliar a humanidade com a sua própria humanidade", é com este jogo de palavras que Flávio Alex de Mesquita Soares, também conhecido como Mestre Saudade, sai em defesa da arte marcial afro-brasileira para promover o seu ensino em áreas conflagradas pela violência.

Desde 2014, a Capoeira tem sido utilizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na República Democrática do Congo como uma estratégia para ajudar a ex-meninos soldado e a meninas vítimas de violência.

Abraçada pela agência da ONU, a chamada "Capoeira pela Paz" é uma iniciativa impulsionada pelo governo brasileiro com fundos do Canadá e da Organização Não-Governamental (ONG) AMADE-Mondiale e já envolveu cerca de quatro mil crianças na cidade de Goma, capital de Kivu do Norte.

"Realizamos atividades lúdicas que trabalham a psicomotricidade e tentam lidar com a problemática da violência infanto-juvenil através de uma linguagem simples. De um passado em que era mal vista e proibida no Brasil, é hoje um passo muito grande para a Capoeira estar em uma agência da ONU", disse à Lusa Saudade.

Aos 40 anos, Flávio ou Mestre Saudade é uma figura conhecida e amada por crianças na capital de Goma, onde se mudou em agosto de 2015 para tocar o "Capoeira pela Paz" e ajudar na formação de capoeiristas congoleses que trabalham no projeto com os meninos em centros de orientação e meninas no hospital Heal Africa.

Natural do município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, cresceu numa comunidade popular no bairro Antonina, uma das áreas violentas da cidade. Ao perder o pai, abandonou os estudos ainda adolescente.

"A minha infância foi misturada com conflito, a violência era constante. As memórias que tenho era correr para assistir o assassínio da noite anterior. A gente escutava o tiro e já sabia que alguém tinha morrido. Meu tio foi assassinado, tive amigos mortos e outros que entraram para o tráfico de drogas", relembra.

E foi assim que aos 13 anos conheceu a capoeira por um parente. Naquele momento, ela era como luta de autodefesa. Ainda adolescente, Saudade conhecera o seu mestre num projeto social, que lhe ensinaria os valores e a disciplina.

"A capoeira chegou num momento da minha vida que era um grande vazio. Fui acolhido e virou o meu signo de vida. A capoeira nunca mais me largou apesar dos momentos difíceis", disse. Mais tarde, começou a trabalhar com crianças nas favelas do Rio.

Aos poucos, Saudade foi desenvolvendo uma didática específica para usar a capoeira com fins pacíficos e pedagógicos. Em 2008, aceitou o convite da ONG Viva Rio para ir ao Haiti implementar esta metodologia no projeto "Gingando pela Paz" com adolescentes de gangues rivais nas ruas de Porto Príncipe.

"O trabalho com meninos de gangues no Haiti foi um batismo para mim. Foi lá que descobri a força da capoeira e pude ver como ela é utilizada na prática de forma social. Nós acertamos quando abrimos as aulas para ex-crianças soldado e crianças da comunidade".

Após quase uma década de atuação no Haiti, a capoeira aterrou na República Democrática (RD) do Congo para ajudar na paz. Agora o desafio era tentar recuperar crianças que haviam integrado as dezenas de grupos armados em Kivu do Norte.

Na última década, mais de 20 mil crianças soldado foram liberadas de grupos armados na RD Congo, segundo a UNICEF. O governo estima que mais de 3.500 crianças ainda estejam associadas a milícias.

"Criamos a metodologia veneno contra veneno. O que essas crianças mais têm desde que nasceram é problema. Nós levamos o problema para o centro da roda, que é o símbolo da capoeira. Na roda, todo mundo é igual e buscamos soluções. Usamos o que a criança tem no seu dia a dia para educar", explica.

E, assim, Saudade e seus dois colegas de trabalho congoleses, os capoeiristas Ninja e Karibu, trabalham diariamente para transmitir valores de respeito, união, responsabilidade e autonomia.

"Aos poucos oferecemos informações positivas e amor, como se estivéssemos a regar uma planta. Vemos que aos poucos, ela se torna uma flor. Espero poder ver a Capoeira crescer e ser usada cada vez mais para a construção de uma cultura de paz e diálogo", disse.

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