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REPORTAGEM: As experiências timorenses dos jovens do Agora Food Studio

Logótipo de O Jogo O Jogo 16/07/2017 Administrator

Natércia Tilman estuda direito, mas é na escola da cozinha aberta do Agora Food Studio, em Díli, um laboratório onde todos os dias se fazem experiências com produtos timorenses, que testa outra vocação: fazer sobremesas.

"Ainda não inventei nada. Mas já aprendi muita coisa. A fazer quiche e bolo de chocolate. Fazer coisas novas com produtos timorenses", disse à Lusa.

O restaurante/escola funciona no segundo andar de um dos principais centros de formação de línguas no país, o LELI, num espaço onde a cozinha é aberta e onde os empregados recebem quem chega para almoçar com boas vindas em coro.

Toda a parede do fundo é um quadro de lousa onde os funcionários e os clientes registam de tudo um pouco e onde um dia pode haver desenhos do Asterix, no outro uma casa tradicional timorense, um organigrama da cozinha ou um mapa alimentar de Timor-Leste.

As inspirações podem ser de fora - com fusão com cozinha japonesa, mediterrânica ou outra - mas os produtos são todos locais, desde o 'bar' de café, onde se podem degustar grãos de todo o país, ou o 'Budi Bar', onde se mostra a arte timorense de fazer pickles.

Lúcia Fernandes, 21 anos e chefe da cozinha, explica que o Agora lhe permite cozinhar e ser criativa: "todas as semanas testamos coisas, pensamos em formas diferentes de fazer". Depois provam e, se funciona, esse é o menu da semana.

Talvez, no futuro, abra um restaurante seu. "Mas será sempre com comida timorense. Há produtos que se foram perdendo porque as pessoas deixaram de os saber cozinhar. A avó sabia, mas morreu e a geração mais jovem já não sabe como se faz", explica.

Hoje, por exemplo, o menu Obendo permitia degustar-se 'tapas' japonesas feitas com flor de bananeira, feijão vermelho, farinha de cassava, feijão verde e 'budu' de papaia, um condimento feito com lima, pimenta, sal, cebola e óleo de coco.

No prato vai também fos mean (o arroz vermelho de Maliana) com kalik, um fruto que tem que ser cozinhado 12 vezes antes de poder ser consumido.

Aqui tudo é local, desde os condimentos - pimenta, sal, curcuma ou gengibre - aos outros ingredientes - farinha de cassava, flor de bananeira, tamarindo, tomate ou a 'mostarda', uma hortaliça que se assemelha ao grelo.

Há pão de banana e bebidas pouco usuais: sumo de tamarindo e menta, sumo de curcuma, tomate e banana, sumo de graviola ou então um copo de lekirauk ikun, literalmente 'Cauda de Macaco', um cato de flores vermelhas que cresce perto das plantas do café.

Maioritariamente frequentado por estrangeiros, o Agora trabalha com o que há no mercado, incorporando a sazonalidade como exigência e principio.

"Era bom que os timorenses viessem cá mais para ver que não temos que importar tanto os produtos dos outros países", diz Natércia Tilman, de 19 anos.

O projeto que arrancou há cerca de um ano é de um casal australiano, Mark Notaras e Alva Lim, que viveu em Timor-Leste durante mais de quatro anos a trabalhar em projetos de desenvolvimento associados ao setor agrícola e alimentar.

"Quisemos apostar num projeto com produtos locais, que fosse sustentável. O nosso modelo é diferente e por isso fechamos um dia por semana para formação. Aprendem a fazer", explica Notaras.

Um dos efeitos do rápido desenvolvimento em Timor-Leste, especialmente na capital, tem sido a crescente importação, muitas vezes de produtos mais baratos, cujo consumo representa quase uma questão de estatuto.

"Há muitos que acham que comida local, sazonal, saudável e nutritiva é comida dos pobres. E por isso trocam-na por comida internacional, que é promovida nos media, de pior qualidade. Os produtos timorenses têm muito sabor", sublinha.

"Criatividade gera motivação. Não queremos um sistema muito estruturado que trave essa criatividade. Queremos continuar a oferecer uma gama de sabores interessante", diz.

E apenas com os produtos da época que se vendem nos mercados tradicionais.

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