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REPORTAGEM: As memórias de uma tragédia que há 20 anos mudou a Ribeira Quente, nos Açores

Logótipo de O Jogo O Jogo 29/10/2017 Administrator

Há uma imagem que António Rita reteve da tragédia da Ribeira Quente, que há 20 anos matou 29 pessoas e mudou, para sempre, a freguesia do concelho da Povoação, na ilha de São Miguel, Açores.

"Coube-lhe a 'ele' cinco caixões, da mulher e de quatro filhos. É uma imagem que me chocou bastante", diz António Rita, de 74 anos.

'Ele' era um pescador que naquela noite ficou no porto de Ponta Delgada a "guardar" a traineira "Pérola dos Açores", de que António Rita era mestre.

António Rita, que foi depois presidente da junta, recorda quando, na madrugada de 31 de outubro de 1997, a tragédia lhe bateu à porta: o rés-do-chão de sua casa tinha sido atingido por água, lama e estava "tudo partido".

Após conseguir sair de casa, teve outro embate, a notícia de que "estava tudo morto na canada da Igreja Velha", mas só o amanhecer deixou claro que aquela era, mesmo, a realidade.

"Foi terrível mesmo", repete António Rita, para que não subsistam dúvidas, para que não se esqueçam as vítimas desta tragédia, cujos nomes jazem, também, numa lápide na freguesia.

É lá que estão os nomes das duas filhas e da mulher de José Cardoso, hoje com 54 anos, que a Lusa encontrou na marginal da Ribeira Quente, avenida que ganhou depois daquele dia a designação de "31 de Outubro".

"Tinha 34 anos, esposa e duas meninas. Uma ia fazer sete anos e a outra tinha 25 dias", afirma.

José Cardoso, que era maquinista no porto de pescas, escapou, depois de ter estado parcialmente soterrado quatro horas.

E como conseguiu continuar a vida? "Trabalhei noite e dia, muito, para esquecer. Tinha que fazer assim, se estivesse em casa era pior". E teve o apoio de familiares.

"Comecei uma vida de novo. Aquela acabou e comecei outra, tinha que ser. A vida continua, quando a gente morre não continua", refere.

Foi nesse renascer que José Cardoso tornou a casar, casamento do qual tem um menino de 6 anos e uma adolescente de 15. Continua a viver na Ribeira Quente.

"Gosto desta terra", justifica.

Daniel Cardoso Linhares, de 84 anos, morava na rua da Alegria e tinha uma mercearia na canada da Igreja Velha e outra na marginal.

"Vim para a loja às cinco da manhã. Estavam aqui duas mulheres e disseram 'está tudo arrasado'", conta Daniel Linhares, acrescentando que ao ver o que se tinha passado, com os "amigos todos enterrados", a tristeza tomou conta de si.

Daniel Linhares recua no tempo para dizer que aquele "era o lugar mais sossegadinho" da freguesia, abrigado do vento e longe do mar e da ribeira, fontes de preocupação para a população que à data somava umas mil pessoas.

Foi no mar, ao largo de São Miguel, que Jorge Leite, pescador de 54 anos, recebeu a notícia: "Houve uma tragédia na Ribeira Quente".

O barco segue caminho para terra, em Ponta Delgada, e com o coração nas mãos, Jorge Leite "corre" para a Ribeira Quente, com o pensamento de que moravam 13 pessoas na casa da família, número que poderia ser de azar.

Ao chegar, Jorge Leite viu a casa da família arrasada. "Pensei logo que não tinha família nenhuma viva", lembra.

O pescador só se sentiu em porto seguro quando soube que a família estava a salvo, mas depois foi um misto de sentimentos. "Fiquei contente. Mas morrer tanta gente deixou-me triste".

Da tragédia, o jovem Márcio Piné, também pescador, recorda o cheiro a lama e a ajuda que ele e muitos outros foram dar para tentar salvar os que lutavam pela vida, como um homem que tinha uma viga junto ao corpo.

"Salvou-se, mas a mulher e a filha..." e não completa a frase.

Ricardo Linhares, de 49 anos, manobrador de máquinas no porto, acordou com o barulho das derrocadas e, depois, dos gritos "a pedir ajuda, socorro".

Da Ribeira Quente de 1997 à de hoje há uma "diferença grande", diz-se pela freguesia que, agora, "está bem protegida", mas continua a ter um único acesso rodoviário.

"Melhorou, mas as pessoas que se foram embora não podem estar a gozar isto", lamenta Ricardo Linhares.

António Rita acrescenta: "Triste é daqueles que morreram. A freguesia ficou mais desenvolvida. Depois de qualquer tragédia, as coisas melhoram".

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