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REPORTAGEM: 'Avós' de portugueses e noruegueses já se uniam em torno do bacalhau

Logótipo de O Jogo O Jogo 24/09/2017 Administrator

O bacalhau tem marcado as relações entre a Noruega e Portugal, iniciadas num encontro provável entre vikings e romanos, e que hoje continuam nas trocas económicas e de sabores.

Johnny Thomassen, representante em Portugal do Conselho Norueguês das Pescas, uma organização empresas exportadoras tutelada pelo Ministério do Mar local, conta como o bacalhau seco acompanhava o povo marinheiro da Noruega, por se conservar durante as viagens e ser uma fonte de proteína.

Na Península Ibérica, os nórdicos ter-se-ão cruzado com romanos e o seu sal. E uma troca terá iniciado a tradição do 'fiel amigo'.

"Não está cientificamente provado, mas é muito, muito provável a troca", relata à Lusa o responsável, que revela que o navegador Vasco da Gama também levava bacalhau nas provisões.

A dieta mediterrânica adotou o peixe pescado a Norte do globo, onde a abundância ditou outra tendência de consumo: os noruegueses têm preferido o bacalhau fresco e os mais abastados preferem iguarias mais exclusivas.

Em Portugal, um eventual sucesso de bacalhau fresco, avalia Johnny Thomassen, apenas seria possível com outro nome, por há muito se ter determinado uma imagem e um paladar do 'fiel amigo'.

Com uma quota a rondar as 400 mil toneladas anuais, depois da divisão com os vizinhos russos, os noruegueses exportam 98% do bacalhau pescado, com Portugal a ser de longe o principal destino, ao receber um terço do total.

A 'fidelidade' ao bacalhau tem sido mais forte em Portugal do que na Noruega, como relata Helge A. Wold, que trocou uma vida de escritório há vários anos por uma fábrica artesanal de bacalhau, na zona norueguesa de Tromso, com uma produção de seis toneladas anuais.

Desde "há dois ou três anos" que os consumidores no país estão mais recetivos ao peixe, testemunha o empresário, justificando com o desejo de comer de forma saudável, descobrir sabores novos e a tendência de olhar para um produto com história.

Na visita guiada à fábrica que fundou e que emprega oito pessoas, Helge conta que veio de uma família de pescadores e acabou por perceber que era a área que o fazia feliz. E soando a espírito de missão, conta o objetivo que traçou para levar os noruegueses a comer mais bacalhau, além da época do Natal, e acabar com a fama do peixe ser comida de pobres.

"Na Noruega, não tínhamos orgulho" num produto que continua por se massificar à mesa neste país escandinavo.

Em Portugal, apontado como o país preferido e onde regressa sempre que pode, recordou os sabores simples de infância, com a diferença a ser apenas entre o uso de azeite e de manteiga.

Outro testemunho luso que o acompanha é a revenda de bolinhos de bacalhau, exatamente com esse nome, o único produto que não nasce na sua Halvors.

Por seduzir estão também mais jovens noruegueses para a carreira de 'chefs' de cozinha, garante Said Nordin, responsável de uma escola profissional de Tromso, a Breivika VGS.

Enquanto três alunos, entre os 17 e 18 anos, apresentam as suas criações gastronómicas com bacalhau, Nordin explica que longe vão os anos letivos com a escola a lecionar na sua capacidade máxima: 150 estudantes. Agora, conta uns 70 alunos.

E quando questionado sobre as razões do desinteresse, Said Nordin enumera os horários prolongados, os fins de semana de trabalho, assim como a importância dada a outras carreiras. "Uma questão de 'status'", continua o professor, garantindo que as três escolas de cozinha da região sofrem do mesmo mal: uma taxa diminuta de alunos.

Assim, quem se forma tem emprego garantido e outras vagas vão sendo preenchidas com 'chefs' 'importados'.

Quando a conversa se centra nos pratos, a palavra tradição é logo utilizada. Mas a palavra inovação é rapidamente acrescentada, sobretudo com as influências que têm levado para a cozinha as formas de confecionar o bacalhau em Portugal, Espanha, América do Sul e Ásia. E, para o ano, com a planeada chegada de alunos portugueses à escola, no âmbito de um intercâmbio de estudantes, a história continuará a ser escrita com sabor a bacalhau.

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