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REPORTAGEM: Bebidas energéticas "low cost" procuradas para assegurar casamento no centro de Moçambique

Logótipo de O Jogo O Jogo 28/10/2017 Administrator

As bebidas energéticas de baixo preço estão a ser cada vez mais procuradas e a substituir raízes afrodisíacas para curas de amor e para dar vida a casamentos, a maioria polígamos, no centro de Moçambique.

Um nutricionista ao serviço das Nações Unidas disse à Lusa que a moda ameaça tornar-se num problema de saúde pública.

Em garrafas de plástico ou latas, as bebidas nacionais e importadas são vendidas a preços que variam entre os 15 e 50 meticais (21 a 70 cêntimos de euro) e disputam as vendas com refrigerantes, bebidas alcoólicas, bolachas e chips nas principais esquinas e terminais rodoviários.

O cenário repete-se ao longo da entrada N7, a estrada mais usada por camionistas na província de Manica.

"Frozy e Dragon vendem mais que refrescos e água mineral. É o negócio que está a dar lucro. Chego a despachar entre 40 a 50 latas por dia para passageiros e camionistas", disse à Lusa, Fernando Pedro, vendedor ambulante, enquanto entrega mais bebidas pela janela de um "chapa" (transporte coletivo) no terminal de Chimoio, capital provincial.

Um outro comerciante, Eliezer Vandro, diz-se surpreendido com o lucro da venda de bebidas energéticas nos últimos meses e diz que a procura se deve "à descoberta do efeito" dos estimulantes.

Enquanto uns procuram romper com a fadiga e melhorar o desempenho no trabalho, sobretudo durante a condução noturna de longo curso, outros querem outro tipo de ajuda.

"Eu tomava pelo gosto agradável, mas depois percebi que, quando tomava, satisfazia as minhas mulheres. Então, passei a consumir para estimular as relações e assegurar o lar", disse, Frigolino Temusse, 27 anos, poligamo, entre gargalhadas.

De mochila aberta, arruma algumas latas de bebidas acabadas de comprar no terminal rodoviário.

Vai de regresso a casa, em Bunga, distrito de Guro, uma zona pobre e em que faltam quase todos os serviços básicos, mas muito famosa devido aos casamentos prematuros e polígamos.

"Quando comecei a tomar, vi que o meu desempenho melhorou lá em casa. Gasta-se um pouco de dinheiro, mas vale a pena" disse à Lusa, Gabriel Naucho, entre sorrisos envergonhados.

Quase todos admitem que os estimulantes os deixam mais alerta, sendo que alguns já se dizem viciados, com necessidade de tomar doses cada vez maiores para se obter o mesmo efeito.

"Quando você chega cansado em casa, é suspeito de traição, mesmo que não seja o caso. Eu sou pedreiro, gasto muita força na obra e então busco auxilio para me garantir lá em casa" disse Patricio Barunde.

Em média, toma duas latas por dia e confessa que desconhece os riscos do excesso.

Um camionista, Frank Bernath, disse à Lusa que recorre às bebidas energéticas para impedir a fadiga e garantir o cumprimento do seu plano de trabalho - com tempo contado para sair do porto da Beira e chegar aos países africanos do interior e vice-versa.

"Geralmente viajo com metas, porque ganho por viagem. Quanto mais viagens fizer, mais dinheiro entra, por isso tenho energéticos como aliados para combater cansaço e sono", disse um outro camionista de longo curso, à saída do porto da Beira, com destino ao Maláui.

Um nutricionista ao serviço da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) disse à Lusa que esta "febre" de consumo pode tornar-se num problema de saúde publica.

David Berlito teme que nos próximos anos haja um crescimento de casos de hipertensão devido ao consumo excessivo de cafeina, incluída nas bebidas energéticas.

"A cafeina é hipertensora, por isso, quando as pessoas a consomem, ficam ativas" e ficam mais propensas a insónias e a alcançar uma ereção, precisou o nutricionista.

Mas os riscos são demasiado altos, refere.

O consumo exagerado de cafeina provoca perda de cálcio, provoca intoxicação, náuseas, taquicardias, tremores, irritabilidade e até a morte.

"Isso é levado como moda, estimulado por preços baixos", mas "pode desaguar num problema de saúde publica" concluiu David Berlito, que considera urgente haver campanhas de sensibilização a alertar para o assunto.

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