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REPORTAGEM: Encher os pneus no passeio é sustento nas ruas de Luanda

Logótipo de O Jogo O Jogo 28/10/2017 Administrator

A crise económica angolana e os buracos que teimam em resistir pelas ruas de Luanda faz crescer o negócio ilegal das recauchutagens na capital angolana, empregando na sua maioria jovens, muitos deles sem nunca terem recebido qualquer formação.

No centro da cidade, mas em maior número nos arredores de Luanda, é possível encontrar dezenas de recauchutagens, sobretudo em zonas de grande aglomerado de pessoas como mercados, ruas e paragens de táxi.

A estrada ou os passeios são os locais eleitos para muitos jovens efetuarem esses serviços, por entre o amontoado de pneus velhos e um compressor, marcas da presença de recauchutagens, cobrando de 100 kwanzas até 1.000 kwanzas (50 cêntimos a cinco euros), dependendo do tipo de serviço.

"Aqui remendamos pneus, aplicamos chourição (remendos), trocamos jantes, vendemos pneus novos", contou à Lusa Adelino Bambi, sublinhando que a falta de ar nos pneus das viaturas é o serviço mais solicitado.

Simultaneamente, face à procura, serve para garantir a comida para o dia: "Normalmente aqui aparecem mais clientes a solicitar o ar para os pneus, e em função do dia, nós cobramos para encher um pneu entre 100 e 150 kwanzas [até 75 cêntimos de euro]", afirmou.

Este recauchutador, de 27 anos, trabalha na zona do São Paulo, em Luanda, diz não ter qualquer formação no ramo, daí estar apenas a lutar pela sobrevivência, luta que "fica difícil" no "tempo seco devido a fraca afluência de clientes".

"Tem dias que variam e aí podemos conseguir entre 2.000 e 3.000 kwanzas [10 a 15 euros] para levar para casa e sustentar a família, porque esse tempo seco é sempre fraco porque angariamos mais dinheiro na época chuvosa", adiantou.

Uma das maiores dificuldades, conta, são os agentes da fiscalização, por falta de regulamentação para estas atividades: "Os fiscais, às vezes, incomodam. Nos últimos tempos ainda conseguimos trabalhar".

Precisamente em frente às instalações do Ministério da Energia e Águas de Angola trabalha há seis meses, com um espaço improvisado na rua, Adriano Mesquita de 29 anos. Hoje desconhece se exercício da atividade no passeio constitui ou não uma transgressão administrativa.

"Não sei, porque apenas trabalho aqui há pouco tempo. Somos cinco pessoas e temos um gerente que vem no fim do dia e nós damos 2.500 kwanzas [12 euros] por dia e o resto fica para nós. Nunca nos informou se a nossa recauchutagem está ou não legal", explicou.

Sem qualquer formação no ramo, Adriano Mesquita explica que o que rentabiliza a atividade são os serviços de ar que prestam aos automobilistas, cobrando entre 100 e 150 kwanzas.

"Estamos com o dia-a-dia de altos e baixos porque agora em Luanda temos muitas recauchutagens, não somos os únicos. Então há dias que a sorte não vem aqui e vai noutra recauchutagem", desabafa.

A atuação dos serviços de fiscalização, segundo o recauchutador, não se restringem apenas no funcionamento das recauchutagens, mas sobretudo aos automobilistas que quando procuram pelos serviços inviabilizam muitas vezes o trânsito automóvel.

Nos mercados de Luanda as recauchutagens também marcam presença em grande número e foi no Mercado dos Kwanzas, município do Cazenga, que Paulo Matondo se iniciou na atividade, já lá vão dois anos.

"Temos o compressor e os pés de cabra, material para desmontar os pneus. Temos ainda o chourição e a pistola para aplicar o ar ou tirar parafusos. Os dias variam mas em média podemos atender cerca de 20 clientes", contou.

A falta de emprego leva Paulo Matondo a desempenhar esse tipo de serviço no mercado, para conseguir algo para sustentar a família, onde segundo conta não tem havido limitações dos serviços de fiscalização.

"Porque eles [fiscais] estão sempre aqui na recauchutagem, a solicitar ar para encher os pneus dos carros deles, então, apenas dizem que temos que manter sempre aqui o espaço limpo e vamos trabalhando", concluiu.

Relato diferente vem de Menakuanzambi Victor, proprietário de uma recauchutagem na rua direita do Hoji-ya-Henda, Luanda, que afirma ser importunado muitas vezes pelos serviços de fiscalização sobre a legalização da atividade.

"É complicado porque primeiro não posso parar porque é aqui onde sai o meu pão, e segundo é que eu mesmo já tentei legalizar a recauchutagem porque. Trabalho aqui com mais três jovens e não consigo porque são muitos documentos e muitos gastos", revelou.

Acrescenta que já passou por situações em que os fiscais chegaram e "levaram o material", mas a falta de soluções obriga a regressar ao mesmo: "Como não temos muitas alternativas, estamos sempre aqui na batalha".

Segundo o mesmo gerente, a atividade é mais rentável em época chuvosa, devido os buracos nas estradas e à chuva que danifica rapidamente os pneus, mas ainda assim os clientes que aparecem são sobretudo taxistas, nas primeiras horas do dia.

"Nós abrimos a recauchutagem as 5:00 e nesse período também conseguimos atender muitos clientes, sobretudo para remendar os pneus ou as câmaras-de-ar, porque por volta das 8:00 ou 9:00 a correria de táxi já é maior devido o pessoal que vai ao serviço", concluiu.

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