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REPORTAGEM: Incêndios: Em Degolados, Mação, ficou a destruição, a dor e as críticas ao socorro

Logótipo de O Jogo O Jogo 27/07/2017 Administrator

Mação, Santarém 27 jul (Lusa) -- A aldeia de Degolados, freguesia do Carvoeiro, Mação, foi das mais afetadas nos últimos dias pelo fogo, que deixou um rasto de destruição, casas queimadas, hortas dizimadas e um sentimento de dor e tristeza na população, que critica o socorro.

Sentado num banco de madeira, junto a um tanque cheio de água, agarrado a uma bengala e de chapéu branco, está Mário Matos, 84 anos, que, de lágrimas nos olhos, conta que no final da tarde de terça-feira ele e a mulher, de 82 anos, sentada ali próximo, tiveram de ser retirados da habitação quando as chamas se aproximavam violentamente. Salvou-se a casa, o resto ardeu tudo.

"Tocou nos barracões onde havia lenha, isso queimou tudo. Fiquei sem nada. Tinha aí muito eucalipto que daqui a uns anos dava muito dinheiro e agora fiquei sem nada", relata, emocionado, apontando para o monte pintado de cinzento, com árvores negras e despidas.

Morador há 60 anos nesta aldeia, o octogenário refere que nunca viu nada assim: "Estragou tudo, estragou a vida de muita gente e eu sou um deles", afirma.

A cerca de 300 metros está o centro da aldeia, onde vivem mais de duas dezenas de pessoas, a maioria idosos. Quando se entra agora em Degolados percebe-se da dimensão do incêndio e do rasto que deixou: casas destruídas, hortas e culturas dizimadas e barracões deitados abaixo.

"Aquilo foi tão rápido. Estive ali na varanda a safar o telhado mais o meu neto. Não safámos o quintal, as mangueiras, mas safámos as cabras e dois cãezitos", conta Adelino Pinho, 70 anos, que se recusou a abandonar a sua casa, ficando para combater o fogo.

O morador compara o incêndio a uma "bomba" que "limpou tudo", mas critica a atuação dos meios de socorro, sentimento que é partilhado pelos vizinhos, que entretanto se juntaram na aldeia.

"O fogo vinha com bastante força. Quando o lume ainda vinha longe, naquele largo, onde o meu cunhado tinha umas cabras, estavam lá quatro carros da GNR. Quando ouviram o barulho do lume pegaram nos carros e abalaram. Ficámos sozinhos", acusa.

O septuagenário critica também a atitude dos bombeiros, que, conta, se limitaram a ir buscar água.

"Os bombeiros foram encher além ao tanque do meu cunhado. Isto a arder, abalaram com a água daqui. Ficámos com o depósito vazio, nem água para beber a gente tinha nas torneiras. Ficaram secas. Não apareceu aqui bombeiro nenhum", afirma, visivelmente indignado.

Adelino Pinho sublinha que as casas consumidas pelas chamas estavam todas desabitadas, mas que algumas se encontravam em condições para serem ocupadas. O habitante de Degolados acredita que pelo menos uma das habitações que ardeu podia ter sido salva.

"Quando foi rente à noite, já eram umas dez e meia, onze, apareceu um carro dos bombeiros. Veio apagar as telhas que já estavam no chão. Foi o trabalho deles. Deixaram queimar aquela casa ali em baixo porque eles quiseram. Estava a começar a arder, a gente a dizer-lhes, pegaram no carro e foram-se embora", relatou, perante a mulher, o neto e os vizinhos.

Viveram-se momentos de pânico, de impotência e de indignação.

"Chegámos a um certo ponto em que ficámos atados de pés e mãos. Não tínhamos água, não tínhamos eletricidade, ficámos sem água da rede, porque os bombeiros vieram cá buscar a água, não sei para onde é que a levaram, e isto a arder. A água pertencia aqui", acrescentou Adelino Pinho.

A tristeza, a dor e um sentimento de perda são os estados de alma entre os habitantes desta aldeia. O fogo destruiu-lhes o trabalho de anos, as recordações de uma vida. Já as memórias destes dias vão ficar e durar por muito tempo.

"Só sei que fugi daqui para Mação com os meus filhos. Quando vi que o fogo estava a chegar fugi e não tive coragem de ficar aqui com os meus filhos. Quando regressei vi esta tristeza, tudo queimado. Nem sei explicar, isto é uma tristeza, tudo derretido. As casas, as pessoas e os animais foram a única coisa que se salvou", afirmou Elisabete Mesquita, de 27 anos.

Antes do regresso a Mação, distrito de Santarém, os moradores perguntavam: "E agora, como é que vai ser? Vem alguém aqui falar connosco? Fazer o levantamento dos danos? Não sabemos de nada", lamentavam.

A caminho de Mação, o cenário era desolador: quilómetros e quilómetros de floresta ardida, hectares e hectares de terra queimada, pontuados por alguns carros de bombeiros.

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