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REPORTAGEM Incêndios: Penhascoso em festa para reagir ao fogo que isolou a aldeia de Mação

Logótipo de O Jogo O Jogo 19/08/2017 Administrator

Um dia depois de ter estado isolada pelas chamas, a aldeia de Penhascoso está em festa para vincar que o fogo queimou tudo, menos a identidade da "aldeia do rock" e a coragem da população.

"Vivemos um inferno, mas a nossa força e coragem é fazer a festa para reagir e dar ânimo à população", disse hoje à agência Lusa Daniel Jana, da Comissão de festas de Penhascoso.

Situada no meio da serra, no concelho de Mação, distrito de Santarém, a aldeia esteve, na noite de quarta-feira, "cercada de chamas por todos os lados, com todas as entradas fechadas, e sem um bombeiro para proteger as casas e as pessoas", lembrou Daniel.

Nas horas de aflição valeram à população "quatro 'kits' de ataque aos incêndios", dois da Junta de Freguesia, um de uma freguesia vizinha e um de um particular.

Foi com os cerca de 700 litros de água de cada 'kit' que grupos de rapazes de aldeia, molharam telhados e quintas tentando manter as casas a salvo das chamas.

Depois de uma semana a ajudar a combater fogos na região e "a dormir uma ou duas horas por noite", só quando viu controlado o fogo na aldeia, na madrugada de quinta-feira, é que Daniel se lembrou que "faltavam 24 horas para começar a festa".

"Ponderámos se devíamos fazer ou não e concluímos que o fogo não nos ia vencer", afirmou, acrescentando: "as chamas tiraram-no tudo, mas substituímos logo todas as placas de entrada da aldeia, porque a nossa identidade o fogo não destrói".

As placas provisórias sinalizam as entradas de Penhascoso, mas nas redes sociais o apelo é para que se faça jus à alcunha de "aldeia do rock" e para que "os familiares que estão fora e as pessoas de outras localidades venham à festa", que decorre até domingo.

O apelo já deu frutos na primeira noite de festa, sexta-feira, mas a expectativa é de que hoje "haja mesmo muita gente", espera Daniel.

Mesmo que para chegar ao recinto seja preciso atravessar quilómetros e quilómetros de terra queimada, que hoje de manhã ainda fumegava em vários locais ao longo da Estrada nacional 3, que liga Mouriscas à aldeia.

Na povoação, onde o fogo domina as conversas no café local, os populares aplaudem a decisão da comissão de festas que em 24 horas montou todas as estruturas para que o rock voltasse a ouvir-se no fim de semana.

Mas nem assim Eduarda Dias esquece o "filme de terror" em que participou tentando salvar a sua casa, a da mãe e a da filha.

"Os kits", um dos quais estava a ser usado pelo marido, salvaram as casas, as sete ovelhas, os três porcos e as 30 galinhas.

"Agora não temos o que lhes dar de comer", lamentou, para justificar a pouca vontade de "andar em festas", apesar de concordar com a iniciativa da comissão.

"Eles têm tanta vida, são jovens, e têm que a viver porque vimos jeitos de morrer aqui todos", disse.

Fernando Lourinho Valente, emigrante em França e a gozar férias em Penhascoso, ainda hoje não sabe onde arranjou "forças para salvar a casa", mas, não tem dúvidas de que ficou "a saber o que é o inferno".

Na manhã de quarta-feira encheu de água "tudo o que podia" e nessa tarde, quando viu chamas na serra, gritou para a mulher "foge daqui que isto vai arder tudo".

Sozinho, depois de ter ficado "sem água e sem luz", apagou com a água que tinha acumulado as chamas em volta da casa, a primeira da aldeia, e quase encostada à floresta que a rodeia.

E quando a água acabou "foi com os pés a mandar areia" até ficar com "as botas derretidas e os pés todos queimados das brasas", recordou, com as lágrimas a rolar pela cara ao mostrar as mazelas de um combate "desumano".

"Gritava eu, gritava o meu vizinho e nem um bombeiro" lamentou sem esconder a raiva por o socorro só ter chegado quando "já tinha apagado o fogo em volta da casa e apareceu um carro do comando [dos bombeiros] com dois bombeiros a dizerem-me que tinha que sair dali".

Não saiu. E até voltar a França, na próxima semana, pouco tenciona sair de casa.

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