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REPORTAGEM: Medo e alívio a bordo do "Viana do Castelo" no salvamento de migrantes no Mediterrâneo

Logótipo de O Jogo O Jogo 28/10/2017 Administrator

A menina, esguia, morena, tinha o olhar assustado quando a lancha semirrígida portuguesa se aproximou do barco dos migrantes, a balançar no mar azul do Mediterrâneo, e quando a subiram, ao colo, a bordo do "Viana do Castelo".

Eram 15:25 de sexta-feira. O momento foi de grande tensão. Não é fácil conseguir acalmar mais de quatro dezenas de homens dentro de um barco sobrelotado que querem entrar no navio que os salvou do mar, vindos da Tunísia, e que queriam (e querem) chegar à Europa. Chegaram hoje ao porto de Pozzallo, na Sicília, Itália.

Recuando a sexta-feira. Os fuzileiros conduziam a operação. "Um de cada vez. Sentem-se. Um de cada vez", gritava, em francês, um deles. Abaixo, encostado à amurada do navio, o barco velho em que viajavam balançava. Muito. O medo via-se na cara dos migrantes tunisinos amontoados para sair do barco que os trouxe da costa da Tunísia até ao largo de Lampedusa, a ilha-símbolo da crise dos refugiados de 2014. O perigo, se todos se concentrassem num dos lados, era o barco virar-se.

Os minutos passavam devagar. A confusão era muita. Primeiro, subiu a criança, de cinco anos. Depois a mãe -- são assim as regras. O pai era um dos 46 tunisinos que, de olhar assustado, esperavam para subir a bordo. E assim foi. Um a um, quando se restabeleceu a calma possível.

Chegados a bordo, tiram as mochilas e sacos, quem os tem. Primeiro, são revistados, depois é-lhes colocada uma pulseira com um número, do 01 ao 48, a que corresponde um saco com os seus pertences.

Os nomes são tunisinos, Salim, Kazim, Ahmed. Há quem diga ter pago 1.500 ou 3.000 euros para fazer a travessia de cerca de 250 quilómetros, de Sfax para Lampedusa. Há uns mais andrajosos do que outros. Quase todos estão molhados. Há quem calce ténis de marca, quem tenha telemóveis da Samsung, blusões de marca.

A calma vai-se restabelecendo. Os inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) vão identificando, um a um, os migrantes. Sob o sol do Mediterrâneo, a operação estende-se por mais de uma hora e meia. Uma outra equipa, um médico e uma enfermeira, avalia o estado de saúde dos migrantes -- nada de preocupante.

O tempo passa. Mais de uma hora e meia até se completar o processo em que cada um deles recebe um cobertor castanho escuro, grosso, para enfrentar o frio da noite, uma garrafa de água e bolachas. Às 17:10 (16:10 em Lisboa) o processo está concluído.

Lá atrás, na área destinada aos migrantes, tapada com um toldo, vão-se alinhando os homens, lado a lado, com os cobertores castanhos. É o momento da descompressão. Uns dormitam, outros conversam baixinho. Depois dos momentos de tensão e desconfiança, há um olhar de alívio naqueles homens, agora a salvo num navio que nada tem a ver com a embarcação velha em que navegavam, diziam, há dois dias.

O comandante Paulo Galocha, com o sargento dos fuzileiros e um dos inspetores do SEF, fala aos migrantes. Madali, que fala inglês, serve de tradutor. Os homens têm medo de serem devolvidos à Tunísia. O comandante diz que não. O seu destino será a Sicília. Uns põem o polegar para cima, quase todos agradecem - "Thank you", "merci".

Que estavam perdidos, disse-lhes o comandante, a dirigir-se a águas sírias. Por isso, dizia que foi "um milagre" este salvamento. Mais tarde, soube-se que o combustível só duraria para mais seis horas e que havia risco de incêndio, devido ao sobreaquecimento do motor.

Para as horas que se seguiam, são estabelecidas regras, os fuzileiros vão-se revezando a vigiar o grupo. Há casas de banho portáteis. Uns tentam telefonar às famílias, mas não há rede. E para os fumadores, foram distribuídos três maços de cigarros.

À Lusa, Madali, o intérprete ocasional, disse que pagou 3.000 dinares, a moeda tunisina, para dar o "salto" até à Europa. Não diz se quer ir para França, Alemanha ou qualquer outro local nem se tem familiares. Ele, como os outros, não fala muito. Há desconfiança.

Mas lá diz que tem "a esperança", isso sim, de chegar à Europa para "arranjar trabalho". Para onde quer ir? "Para todo o lado menos para a Tunísia."

Uma das marinheiras dá roupa seca à criança enquanto seca a que a tinha vestida. Brinca com a menina, ajuda-a a pintar desenhos e, com uma folha branca, brincam ao "quantos queres".

A noite cai, é servida uma refeição quente. Na tenda médica estão agora mãe e filha, está fresco e reina a calma enquanto o "Viana do Castelo" se dirige para o porto de Pozzallo, no sul da Sicília, onde irão desembarcar.

"Hoje foi um grande dia de satisfação, porque salvámos a vida" a 48 pessoas, resume o comandante do navio.

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