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REPORTAGEM: Sacrifícios no mundo da moda podem ser combatidos com sindicato

Logótipo de O Jogo O Jogo 19/10/2017 Administrator

Trabalhar 36 horas seguidas, desfilar com fome, pestanas e sobrancelhas arrancadas, cabelo queimado, pés em sangue são alguns dos factos do mundo da moda a que muitos modelos confessam habituar-se por amor à carreira, mas há quem defenda um sindicato.

Em entrevista à agência Lusa, no âmbito do arranque dos desfiles do Portugal Fashion, que começam hoje, no Porto, Mariana Dippolito, 25 anos, brasileira, a frequentar o segundo ano do curso de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, conta que a pior parte no mundo da moda é que algumas pessoas do circuito encaram as modelos apenas como "um produto" e não como seres humanos.

"Não nos tratam com o respeito que um ser humano tem direito. Pensam que somos um produto. Não têm delicadeza para lidar com a situação", relata Mariana, do alto dos seu metro e 77 (1,77m) de altura, defendendo que, além das agências, devia existir um sindicato para a profissão de modelo e para defender os direitos no trabalho.

"Já trabalhei 15 horas seguidas em determinados eventos. Às vezes não almoço, já tive de desfilar com dores nos pés, já levei alfinetadas e 'zipadas' [pele trilhada pelo fecho éclair], já me arrancaram sobrancelhas e pestanas. Fico revoltada, mas tudo fica na mesma, porque a maioria dos modelos não reclama. Sujeitam-se pelo ego e porque nem sabem lutar pelos direitos", descreve.

Eva Fisahn, 18 anos, nacionalidade luso-germana, estuda artes, está a tirar um curso profissional de ourivesaria e já fez alguns trabalhos como atriz, tendo aterrado nas passarelas aos 15 anos de idade.

Em entrevista à Lusa, enquanto se deixava pentear nos bastidores do espaço Bloom do Portugal Fashion, que decorre no Museu do Carro Elétrico, Eva realça que o trabalho de modelo é "duro" e que ela própria já desfilou com fome.

"Já fiquei muito tempo sem comer. Já senti fome. Já me queimaram o cabelo, já me trilharam a pele", enumera alguns dos desaires por que passou, em eventos de moda.

A jovem, que vai fazer seis desfiles na 41.ª edição do Portugal Fashion, conta que, no estrangeiro, ainda é pior do que em Portugal, tendo já visto cair de fome e cansaço algumas camaradas de profissão.

Outra parte negra na moda é muitas vezes marcarem trabalhos e depois desmarcarem, sem uma explicação.

"Lidamos com expectativas e não nos dão respostas", recorda Eva Fisahn, afirmando que a fuga aos momentos complicados passa muitas vezes por ter muito cuidado com a alimentação, tomando suplementos vitamínicos (zinco, ómega 3 e B12) e praticando ioga.

Tamaris Gomes, 19 anos, 1,75m, portuguesa, estudante de ciências de comunicação, conta, por seu turno, que já passou oito horas sem comer e 20 horas sem parar de trabalhar, mas o pior foi quando lhe cortaram o cabelo por engano ou quando lhe "fritaram o cabelo" com máquinas a escaldar e teve de andar meses a fazer tratamentos para conseguir recuperar.

A modelo portuguesa relata também que já ficou com os pés em ferida e a sangrar porque calça o número 40, e é muito difícil conseguirem arranjar o seu tamanho.

"Quase todos os desfiles ou trabalhos tenho de usar sapatos largos ou apertados que me deixam os pés em sangue".

Margarita Pugovka, 22 anos, nacionalidade letã-portuguesa, 1,74m, confessa que já trabalhou "36 horas seguidas, sem descanso".

"Esquecem que temos sentimentos. Somos tratados como cabides", desabafa Margarita Pugovka.

Marlon Nicolau, 26 anos, 1,91m, modelo português, disse à Lusa, por seu turno, que o mais difícil em eventos como o Portugal Fashion ou a Moda Lisboa são as horas que se tem de trabalhar seguidas, pois são muitos trabalhos em cadeia.

"Já passei 14 horas sempre a desfilar e a preparar desfiles", recorda, referindo que sapatos apertados, bolhas, números acima, números abaixo já é "habitual" e que, com o tempo, já se habituou a todas as situações.

No primeiro desfile da Inês Calado, 13 anos de idade, as lágrimas correram-lhe pela cara, quando saiu da passarela. O motivo para o sofrimento foi o "nervosismo" e o "medo de cair", porque os sapatos estavam a "escorregar dos pés".

No final, Inês Calado confessou à Lusa que valeu a pena o sacrifício, porque foi a "concretização de um sonho".

O primeiro dia da 41.ª edição do Portugal Fashion no Porto, hoje no Museu do Carro Elétrico, fica marcado por dez desfiles de jovens criadores de moda, do "Espaço Bloom", uma plataforma dedicada a estilistas emergentes.

O Portugal Fashion continua na sexta-feira, na Alfândega do Porto, com destaque para os desfiles de Anabela Baldaque, Estelita Mendonça ou Diogo Miranda, antes de, no sábado, serem apresentadas as propostas de Katty Xiomara, Luís Buchinho ou Alexandra Moura, e termina no sábado, dia 21.

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