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REPORTAGEM: Tabanca, de símbolo de resistência colonial ao sonho de ser Património da Humanidade

Logótipo de O Jogo O Jogo 15/07/2017 Administrator

Símbolo de resistência colonial, a tabanca evoluiu, revitalizou-se e transformou-se numa das mais genuínas manifestações culturais de Cabo Verde, que tem como grande objetivo a classificação como Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Espécie de cortejo que mistura dança, música e encenação, a tabanca surgiu no século XVI, como forma de resistência ao poder colonial, sendo proibida até à independência de Cabo Verde de Portugal, em 1975.

Nascido em Achada de Santo António (ASA), o bairro mais populoso da cidade da Praia e de Cabo Verde, Luís Manuel Araújo, mais conhecido por Toresma, tem 51 anos e desde os oito que a tabanca faz parte da sua vida.

Começou em jeito de brincadeira, quando, com outros miúdos, todos exibindo espingardas feitas à mão, se penduravam nos carros ou iam a pé até São Domingos, concelho vizinho da Praia para "ver" sair a tabanca.

"Os nossos pais impediam-nos de fugir para seguir a tabanca", recordou Toresma à agência Lusa, indicando que antigamente era até proibido levar a manifestação cultural ao centro histórico da cidade da Praia, o Plateau.

Toresma, que ainda viveu a tabanca na "clandestinidade", diz que depois da independência, a manifestação ganhou outro dinamismo e mobilizou a população, e agora, diz, até há "brigas" entre os festeiros para ver quem tem a melhor roupa para os festejos.

"A tabanca está a evoluir cada vez mais, com destaque para este ano, em que teve muitos apoios", manifestou Toresma, coordenador do grupo de tabanca de Achada de Santo António, um dos três da cidade da Praia.

Toresma, que toca tambor durante os desfiles e é também organizador de um festival de tabanca no mesmo bairro, lembra que anteriormente o organizava praticamente sozinho, mas agora orgulha-se de poder contar com apoio de praticamente toda a comunidade.

Em declarações à Lusa, o historiador cabo-verdiano Jair Fernandes e também um dos dinamizadores da tabanca na Achada de Santo António disse que se trata de uma manifestação não só cultural, mas também de mutualidade, irmandade e congregação de valores sociais.

"Que (a tabanca) não seja entendida apenas como uma manifestação cultural, mas como sempre foi vista na sua essência embrionária, um espaço de mutualismo social", sustentou, dizendo que o objetivo é "resgatar valores" na Achada de Santo António, um bairro problemático.

Jair Fernandes recordou que antes da independência, a tabanca era vista como um "espaço de resistência do poder colonial", mas hoje é assumida como um "traço identitário da cultura e da vivência" do cabo-verdiano, particularmente das ilhas de Santiago e do Maio.

Mas, mesmo depois de ser aceite por todos, o historiador notou que a tabanca esteve "praticamente moribunda", tendo-se falado inclusive da sua morte, sendo prova disso o fim de vários grupos, restando quase duas dezenas a nível nacional.

Mas hoje, prosseguiu, a tabanca revitalizou-se, e os seus impulsionadores já têm os objetivos traçados: primeiro será a sua classificação como património nacional, para, depois, tentar ser Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, como também já manifestou o ministro da Cultura, Abraão Vicente.

Segundo o também professor universitário, a classificação da tabanca seria uma forma de ser mais acarinhada pelas entidades governamentais e dar aos grupos outro estatuto para continuar a sua promoção, valorização e salvaguarda do legado cultural.

Atualmente, as atividades da tabanca arrastam multidões pelas ruas da Praia, que tocam, cantam e dançam, com muitos vestidos a rigor como reis, rainhas, padres, noivos, armas em punho, entre outros aspetos que no tempo colonial serviam para ridicularizar a estrutura social.

"Isto mostra claramente que a tabanca poderá ser uma via de autoestima da comunidade e um espaço de identidade sociocultural do bairro de ASA", previu o porta-voz do grupo, indicando que um dos projetos futuros é criar uma associação e construir uma Casa da Tabanca na Praia.

Jair Fernandes disse que são esperadas mais de três mil pessoas no cortejo de tabanca deste sábado pelas ruas da Praia, na denominada "Buska Santo" (Procurar o Santo), onde os festeiros vão resgatar o Santo padroeiro a outro bairro, para onde o levaram há mais de um mês.

Durante os últimos dois meses, foram realizadas várias atividades, que segundo Jair Fernandes envolveram mais de 10 mil pessoas, e tiveram a presença do Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, do ministro da Cultura, Abraão Vicente, e do presidente da Câmara da Praia, Óscar Santos.

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