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REPORTAGEM: Terra de confrontos em Moçambique quer futuro com ostras, gás natural e educação

Logótipo de O Jogo O Jogo 21/10/2017 Administrator

As ostras, frescas ou cozinhadas, são um dos produtos do mar que Mocímboa da Praia, no norte de Moçambique, pode ostentar como marca, defende o presidente do município.

Ostras, marisco, pescado, em tudo isto o mar é generoso, com praias a moldar a paisagem, mas a vila ficou famosa este mês pelos ataques à polícia de um grupo armado local de inspiração islâmica radical de que até os muçulmanos fogem.

Às riquezas que já se obtêm no mar vai juntar-se uma outra que Fernando Neves acredita vai mudar a face da sua autarquia: o gás natural.

"Se Mocímboa dista 80 quilómetros do distrito de Palma", para onde estão previstas as principais infraestruturas de exploração do gás, "creio que poderá servir para parte do que vier, no que diz respeito à logística", refere.

"Sonhar não é proibido", destaca Fernando Neves, em entrevista à Lusa.

A reabilitação do porto, a dinamização do aeródromo - já usado pelas empresas petrolíferas Anadarko e Eni -, a construção de hotéis e outras infraestruturas são investimentos que o autarca antevê num prazo de cinco a dez anos, quando os projetos, agora na fase de arranque, estiverem ativos.

O gás vai ser extraído do fundo mar e entubado para fábricas de processamento em Palma.

"E ninguém vai a Palma sem passar por Mocímboa da Praia", sublinha.

Seja onde for, Palma ou Mocímboa, "é Moçambique" e é o desenvolvimento a bater à porta, acrescenta o autarca, que diz já se notar que há "procura de espaços para construção".

É neste cenário que irrompe o conflito armado no dia 05 de outubro, em que já terão morrido cerca de 30 pessoas, a maioria do grupo agressor, mas também seis elementos das autoridades e um líder comunitário.

No rescaldo - sem que se saiba se o grupo ainda está ativo nas matas -, o município de Mocímboa da Praia está a realizar um registo local da população, além do censo nacional, realizado em agosto.

"Este é um recenseamento interno, para podermos aferir com quem estamos a viver, porque é que o analfabetismo no nosso distrito tende a subir" e saber quem estuda, "para que amanhã sensibilizemos a comunidade para a importância de levar o filho a estudar".

"Nós não estamos a proibir que o filho faça outras atividades", como frequentar "a madrassa [de ensino do Corão]: pode fazer, mas que tenha também espaço para ir aprender a ciência", refere o autarca.

"Porque a ciência faz com que possamos crescer e nos desenvolver" e será sempre mais difícil alguém "coagir" uma mente esclarecida, conclui Fernando Neves.

Diferentes dirigentes islâmicos da região em entrevista à Lusa apontaram crentes sem instrução e em situação desfavorecida como os principais suspeitos de integrar o grupo armado.

"Muitas crianças e muitos jovens foram apanhados por causa da sua ignorância", refere Amade Suleimane Juma, líder religioso em Mocímboa da Praia.

Outro residente na vila alerta para a situação de vulnerabilidade de "quem não tem emprego: é mais fácil de convencer para assuntos macabros".

Noutro ponto da região, em Montepuez, Saide Bacar, dirigente islâmico, diz que há cabecilhas que "estão a aproveitar-se" daqueles que "não estudaram, são pobres e esfomeados".

Basta um punhado de dinheiro ou comida para os conquistar para qualquer causa.

O município e outras autoridades de Mocímboa da Praia querem que a causa comum seja o desenvolvimento, num trabalho que se pretende realizar a partir das escolas.

Depois da primeira sequência de ataques armados, no dia 05, o grupo conhecido localmente como "os Al-Shabaab" - mas sem ligação aparente com a organização terrorista do sul da Somália - é suspeito de ter voltado a atacar uma patrulha policial, desta vez no mato, na quinta-feira, dia 12.

Alguns residentes na vila relatam ainda ter ouvido tiros, ao longe, na manhã de domingo.

O Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM) afirma que continuam as investigações e interrogatórios sobre os ataques.

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