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Revolução russa: Celebrações oficiais sob o signo da "concórdia nacional"

Logótipo de O Jogo O Jogo 21/10/2017 Administrator

A Rússia de Vladimir Putin programou algumas dezenas de iniciativas destinadas a assinalar os 100 anos da Revolução de Outubro de 1917, mas centradas no signo da "concórdia nacional" para evitar "ódio e ressentimentos" ligados ao passado.

A reconstituição do assalto ao Palácio de Inverno em Petrogrado pelos bolcheviques, num espetáculo em "três dimensões" programado para 25 de outubro no atual Museu Hermitage de São Petersburgo (a antiga Petrogrado e depois Leninegrado), constitui um dos pontos altos das celebrações dos 100 anos da Revolução de Outubro (25 de outubro no antigo calendário, 07 de novembro no atual).

As efemérides, organizadas pela Sociedade de História da Rússia e que pretendem abranger o período entre 1917 e 1921, revelam a preocupação de "evitar polémicas", tendo sido excluídos do comité organizador representantes dos partidos políticos, como revelou um artigo do jornal Moskovski Komsomolets.

A "abordagem objetiva dos acontecimentos entre 1917 e 1921", no pressuposto de que "vencedores e vítimas têm cada qual a sua verdade", são princípios que definiram a programação do comité.

Esta estrutura oficial integra investigadores, professores, diretores de museu, cineastas, responsáveis pelos principais canais televisivos e representantes da Igreja ortodoxa.

Dois aristocratas também surgem em representação da designada "emigração branca", que abandonou o país após o triunfo bolchevique.

O Presidente Vladimir Putin apelou a uma "análise honesta" das causas e consequências das revoluções de fevereiro e outubro, para promover a "concórdia nacional" e evitar reacender "a discórdia, o ódio e o ressentimento ligados ao passado" ou exacerbar o debate na sociedade.

O Presidente da Rússia tem, contudo, evitado assumir uma posição clara sobre 1917, para escapar às polémicas partidárias. E parece aspirar a surgir como a figura histórica que reconcilie "brancos" e "vermelhos", os dois grandes campos que se confrontaram na Rússia após outubro de 1917, em particular com o início da guerra civil e a intervenção militar internacional.

Mas, inevitavelmente, ocorreram divergências entre os membros do comité sobre os preparativos da celebração, em particular provenientes da corrente aristocrata.

"A reconciliação é insuficiente. Exigimos o arrependimento. E isso ultrapassa a mera compreensão dos factos", terá afirmado o príncipe Alexander Trubetskoi, citado pelo Moskovski Komsomolets.

No Kremlin, as preocupações são mais abrangentes, ao recear-se que as celebrações, previstas em dezenas de países, constituam pretexto "para promover uma nova vaga de ressentimentos antirrussos", em particular nos diversos Estados do leste europeu que se "autonomizaram" após a queda do Muro de Berlim em 1989.

Um contexto que Mikhail Chvydkoi, conselheiro de Putin, disse ter de ser tido em conta nos preparativos.

A relativa indiferença das autoridades russas à abordagem destes acontecimentos também pode refletir o incómodo sobre a atitude a adotar face a mudanças de regime violentas.

Assim, o centenário da revolução de 23 de fevereiro de 1917 (no antigo calendário), que implicou a resignação do czar e abriu caminho à revolução bolchevique de outubro (07 de novembro) ficou quase limitado a debates e mesas-redondas entre historiadores "oficiais".

Em paralelo, diversos comentadores têm sugerido interpretações que traçam paralelos históricos com a situação contemporânea, e o espetro de novas turbulências revolucionárias.

O centenário da Revolução russa também confirmou o regresso da nostalgia de um império que terá começado a colapsar com o triunfo bolchevique, mas que Estaline, pouco criticado oficialmente, terá, entretanto, recuperado.

Um colosso que agora se tenta reerguer, com críticas oficiais à revolução, mas não ao regime soviético, que ainda causa nostalgia em parte da população.

A Igreja ortodoxa, que tem declarado a sua lealdade a Putin, desempenha uma função essencial neste "renascimento" nacional.

Nas homilias denuncia-se o "terror vermelho" de 1917 e, com a anuência do Kremlin, tenta apagar-se a memória de Lenine e o espírito da revolução, enaltecendo-se a ideia da grandiosidade nacional russa.

A história da Rússia pré-revolução tem sido reabilitada, em particular a indissociável relação entre a glorificada dinastia dos Romanov (a família real fuzilada pelos bolcheviques em 1918) e a Igreja. E em agosto de 2000, Nicolau II, o último dos Romanov, foi canonizado enquanto "mártir da revolução".

Em recentes declarações, o historiador Andrei Zubov referiu-se ao regresso do conceito de "fatalidade histórica", pelo qual a Rússia está destinada a permanecer um regime com características "totalitárias", um Estado forte e omnipresente que reprime as liberdades individuais.

No entanto, a aproximação de Putin à ortodoxia não significa que a Igreja russa, que possui objetivos próprios, se tenha tornado a nova ideologia em substituição do comunismo. Mas as críticas do líder do Kremlin a Lenine e aos bolcheviques têm agradado ao patriarcado.

No atual panorama, as celebrações da revolução bolchevique não deverão assim constituir um "grande acontecimento", como também antecipou ao Moskovski Komsomolets, um analista do centro de pesquisa Carnegie: "Penso que o poder oficial vai limitar-se a declarações gerais sobre a necessidade da reconciliação. Mas as cadeias de televisão oficiais vão exibir toda a espécie de documentários onde veremos sem dúvida os bolcheviques como forças negativas e destrutivas".

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